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Blade Runner, na pressão
Por Rafael Lima — Sexta, 28 de abril de 2006
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Não é mistério para ninguém que parte do sucesso de Frank Miller se dá por conta da violência que ele embute em cada história. Brilhantismo narrativo e originalidade conceitual à parte, a catarse em ver um problema resolvido na base da ignorância é componente inseparável de suas histórias, muitas vezes, exagerado – como crítica, como auto-paródia; caricatura. Ou apenas exercício de estilo.
Nessa última categoria, nada que ele tenha feito supera Hard Boiled, lançada no Brasil pela Pandora Books, numa edição tão econômica quanto mal digitalizada, em 2002. Hard Boiled é a história de... não, vamos parar logo por aqui. Hard Boiled não tem história; quando muito, um fiapo narrativo baseado numa idéia que nem é original de Frank Miller, a de andróides que sonham serem humanos, todos os direitos para Phillip K. Dick e seu substrato cinematográfico mais conhecido, Blade Runner.
Junte-se a isso a ambientação típica do cyberpunk – robôs e humanos vivendo em comunidade, vida diária com altas doses de tecnologia, cidades superpopulosas cheias de poluição visual e auditiva, clima de decadência de fim de império – e uma bela dose de ultra-violência (todos os direitos para Anthony Burgess e seu livro mais conhecido, A Laranja Mecânica) e o resultado é uma história em quadrinhos de 120 páginas? Muito dificilmente.
Mas se o desenhista for Geof Darrow, o papo é outro. Miller tem dois méritos em Hard Boiled: ter rascunhado um conceito a partir de um mote; ter elevado em duas ordens de grandeza o nível de violência de uma história em quadrinhos. O resto todo é Geof Darrow. O que ele faz com um nanquim e papel nessa mini-série tem poucos pares no mundo da arte sequencial. Não é de se espantar que tenha demorado 3 anos para terminar a série.
Detalhista no limite entre a riqueza e a sujeira visual, Darrow parece ter aplicado a lógica dos livros Onde está Wally? à narrativa quadrinhística, tal a profusão de referências visuais, logotipos e brincadeiras que esconde em cada quadro; é de fazer Sergio Aragonés se vexar com as brincadeirinhas de Groo. O mesmo exagero que Miller incluiu em Cavaleiro das Trevas ou Sin City ou O Retorno do Cavaleiro das Trevas está presente em Hard Boiled, com uma diferença: Geof Darrow desenha muito melhor.
Herdeiro da linha clara dos belgas, perverte Hergé ao contaminá-la com excessos e ao sujá-la com sangue, aqui nanquim preto, estilizado, talvez num prenúncio do que viria em Sin City. Gustave Doré cibernético, breca o ritmo narrativo, obrigando o leitor a se deter em cada imagem mais do que o andamento da história pede. Nem a cor ajuda a discernir o que se esconde em cada centímetro quadrado.
Em todos os parágrafos anteriores falou-se em violência. Não é pouco, como não é pouca a violência da história, por isso vai mais um, só para ela. Em algum lugar já se escreveu que Hard Boiled provavelmente é a história em quadrinhos mais violenta já feita. Afirmação difícil de ser contestada. Nem pelo número de mortos, nem pela quantidade de armas, sempre imensas, exageradas, fálicas, exatamente como em Elektra Assassina. Pelo próprio papel em si: Nixon, o andróide protagonista, foi criado para lutar e resume a somente isso sua participação na história.
Descontando-se uma ou duas cenas de família (incluindo uma desavergonhada cena de sexo, incomum nas páginas de Miller), sempre aparece de armas em punho, completa ou parcialmente dilacerado; cartuchos de bala saltam da página como moscas no verão; explosões sucedem-se a acidentes automobilísticos. Não há paz, não há sossego, não há trégua – no future, como diziam os punks, não há espaço para seres humanos, somente andróides que sonham ou, na proposta de Miller, são levados a sonhar que são humanos, para serem melhor controlados. Duro não é aturar a ultra-violência, é o pessimismo.
Meia dúzia de críticos pode enxergar nesse sururu uma nota de niilismo, uma crítica à banalização e aos excessos consumistas, um vômito contra a violência, um apelo à ressensibilização e à humanização das pessoas de bem. Pode ser. Mas no seu íntimo, aposto que Frank Miller acha graça e ri às escondidas, enquanto prepara seu próximo parto de violência e ironia iconoclastas. Na pressão, como sempre.
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