Qualidade além das pernas

Seria difícil, talvez, imaginar que um filme bastante conhecido não tanto por sua qualidade, mas sim por uma cruzada de pernas, teria uma seqüência que ultrapassasse o mero desejo de arrecadar uns milhões na bilheteria causando polêmicas. Pois está aí
Instinto Selvagem 2 para provar que o mundo ainda é surpreendente.
Com um diretor completamente inexpressivo até então, e um co-protagonista desconhecido, apenas
Sharon Stone chama a atenção no cartaz, com suas belas pernas cruzadas (posição essa que não se repete dentro do filme). No entanto, ao passar dos minutos, vamos vendo que tudo vai se encaixando com grande habilidade, todos os quesitos, desde os mais técnicos (como a fotografia repleta de sombras) até os mais artísticos (as interpretações contidas, mas firmes), são mesclados e trabalhados com a certeza de quem sabe o que quer – ponto para o agora expressivo diretor escocês
Michael Caton-Jones.
Ele consegue o ponto certo para ir revelando a trama do ótimo roteiro de
Leora Barish e
Henry Bean. Algo que começa com Sharon Stone sendo masturbada por um jogador de futebol quase inconsciente dentro de um carro a 177 km/h pelas ruas de Londres tinha tudo para dar errado e se transformar em algo constrangedor. Mas, ao contrário, a história desenvolve-se de maneira tal, e com tal suspense, que desde o início vamos querendo ver e saber mais sobre os personagens, para chegar a alguma conclusão.

Sharon Stone volta a interpretar a escritora Catherine Tramell, que, após se envolver no acidente de carro que mata o jogador de futebol, é acusada de homicídio. Ela é inocentada e no processo conhece o Dr. Michael Glass (
David Morrissey), que faz sua avaliação psiquiátrica. Dizendo-se atormentada com o relatório dele - que a diagnosticou como viciada em situações de risco – ela o procura e iniciam tratamento. Então começa um jogo de sedução entre os dois, enquanto outras mortes vão acontecendo, todas de alguma forma envolvendo o psiquiatra. E agora, será ela a assassina ou alguém que quer acusá-la, ou acusá-lo, dos crimes?
O roteiro brinca com as informações que o público conhece. Assim, o assassino pode ser um ou outro personagem, e as probabilidades vão pendendo de um lado para o outro, conforme as cenas se desenrolam e conforme o grau de confiança que cada um merece, até o final irônico, que dá a impressão de
“oh, meu deus, eu teria feito a mesma coisa!”. Ou não. De qualquer forma, é um final a que se chega com todo um desenrolar de uma história consistente. Nada de finais chocantes com revelações vazias, como acontece muito por aí - ponto para a Sra. Stone, que esperou um roteiro decente para aceitar filmar.