O filme V de Vingança, adaptação para o cinema da obra de Alan Moore e David Lloyd, tem suscitado muita discussão, não só entre fãs de Histórias em Quadrinhos, mas também entre a crítica especializada em cinema. Isso é bom para os Quadrinhos, que tem se mostrado grande fonte de inspiração para a indústria do cinema, que, comenta a maioria, anda carente de bons roteiros.
As cabines de imprensa – como são chamadas as sessões realizadas especialmente para a crítica – que freqüento, tornaram-se verdadeiras salas de debates, depois da exibição de V de Vingança. Não só no dia em que o filme foi exibido, mas também em cabines de outros filmes.
No entanto, tem me incomodado muito, o grande número de especialistas em Quadrinhos que estão aparecendo. Surgirem novos fãs/especialistas é bom, mas o que está acontecendo é como o que ocorre quando um time de futebol ganha o campeonato e, torcedores que há muito não tiravam a camiseta do armário, fazem isso no dia seguinte e saem orgulhosos pelas ruas. Quando o time ganha é fácil vestir a camisa.
Gente como eu que batalhou pelas HQs, brigando em salas de aula, indo em escolas debater com professores, fazendo eventos enxerga isso como fruto desse trabalho, como o resultado de uma luta insana contra o preconceito que hoje me nego a discutir. O que me incomoda de fato nos entendidos que estão aparecendo é que depois de terem lido apenas um arco de Sandman – porque é cult – e porque todo “intelectual-cabeça-aberta” já leu Sandman –, e olha lá se já leu, e já sabe definir se a obra é fiel – sem mesmo tê-la lido; se o personagem foi bem caracterizado; se a luz e sombra tem um “quê” de Quadrinho (sem nunca ter lido nada do Mestre Eisner); se o enquadramento é típico de HQ (aliás o diretor Walter Webb me reapresentou estes dias ao filme São Paulo S.A., de Person. Que enquadramento. Person devia ler HQ.)...
Com o aumento do número de filmes baseados em HQs é natural que surja uma crítica especializada advinda dos que se debruçaram de fato sobre as revistas em quadrinhos, algo necessário devido ao pouco que as HQs, com raras exceções, são estudas nas Universidades brasileiras. Sempre digo que não sou um conhecedor da cronologia dos personagens, mas sim, do que realmente importa, a linguagem das HQs, o seu processo criativo, o que leva de fato uma HQ a ser boa. (Sim, assim como na literatura e no cinema, também há HQs que são sofríveis.)
Voltando para
V de Vingança: eu escrevi uma crítica sobre o filme para o
Bigorna, site que criei e com menos de um ano de existência ganhou o
Troféu Jayme Cortez no
22º Prêmio Angelo Agostini, e o crítico de cinema,
Celso Sabadin escreveu uma ótima crítica no site do
Planeta Tela, espaço cultural que ele administra junto com a esposa e onde, agora, eu coordeno um curso de HQ. Celso faz menção ao filme
1984 e, embasado no profundo conhecimento que tem, coloca
V de Vingança num patamar elevado.

Tenho conversado muito sobre Quadrinhos e debatido sobre a necessidade da fidelidade dos filmes de HQs. Sobre a fidelidade, concluímos em nossas discussões nas cabines, que não há como, via de regra, mantê-la na versão cinematográfica, mas que os leitores fiéis sempre a cobrarão.
O que não podemos esquecer é que estas duas indústrias são distintas em algo que é gritante: o número de leitores e o número de expectadores. Aí reside a diferença brutal entre estas duas indústrias, os que cobram a favor da fidelidade são minoria (embora não seja uma minoria silenciosa, ela até que é bastante barulhenta!). E os diretores precisam pensar na maioria. Há pessoas que só conhecem o
Batman do cinema! Nunca leram um gibi do Cavaleiro das Trevas.
Independente de entender ou não de Quadrinhos, muitas pessoas não entenderem o filme, não conseguiram interpretá-lo, escrevendo que ele é “perigoso”. Eu acho que acima de tudo temos que brigar sempre pela liberdade de expressão. O diretor de cinema, assim como o quadrinhista, tem o direito de apresentar seu ponto de vista. Não é porque um terrorista explodiu o Parlamento inglês que vamos sair por aí derrubando prédios, assim como se virmos num filme um cara sair por aí matando gente – em
Do Inferno, por exemplo, também inspirado em uma HQ de
Alan Moore –, que vamos fazer o mesmo.
Antes de encerrar, indico aos que querem conhecer um pouco sobre a linguagem das HQs, não só lerem HQs, mas que também leiam
Desvendando os Quadrinhos, de
Scott McCloud, publicado pela M.Books;
Quadrinhos e Arte Seqüencial, de
Will Eisner, da Martins Fontes e
Narrativas Gráficas, também de Eisner, publicado pela Devir. Apenas alguns livros sobre o assunto publicados no Brasil.
Para encerrar, o Celso disse algo importante em uma conversa recente, quando fomos juntos a Playarte, assistir ao ótimo filme espanhol
Crime Perfeito: "
V de Vingança não é um filme sobre terrorismo, é um filme sobre liberdade!”
Até mais!