Quando a História bate à porta

Por Rafael Lima — Terça, 11 de abril de 2006

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Veneza, 2004: a chegada em La Serenissima por mar ainda é capaz de deslumbrar qualquer alma deste mundo, mas como qualquer dos milhares de turistas que desembarcam todo dia na cidade, chego de trem, pela Ferovia, que te deixa mais ou menos do outro lado da Praça de São Marcos. A primeira caminhada pelas ruas de uma cidade nova, quaisquer que sejam as ruas ou a cidade, é um momento de grande emoção, mas abafo a minha pela expectativa de enfim conhecer ao vivo as fachadas do Palácio dos Doges e da Catedral de São Marcos.

Quando finalmente adentro a piazza, sou engolfado por centenas de pessoas caracterizadas como no século XVIII, chapéus de três pontas encimando narigudas máscaras brancas que ocultam a maior parte do rosto. Só faltava o próprio Casanova em pessoa para dar as boas vindas... Falando nisso, quem é aquele senhor alto, de capa preta e sorriso insinuante ali no canto?

Antes que eu seja, que qualquer um seja totalmente engolfado pela magia do lugar – as filas e os preços dos cafés estão ali para trazer-nos de volta à realidade – percebo os holofotes e um punhado de gente esquisita portando equipamentos modernos demais para aquele cenário. Câmeras. Um filme.

Nos dias que se seguiram, descobri que tratava-se de mais uma refilmagem do mito de Casanova, devidamente esculhambada pelos locais por se tratar de uma produção dos estúdios Disney. Casanova para crianças, quem sabe. E dividi meus sentimentos, agora não mais abafados, entre a fúria pela invasão daqueles espaços históricos por uma equipe de cinema (como se as hordas diárias de turistas não fossem suficientes para banalizar a cidade) e um tipo muito especial de deslumbre provocado pela sublime ilusão de estar numa máquina do tempo que me levou de volta aos dias de glória de Veneza, onde eu poderia esbarrar numa esquina com Vivaldi, Pietro Longhi ou Tiepolo. Inesquecível. Foi o único lugar de onde vi um transatlântico passando ao longe e não imaginei como seria estar nele. Não precisava.

Perth, 2006. Uma das primeiras coisas que descubro acerca do escaldante verão da costa oeste australiana é que existem uns 6 cinemas ao ar livre na cidade, telão e grama, onde os sucessos e estréias da temporada entram em cartaz. A única experiência que eu tivera com drive-ins datava de mais de 20 anos antes, depois disso só o quase fiasco de um Vivo Open Air no qual, como tudo no Brasil, não importa quão cedo você chegue, os lugares bons sempre estarão guardados para algum convidado vip que, na maioria das vezes, nem dá as caras.

No cinema aberto de Burswood nem se entra de carro nem tem lugar reservado para atorzinho de telenovela; todos os funcionários são voluntários, a renda vai para caridade e cada um que leve a sua cadeira dobrável ou cobertor de piquenique se não quiser sentar na grama. Mordomia? Não viram nada.

Os almofadões, encostos de cabeça, cobertores e edredons que se espalham pela grama criam um cenário inusitado, além de providenciar a reles mortais o conforto que nobres do período de Casanova não dispunham. Afinal, foi por causa dele que eu vim ver o filme, cujas filmagens marcaram minha passagem por sua cidade. Que o conquistador veneziano seja interpretado por um ator que ficou famoso recentemente por ser indicado ao Oscar por encarnar um caubói gay me parece apenas mais uma molecagem do destino.

O filme é uma tolice, como qualquer produto Disney. Apesar de logo a primeira cena ser carregada de teor erótico, Casanova aparece correndo pelos telhados com a torre de São Sebastião ao fundo, lutando de espadas e fugindo de balão, numa tentativa de associá-lo mais à imagem de aventureiro do que conquistador. Só faltava terem incluído uma perseguição de gôndolas no Gran Canal. Os diálogos são primários e cheios de piadinhas ingênuas, que parecem agradar em cheio o público australiano. A fotografia faz o que pode para levar o que é hoje um museu ao ar livre de volta aos seus dias de glória, aparentando computação gráfica.

É bom rever Veneza, ainda mais fotografada assim, e com algumas cenas de interiores decorados como na época, mas os vilões caricaturais rapidinho quebram qualquer tentativa de reconstituição de época: Veneza sofreu intervenção da Inquisição, que perseguiu Casanova, mas sua prisão não teve nada a ver com a vida licensiosa. Perto do final do filme, uma chuva fininha começa a cair, lembrando que basta uma pequena interferência para estragar uma quadro perfeito.

Como um personagem histriônico numa rica reconstituição histórica. Como uma filmagem no meio de Veneza.




COMPRAS
DVD > DVD Casanova (Heath Ledger, Jeremy Irons, Lasse Hallstrom, Sienna Miller)
Livro > Cidade dos Anjos Caindo (John Berendt)
Game > Jogo Xbox 360 Saints Row (Importado)
DVD > DVD Anônimo Veneziano (Toti Dal Monte, Enrico Maria Salerno, Florinda Bolkan, Tony Musante)
DVD > Coleção A Revolução Francesa no Cinema- Triplo
DVD > Coleção O Chamado
Game > Jogo PS3 Need for Speed Carbon (Importado)
Game > Jogo PC Cars (Positivo)

 

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