Magia e encantamento que não envelheceram

Os 110 anos de história do Cinema proporcionaram ao público a eternização, em imagens em movimento, de alguns dos mais belos clássicos da literatura infantil. Graças, principalmente, ao trabalho de Walt Disney e seus estúdios, a maioria dessas maravilhosas adaptações deu-se através do desenho animado, sendo poucos os casos de contos de fada levados à tela em
live action, com atores de carne e osso.
Pele de asno, realizado por
Jacques Demy em 1970 e adaptado da obra de
Charles Perrault, é um das raras exceções - e, curiosamente, uma estória que até hoje não recebeu uma versão em desenho animado, ao menos não uma versão importante. Porém, graças ao maravilhoso trabalho do cineasta de
Os guarda-chuvas do amor, pode-se dizer que essa versão animada, inexistente da obra de Perrault, nem se faz necessária: Demy transforma cada segundo de seu filme em um espetáculo da maior beleza e encantamento que se poderia esperar.
No filme,
Catherine Deneuve, linda aos 27 anos, é a princesa encantada que se vê tendo que fugir para um reino distante quando seu pai, o rei recém-viúvo vivido por
Jean Marais, decide casar-se com a própria filha. Reside aí o solitário equívoco do filme: ficaria bem melhor para a trama e para seu público se o rei quisesse, por exemplo, forçar o casamento de sua filha com um príncipe malvado, por exemplo, ou com um bonitão grosseiro, como ocorreria na primorosa versão de
A bela e a fera que os Estúdios Disney realizaram em 1991, também adaptando uma obra de Perrault.

Essa forte insinuação de incesto compromete, sim,
Pele de asno, mas não a ponto de impedir que, embora assustado, o público se deleite com a estória da princesinha e suas desventuras: protegida pela fada-madrinha, ela vai viver como uma simples camponesa em um vilarejo, trajando apenas a pele de um asno encantado - que pedira ao pai como condição para o casamento, na vã esperança de que o rei se recussasse a matar o animal e, assim, inviabilizasse o matrimônio.
Apesar do incômodo que a situação imposta pelo rei a sua filha possa causar, Demy conduz o filme que registrara seu novo encontro com Deneuve com toda a magia e elegância que se caracterizou por oferecer ao espectador. Fotografia, cenários e figurinos são um verdadeiro deslumbre para os olhos e convertem sem dificuldade
Pele de asno em um filme encantado.
E tem a música do habitual parceiro do diretor,
Michel Legrand, que certamente permanecerá nos ouvidos e no coração dos amantes do Cinema com a mesma perenidade que
Pele de asno já se enquadra entre os grandes e inesquecíveis filmes que essa linda arte realizou no decorrer de sua história.