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Superguidis e a ambição radiofônica
Por Márcia Lima — Quinta, 30 de março de 2006
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Que semana ótima, hein? Não é todo dia que recebemos 6 músicas da Dirty Pretty Things de presente. E que presente, rapaz! Os caras estão com tudo. Capas da NME, novamente, ingressos esgotados em menos de 10 minutos em clubes londrinos, vídeo para "Bang Bang You’re Dead"... Mal posso esperar pelo disco completinho.
Falando em NME, olha só que bacana. Você indie descoladinho, de boa vontade porém pouca grana, pode se alegrar. Comprar o semanário no nosso país, você sabe, é um assalto. A assinatura anual chega quase aos quatrocentos reais. (!) Mas, agora eles lançaram uma alternativa bacana para quem mora longe da ilha: assinatura digital.
Funciona assim, você paga 32 dólares pela assinatura anual e recebe, semanalmente, a revista completinha em seu e-mail. Claro que não é a mesma coisa, mas que quebra um grande galho, ah isso quebra. Mais informações aqui.
-.-
Mas, voltando ao assunto "bandas bacanas"... Lembra que eu comentei que a Superguidis havia lançado o primeiro disco, e que esta coluna não havia conseguido entrevistá-los? Nossos problemas acabaram e logo abaixo você confere a conversinha que tivemos.
Eu não sou o que se possa chamar de fã-de-rock-gaúcho. Acho tudo muito parecido, logo, ouço as bandas com uma certa desconfiança. Mas, a Superguidis é naturalmente bacana. Gaúchos da cidade de Guaíba, têm aquele sotaque carregado tão característico. E tem fãs. Muitos fãs. Só no Orkut são 850.
Há anos atrás lembro nitidamente de estar assistindo tevê e, na troca de canais, passei por uma banda que falava sobre ingleses que não usavam mullets e uma porção de outras colagens misturadas num rock dos bons. Fiquei na frente da tevê, batendo pézinho, já com o refrão na ponta da língua. Ao final da canção o apresentador disse que a banda se chamava Dissidentes, e eu, mais do que depressa, anotei o nome em um extrato de banco e colei no computador para não esquecer.
Esquecer? Bem capaz. Passei a semana cantando que os ingleses não usavam mullets. Algum tempo se passou e um dia, ao ligar o rádio, lá estavam os garotos falando daquele inglês, novamente. Após a música, o locutor falou que eles estariam em Porto Alegre, para um show num domingo, ou sábado, no fim da tarde.
E lá estava eu. Após a apresentação de duas outras bandas eles entraram no palco. Andrio, o vocalista, bem na dele, Lucas, o guitarrista, fazendo propaganda do disco. Clima bom, galera divertida, e o que mais importava: as músicas. Todas eram ótimas (todas!). Sabe aquele tipo de música que você quer muito saber a letra para poder cantar junto, no momento em que conhece? Foi assim.
Resumindo: o show foi daqueles em que você sai de alma lavada. Amor ao primeiro acorde, sabe? Não costumo comprar cd em show, mas não tive dúvidas, desembolsei a graninha e fui pra casa com o chamado “Pacotão”, uma compilação de dois EPs, que hoje está disponível para download no site oficial. Ouvi o disco diversas vezes, e ouço ainda hoje. Outra banda assim, no Sul? Difícil, viu? Acho que só a Viana Moog, que já deu um pulinho aqui nesta coluna.
Com influencias de Pavement e Guided By Voices, lançando o primeiro disco nacionalmente e com um vídeo lindo na praça, não demora muito e você vai ouvir falar deles: revistas como MTV, e jornais como Folha de São Paulo e Zero Hora já começaram. E quando eles estiverem no seu estado, por favor não deixe de ir ao show. São Paulo é uma cidade de sorte. No dia 20 de abril eles estarão lançando disco aí. Imperdível é a palavra.
Se você quiser conhecer algum som da banda, enquanto lê a entrevista, dá um pulinho aqui na Tramavirtual e aproveita. Banda boa como essa não é sempre que aparece.
Você pode comprovar o quão cool é a Superguidis, através da conversinha que o vocalista teve com a coluna:
Quem faz parte da Superguidis? Quais são as características; o que cada um traz para a banda pessoal e musicalmente?
Andrio: Diogo Macueidi (baixo): o maior piadista nonsense que eu conheço. Traz umas linhas de baixo persistentes, às vezes trabalhando junto com a bateria, às vezes parecendo uma terceira, e mais grave, guitarra.
Lucas Pocamacha (guitarra/ backings): é o entertainer nos shows. Tem umas idéias melódicas meio doidas, porém sempre com um significado sentimental: nenhum acorde feito por acaso, pra “encher lingüiça”.
Marco Pecker (bateria): nos ajuda a não gastar grana à toa. Não espanca, mas também não faz carinho na bateria.
Andrio Maquenzi (eu) (voz/guitarra): um tanto o contrário do Lucas, acho. Aquelas melodias grudentas e manjadas que não me saem da cabeça eu tento pô-las nos sons.
Como surgiu a idéia de montar a banda?
Andrio: Acho que como quase todos os jovens amantes do rock: juntando amigos que saibam tocar algo e que tivessem com o quê tocar.
Quais as influências musicais e literárias de cada integrante? Até que ponto elas influenciam na sonoridade da Superguidis?
Andrio: Musicalmente e de um modo geral, Guided by Voices está na linha de frente. Ramificações: Queens of the Stone Age representada pelo Marco; a nata e a farofa dos anos 80 pelo Diogo; Nirvana, Sonic Youth e demais “guitarras que conversam entre si” é a minha praia; e o coração na ponta da palheta do Lucas.
Na literatura, sou partidário do Chorão (CBJr.) quando diz que não sabe fazer poesia (risos). Gosto bastante da literatura marginal norte-americana (como os beats e Bukowski), mas eles não influem na hora de escrever algo, salvo este último pelo despojamento, pela visão de um outro ângulo das coisas simples.
Qual música serve como cartão de visitas para quem não conhece vocês?
Andrio: Qualquer uma deste primeiro disco (lançado pelo selo Senhor F Discos, de Brasília).
Por que as pessoas devem comprar o seu disco?
Andrio: Se elas devem, eu não sei…nunca fui da publicidade, onde tu falas bem da tua criação e cria no outro a necessidade de adquirí-la. Prefiro a coisa de relações públicas, onde os outros falam da tua obra. E o que anda saindo em blogs, sites e jornais do Brasil é algo extremamente entusiasmante e satisfatório: sinal de que a imprensa (grande e a alternativa) está sacando o que queremos dizer.
Se vocês tivessem a oportunidade de organizar um festival, quais seriam as bandas convidadas?
Andrio: Putz, organizar festival é muito estressante…passaria a bola pra ABRAFIN (Associação Brasileira de Festivais Independentes) que é mais competente (risos). Mas enfim: botaria uma pá de bandas independentes, e pra fechar só os mortos: Pavement, Guided by Voices e Nirvana. Não deixaria o Kurt beber nada pra não fazer merda no show (risos).
Se não estivessem na banda, o que estariam fazendo?
Andrio: Esta pergunta eu poderia responder melhor se no futuro a gente for bem sucedido (risos). Neste momento eu estou respondendo a esta entrevista durante a pequena brecha de tempo que abriu-se em meu ambiente de trabalho, como secretário de Escola Pública. Ou seja: enquanto não houver como viver de música, temos de ter essas atividades paralelas, de onde tiramos merreca pra comprar cordas novas, baquetas e coisas do gênero.
O que o resto do país deve saber sobre a cena musical de Porto Alegre e Guaíba?
Andrio: Como havia dito em uma outra entrevista, é interessante que se saiba que por aqui há algo bem mais sortido e abrangente do que se percebeu no Acústico Bandas Gaúchas, da MTV. Obviamente o Sul está muito bem representado ali (e nem teria como empacotar o cenário alternativo gaúcho num único musical de TV); contudo, vale a pena observar também o subsolo, além do térreo e do 1º andar.
Morar fora da capital prejudicou a banda em algum momento?
Andrio: Quase sempre (risos). Principalmente quando eu não tinha meu Chevette e tínhamos de andar de ônibus carregando equipamento, antes e após os shows, de madrugada…bundões como nós, tivemos muita sorte de não vivenciar más surpresas com nossos poucos bens valiosos nas mãos (risos).
Quem é o público da Superguidis?
Andrio: Tenho uma vaga idéia…conheço gente em cujo gosto musical caiba nós e a neo-grunge Reação em Cadeia [nota da coluna: banda gaúcha horrível], sem falar em outras combinações bizarras. Mas de uma forma geral deve ser quem ouça rock da década de 80 pra cá.
Quais são os planos para o futuro da banda?
Andrio: Divulgar e colher frutos deste primeiro filho. Tocar em grandes festivais nacionais com o auxílio da já citada ABRAFIN: Porão do Rock, Abril pro Rock, Curitiba Rock Festival, etc.
Como se deu a relação entre a banda, os selos Alvo e Monstro, e a gravadora Senhor F?
Andrio: A Alvo e a Tratore são responsáveis pela distribuição nacional do disco. Na loja online do Selo Monstro Discos tem o disco pra vender. Senhor F Discos, capitaneado pelo jornalista e crítico musical Fernando Rosa, é o nosso Selo. Já conhecíamos os guris da Monstro por participar do Festival Bananada/2004. A relação com o Senhor F começou quando mandamos o EP de “O Veio Máximo”, cuja faixa-título foi disponibilizada para download, ainda em 2004. Mas foi com o material deste que consideramos o nosso primeiro disco que estreitamos a relação. E tamos aí hoje…
Como vocês classificam o próprio som?
Andrio: Gosto daquela: “Referências do Underground, com ambição radiofônica, pop”.
Por que a Dissidentes virou Superguidis? A sonoridade mudou? Os integrantes eram os mesmos?
Andrio: Dissidentes era um fardo que carregávamos (eu, Diogo e Marco) desde a época em que fazíamos covers de grunge. Após, com a chegada do Lucas, o nome foi ficando, até que resolvemos pôr a mente pra funcionar e adotar algo menos pior (risos). Estávamos quase dando de cara com a psicodelia e outros venenos sixties, quando “Crooked Rain, Crooked Rain” do Pavement caiu em nossas mãos. Foi uma dádiva.
Foi difícil escolher as 12 canções para o disco? Afinal canções como Riffs, Jovem Guardianas e A Saudade e o All Star, (só para citar algumas) ficaram de fora, e sempre foram muito bem recebidas pelo público.
Andrio: Não foi difícil (até porque eram as pouquíssimas canções novas que tínhamos, naquele momento). Das que tu citaste, apenas a segunda desistimos de tocar, em virtude do grande volume de canções que surgiu, novas e bem diferentes desta. Não acho uma canção ruim, nos proporcionou coisas legais, mas já deu o que tinha que dar. Acabou o suco.
Onde o disco foi gravado?
Andrio: No Estúdio Sonic, pertencente ao camarada de mesmo apelido, aqui na terrinha mesmo, em Guaíba. Vou vender o peixe dele porque o cara tá louco pra trabalhar: (51) 8116 9459 c/ Rafael “Sonic”.
A comunidade da Superguidis, no Orkut, tem 865 membros. É grande a interação entre a banda e os fãs. Até que ponto isto ajuda na divulgação de uma banda?
Andrio: O Orkut faz uma baita mão. Ali, além de divulgar shows e outros eventos, também rolam enquetes: a escolha das canções que gravamos deveu-se em grande parte a uma votação feita na comuna.
Vocês certamente já devem ter baixado algum disco da internet. Agora que vocês podem ser o alvo da “pirataria” a posição em relação ao mp3 é a mesma? Vocês acham que a troca de mp3 pode prejudicá-los de alguma forma?
Andrio: É uma eficiente forma de divulgação. Só não disponibilizamos todo o disco na Internet para não estragar a surpresa. Uma das vantagens de um disco independente é o preço: vendemos nos shows a módicos 10 reais, justamente pro camarada levar o disquinho pra casa. Logicamente, onde o preço aumenta a coisa se complica: é difícil para um assalariado gastar 30 contos num CD.
Todos compõem? Como é processo de composição?
Andrio: Eu e o Lucas chegamos no estúdio (leia-se “garagem do Marco”) com a letra e o esboço da melodia prontos. Daí o Diogo (baixo) e o Marco (bateria) vão inserindo idéias, lapidando-a. Até agora eu e o Lucas nunca dividimos uma composição: o esqueleto das músicas é sempre de autoria individual.
Qual o significado de Spiral Arco íris?
Andrio: São aqueles penduricalhos em forma de espiral, feitos de palito de picolé colados um no outro. Medem 30 cm pra mais, sob cores variadas. Não sei se aquilo tem uma nomenclatura correta, mas foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando minha namorada entrou com um desses em casa.
Qual a melhor canção do disco, na tua opinião?
Andrio: Eu vou saber? (risos) Pra ti, qual é a melhor?
[pergunta dificílima. Até agora não consegui eleger a minha preferida. Na dúvida eu fico com todas ]
O disco abre mandando alguém para o raio que o parta e encerra dando adeus “ao outro cara triste”. A ordem das músicas têm algum significado “sentimental”?
Andrio: Coincidentemente, ambas do Lucas. O recheio não segue uma ordem específica, mas as extremidades, sim: abre chutando o balde e fecha num clima de despedida. As duas têm em comum uma certa libertação de algo que há tempos incomodava, sei lá. Melhor se o Lucas respondesse essa (risos).
Como é a relação com a mídia? Como jornalista, o que tu pensa das rádios de Porto Alegre e região, e dos veículos de comunicação em geral?
Andrio: Sou um reles aspirante a jornalista, ainda. Tem um chãozinho pela frente. Existem algumas rádios que ainda sobrevivem ao jabá (ou pelo menos não foram totalmente tomadas de assalto por ele): crescemos junto com a Rádio Unisinos, que dá uma baaaaita força. Rádio Ipanema, idem. A TVE e o programa Radar faz a gente e tantas outras bandas se sentirem em casa. Ainda existe uma programação decente, um bom conteúdo cultural para a absorção do público (ainda que mal das pernas, carente de subsídios por remar contra a maré de grandes corporações e coisas que o valham).
Por que tu te defines como quase um autista?
Andrio: (Risos) Isso é de tanto minha namorada e meu amigo “Bolinha” me falarem. Não, sério: acho que é porque eu tenho algo de dispersivo, viajandão, desde gurizinho. Mas isso é algo com que eu estou lutando para melhorar (risos). Introspectivo, sempre: isso não tem Jornalismo que cure.
Onde a Superguidis estará daqui há 5 anos?
Andrio: Ainda “vintões” (à exceção do Diogo), porém com menos produção de melanina. Sei lá: vamos persistir pra não ficar no Rock ‘N’ Roll Hall of Fracasso.
P.S.: Deixe eu dar um pedacinho da nossa agenda aqui:
Dia 08/04 – Show na Marina Pública (Funhouse), ao lado do Gasômetro, Porto Alegre. Às 23h. Entrada a R$10 (estou tentando falar com o organizador pra baratear esse ingresso aí).
Dia 20/04 – Show no OUTS, em São Paulo, junto com Wander Wildner. Entrada a R$12, mulheres não pagam. Vamos lançar o CD por lá! Vai ser massa!!!
Site oficial: www.superguidis.com.br
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