E o que ela fez comigo eu também faço direto com ela

Por Felipe Ricotta — Quinta, 6 de abril de 2006

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Cara, é muito doido isso.
A gente se preparando pra sair. Quer dizer... a gente na sala olhando um pra cara do outro em silêncio total por vááários minutos ouvindo todas as outras músicas que tocaram antes de One.
Aí vem o Miguel Falabella...
"Parabéns pelo bom gosto. Paradiso FM."

Eu na cadeira de madeira perto da varanda, um drink Vanilla Sky numa mão, uma Lanterna Emocional na outra.
Ela se obrigando a tomar uma latinha de cerveja sentada no sofá com os pés na mesinha de vidro.
Até que eu não resisto e me comunico, mas da maneira que faço melhor. No papel... tá bom, tá bom! De uns anos pra cá, muito mais na tela do que no papel, certo?
E coloco em cima da mesinha de vidro pra ela ler.

"Eu gosto desse silêncio..."
(...)

(uns 15 minutos depois.)
"(...)" - (é, acho que nós não vamos mais pro empório.)
Tocava One.
Não a do Metallica, logicamente. Vocês aí devem ter percebido que hoje eu tô falando de amor, certo?
One do U2, nunca tinha me ligado de verdade nessa música.
Até já a cantei em algum embromation de bar menosprezando sua intensidade, eu confesso e me envergonho.
Ela tava cochilando já tinha um tempo, eu passando a mão no seu cabelo.
Dou-lhe um beijo no rosto, ainda com um pouco de lágrimas nos olhos e o processo criativo move meu corpo com força em direção ao computador amigo.
Tento levantar sem que ela perceba mas ela acorda quando mexi [isso aqui] da perna - eu mexi só um pouquinho da perna mesmo, que era pra ela não acordar.

"Amor, eu sei que você vai achar estranho. Mas é que eu preciso de uns minutinhos pra escrever, você se importa?"

E putz, acho que ela simplesmente vai ter que se acostumar com isso, não?

(...)

Eu escutava One, olhava pra ela que dormia no sofá com o vestidinho de sair e de repente tudo fez sentido.
Aquilo que eu tava sentindo ao escutar a letra era simplesmente tudo que eu queria colocar dentro dela naquele momento.


"...Is it getting better /Or do you feel the same / Will it make it easier on you now / You got someone to blame
You say... / One love / One life/ When it's one need / In the night / One love / We get to share it
Leaves you baby if you / Don't care for it".


(...)

(putz, cara. eu tô ouvindo a Paradiso FM e acho que hoje eu entendi a programação dela. O Falabella queria uma rádio em que ele pudesse comandar tocando só o que o inspira a escrever. Bem, se eu estiver errado e essa idéia nunca passou pela cabeça dele, então ela é minha. Meu programa de rádio vai ser assim.)

Nós íamos sair.
Pro Empório encontrar pessoas, entrar em contato com pessoas.
Ela não quer ir. Eu também não.
Quando a gente é espírito livre e está ao lado da pessoa que a gente ama, a gente não quer saber de mais nada. E bate até uma certa raivinha... onda foi parar a minha tão prezada liberdade, caraleo?
É impossível ter a vontade real de fazer alguma outra coisa nessas horas, então é preciso inventar um certo tesão em socializar ou em querer fazer alguma outra coisa mesmo.
Deve ser por isso que a gente não consegue ficar muito tempo junto.
O amor suga todas as nossas forças, a gente ainda é muito novo pra conseguir suportar toda essa intensidade de se estar à milímetros e, na maioria das vezes, em contato direto com a superfície do corpo da pessoa da tua vida. Alguns desistem.



"Some people never find love, sometimes you just can't be a man"
("Shadowlands", Ryan Adams)

E é triste pensar que mais fudidos do que aqueles que nunca encontram o amor de suas vidas, são aqueles que acham o amor, mas desistem dele porque ele realmente é muito difícil de se materializar como uma relação à dois normal pros padrões e essas coisas.
O fundo do poço, recanto dos fudidos, sempre me chama e eu acabo passando umas temporadas por lá longe dela. Mas eu nunca tenho culhão pra aguentar ficar muito tempo nele.
A tendência é que isso melhore daqui a alguns anos e eu me torne um cara mais corajoso.
Ou seja... desculpa, meu amor. Mas é o que move o meu mundo, o que eu posso fazer a não ser implorar pra você me inspirar sempre?
Afinal de contas, a gente tá nessa junto, certo?

(...)

Eu precisava ir divulgar minha festa e me mostrar presente.
Queria mostrar pra todas essas pessoas que eu conheci e que ainda não conheço direito desde que apareci por aí, ganhei um certo espaço pras minhas idéias serem divulgadas, comecei a fazer umas festas, enfim... queria mostrar pra todas elas quem era o meu amor.
Mas não tem como querer dividir ela com alguém hoje.
Não hoje.
Ela precisava sair comigo pra onde eu fosse porque ela quer conhecer meu mundo.
Ela se esforça. Ela toma umas cervejas e adora todos os lugares e todas as piadas de todas as pessoas, sorrisos, sorrisos, sorrisos pra todos, ela quer pertencer à esse mundo. E se abre violentamente à ele. Por amor.
Mas por amor também, ela sabe que não tem como querer me dividir com alguém hoje.
Não hoje.
Hoje não é dia de sair, mas a gente se força.

(II) - pause no texto. eu fui dar uma satisfação porque tava sendo um pusta vacilo ficar aqui escrevendo e largar ela sentada esperando no sofá.

"Amor, desculpa não tá te dando atenção. Mas cara, é que você tá violentamente aqui dentro do coração agora. Então eu nunca te dei tanta atenção, pode ter certeza."
"Tá bom, amor." - ela tomou mais um gole e depois deitou de novo no sofá.

(>) - play.

A gente só consegue querer mesmo sair por aí e pensar em outras coisas quando estamos num Dia Excepcionalmente Ótimo e principalmente, nos dias de pico serotonínico e favoráveis astrologicamente.
(ué, mas não seria a mesma coisa?)
Às vezes precisamos de drogas que facilitem as coisas, igual todos as outras pessoas do universo.
Mas aí quando é pra encarar a Noite e as Pessoas da Noite juntos, a gente nunca esquece que tá lidando com esse mega risco eminente de perder um ao outro em alguma troca de olhar por aí.
Eu e ela secretamente adoramos sentir esse perigo.
Acho que a maioria dos casais que eu conheço que realmente se amam e que viram Casais De Velhos Mundo Cama - como eu e ela alguns anos atrás - acabam se acovardando diante do medo e eu juro que os entendo. Não é pra qualquer um mesmo.
Sabemos que estamos correndo riscos por sermos tão livres, por termos essa relação tão "sincera" - na medida do possível (lógico!) que é a parada mais linda do mundo e gostamos de nos forçar a cagar pro perigo o máximo que der.
Temos a noção de que se o nosso amor olha sim(!) pro lado e que flerta sim(!) com outras pessoas e que busca o tempo todo se desprender desse poder intenso possessivo insuportável do amor, isso é algo maravilhoso apesar de parecer o contrário pra todos os terceiros(as) que surgem em nossas vidas e nunca entendem nada. Coitados, eles(as) são totalmente escurraçados(as) sem dó nem piedade depois de serem totalmente seduzidos, nós somos maus mesmo. Buuuuu!
Mas enfim.
Eu pensei sobre tudo isso enquanto tocava One do U2 e eu passava a mão em seu cabelo enquanto ela dormia.

(...)

(em off, o recado pra ela.)
Eu queria muito que ela lesse isso aqui agora.
Até pra saber se nós vamos mesmo sair hoje à noite ou não.

(Stop.)

"Amor, olha. Eu preciso que você termine o texto pra mim. Você pode fazer isso?"
"Tá bom."
"Então vai lá ler."
Ela vem pra cá, eu vou pro sofá e fico todo Pimpão quando começo a escutar o barulhinho de dedos teclando. Capricho na dose do whisky e...

EI, MAS NÃO É PRA MIM TERMINAR O TEXTO, AMOR? O QUE VOCÊ AINDA ESTÁ FAZENDO NELE?

Ops, é verdade. Foi mal, empolguei aqui. Manda bala aí, ok?
(...)


(<<) - rewind total.
(>) - play até o final.
Stop de novo. Putz, mas e agora? PLAY? Ou o ideal seria que eu me utilizasse de um REC? Me confundi toda. Enfim, fodam-se. Finge que deu defeito no Controle Remoto Ricótico de Texto. Se virem.

"Vamos sim.... rs.. acho que estamos na mesma sintonia agora, apesar dele ter ________ __ e eu não... mas enfim, hoje não estou num dia bom e ele conseguiu perceber o exato momento em que isso me bateu. Mas o buraco é mais embaixo. Acho que não sou desse planeta como ele também não. Talvez seja por isso que nos damos tão bem. Mas não é disso que quero escrever. Cara, que merda.... eu não consigo definitivamente entender o sentido da vida e principalmente o que se passa pela minha cabeça. Tá ligado quando você tem tudo em suas mãos e mesmo assim, você chora? É o que acontece comigo. Mas só para finalizar, enquanto ele escrevia esse texto aí de cima, eu estava deitada no sofá olhando para ele e aí me deu um estalo... PUTA CARA, ELE FOI O MELHOR PRESENTE QUE EU JÁ GANHEI NA MINHA VIDA. SERÁ QUE EU MEREÇO TUDO ISSO?" (por N.N.G.)

* Felipe Ricotta é vocal e guit...opa, opa. peraê, não acabou não.

(eu volto pra cá no fim da noite. precisava de mais um parágrafo pra terminar o texto.)
Acabamos indo pro Empório e a noite desceu fácil. Teria sido um alarme falso?
Quando chego em casa, acendo as luzes e deito no sofá. Percebo o mesmo papel morgado na mesinha de vidro. Ela tinha me respondido.

"(Eu gosto desse silêncio...) às vezes ele é bom e até mesmo necessário. Mas às vezes, ele é horrível pra mim."

* Felipe Ricotta é um pusta cara artista sensível e com feeling. E com sentimentos, ora veja você. Mas infelizmente, essa história é ficção.

(...)

*auto espaço publicitário.

Eu bem te vi anteontem e olha... sem comentários. Até entendo você não querer ir no show do jotacuest comigo, mas não vou admitir de jeito nenhum você andando por aí pelos shopppings da cidade de mãos dadas com essa pessoa que é muito mais velha que você e que fica te comprando com roupinhas promíscuas da moda, jantares eróticos em lugares legais e que nunca vai entender a importância de ouvir JESUS & MARY CHAIN, SUPERDRAG, MONSTER MAGNET, CLAP YOUR HANDS SAY YEAH, JIMMY EAT WORLD, SUBLIME e muito mais domingo às 23h no RICOTTA'N'ROLL RADIÔ, direto de Londres pelo site da rádio jovemfm(com)br.

Aliás, pro seu governo, a minha cobertura sobre o show dos jota foi aclamada por Caco Barcellos e Bruno Chatteaubriand, os dois maiores jornalistas do país, como um dos mais importantes trabalhos jornalísticos já realizados nos últimos tempos. Quer ler? Então compra o New York Times de amanhã ou então leia na íntegra em (www)carolazevedo(zip)net.




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