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Dr. Uwe Boll
Por Douglas Donin — Terça, 4 de abril de 2006
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Adaptações de jogos de videogame para o cinema geralmente são sinônimos de fãs indignados, boas histórias colocadas no lixo, transposições infiéis e filmes péssimos. Alguns até são sucessos comerciais, embora estejam longe de ser uma unanimidade crítica, como os fraquinhos Lara Croft: Tomb Raider e Resident Evil – este, em especial, um crime contra uma história original que tinha tudo para render um ótimo filme. De qualquer forma, Ainda está para ser produzido filme que fará jus ao jogo de origem (dizem por aí que este filme é Silent Hill, baseado na apavorante e densa série de terror da Konami, a estrear este mês).
Seja qual for o critério tomado para julgar a qualidade das adaptações de videogames, um nome se destaca pela inépcia de suas obras, pela unanimidade crítica (embora não no sentido normal em que esta expressão é aplicada) e pela legião de, aham, "fãs" indignados que o culpam pela destruição generalizada que ele vem promovendo no mundo do licenciamento das séries de jogos para a mídia cinematográfica. Este nome, como o leitor já deve ter a esta altura imaginado, é Uwe Boll. Dr. Uwe Boll, aliás, como ele faz questão de ser chamado.
O produtor e diretor de House of the Dead, Alone in the Dark e, mais recentemente, Bloodrayne é um cara curioso. Seus filmes são fracassos galopantes de público e crítica, mesmo assim, a cada produção finalizada, Boll anuncia outras quatro. Apesar de ser crucificado pela crítica a cada obra, sempre se sai com um otimista “mas meu novo filme será a melhor adaptação de um videogame de todos os tempos”.
Apesar de ter provado para o mundo que é o retrato mais perfeito do amadorismo e da falta de talento que a arte cinematográfica conheceu nesta década, se compara publicamente a diretores de verdade como David Lynch e Sergio Leone; e em plena luz do dia e com um sorriso no rosto. Ironiza os críticos e o público e aparenta ser imune ao ódio que desperta. Como explicar? Megalomania?
Explicar o fenômeno Uwe Boll é expor as entranhas do bizarro pensamento hollywoodiano. Boll é um modelo perfeito para a análise do que se tornou o cinema industrial nestas últimas décadas. É uma Hollywood em miniatura.
Na Alemanha, terra natal de Boll, havia uma maracutaia tributária bastante curiosa que podia ser utilizada para enganar o fisco e garantir uns bons trocados à custa do contribuinte germânico. Tratava-se de um furo na lei que permitia isenção fiscal imediata de 100% do custo de produção de um filme. Assim, se o um investidor alemão assinasse um acordo para aplicar, digamos, seis milhões de dólares em um filme, imediatamente teria este benefício tributário – mesmo que a produção do filme não tivesse começado. O investidor começaria a pagar impostos apenas depois que o retorno do filme passasse seu custo de produção – ou seja, quando começasse a dar lucro. Um filme que não desse lucro, obviamente, não pagaria imposto algum.
Este efeito paradoxal não é muito difícil de entender. Digamos que você investisse em um filme que não desse o retorno esperado, digamos, um investimento de 20.000, e um retorno de 10.000. Pela lógica tradicional, você perderia os outros 10.000. Mas se você já estivesse devendo para o fisco, digamos, 20.000 de imposto relativos a seus outros negócios, ao invés de perder, você lucra 10.000, já que possui isenção tributária igual ao valor do investimento! Se o filme apenas arrecadar o equivalente ao seu orçamento, parabéns, você conseguiu enganar a receita alemã de maneira exemplar. Se o filme der lucro, você começa a pagar imposto, mas, de qualquer maneira, aí você já está lucrando mesmo.
Por causa disso, milhares de investidores alemães (conhecidos por “anjos”) investiam em cinema. Boll não era o único a ser beneficiado: o esquema já era bem conhecido e explorado em Hollywood. O próprio Lara Croft: Tomb Raider custou 94 milhões de dólares, dos quais apenas 7 saíram do bolso da Paramount. Os outros 87 foram captados na Alemanha.
A lei alemã não exigia que o filme fosse produzido na Alemanha nem empregasse pessoal alemão. O único requisito era que o filme fosse produzido por uma empresa alemã (como a Boll KG), que seja detentora dos direitos autorais. Impedimento algum para um estúdio americano, que pode registrar facilmente empresas de fachada na Alemanha apenas com este fim.
Ou seja, Boll não é um diretor ou um produtor de cinema, é apenas uma maquininha de deduzir impostos. Se alguém ainda acha que ele faz filmes com intenções de entretenimento, está muito enganado. Aliás, se alguém ainda acha que seus filmes possuem intenção de lucro, também está muito enganado. Boll só trabalha porque alguém quer pagar menos impostos. É um exemplo de como a indústria cinematográfica pode ser totalmente alugada por interesses que nada têm a ver com arte ou entretenimento.
Para Boll e seus parceiros, o filme é um mero detalhe, apenas um requisito para o verdadeiro negócio. Ele só faz filmes porque a lei alemã exige isso, se no texto da lei a imunidade fosse concedida para, digamos, produção de pães, a esta hora ele estaria vestido de padeiro e sovando a massa com a mesma disposição, e provavelmente nem estaria cogitando a hipótese de trabalhar no cinema.
Mas os alemães não são trouxas. A lei, que deveria originalmente ser um incentivo para o cinema alemão, já estava há muito causando indignação e foi modificada. Sabendo que a lei estava para cair, Boll correu na frente e anunciou às pressas outros sete filmes: Dungeon Siege (que vai virar dois filmes), Postal, Far Cry, Seed, Fear Effect e Hunter: The Reckoning, todos baseados em jogos, que, como já estão anunciados, serão produzidos ainda sob os auspícios da lei antiga.
O porquê de Boll preferir os jogos de videogame ainda é uma incógnita. Amor por esta mídia não deve ser, já que seus antigos companheiros de trabalho afirmam que Boll não pensa duas vezes antes de descaracterizar a história de um jogo apenas por capricho ou porque quer de qualquer jeito uma cena qualquer que não se encaixaria na história ou no estilo original. O fato é que Boll é temido pelos fãs das grandes franquias eletrônicas, que tremem ao pensar que ele pode se aproximar de seus personagens queridos.
Por exemplo, recentemente Boll causou uma onda de fúria ao anunciar que foi procurado “por algumas pessoas” para que dirigisse Metal Gear: Solid.Hideo Kojima, dono da série, correu para desmentir o boato, de uma forma até bem pouco elogiosa para Boll. Rumores também circulam dando conta de que Boll tentou se aproximado da série Silent Hill e de Halo (este, felizmente, foi adotado por Peter Jackson). Boll também está tentando de maneira frustrada abocanhar a série Hitman.
E o que dizer dos nomes associados aos seus fiascos cinematográficos? Ben Kingsley, Billy Zane, Kristanna Loken, Michelle Rodriguez, Ray Liotta, Lelee Sobieski, Burt Reynolds, Christian Slater, Tara Reid, Michael Madsen e outros? Eles não têm amor pelas suas carreiras? Ora não há nada que o dinheiro não compra. E, também alguns deles, como Christian Slater e Burt Reynolds, nem têm mais carreira alguma pela qual ter amor.
E como explicar que as bombas de Boll estréiem em um número absurdo de salas? Dinheiro. Como as licenças caem tão fácil na sua mão? Dinheiro. Hollywood é um mundo cão mesmo.
Semana que vem: Musashi. Até lá!
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