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Quando o jornalismo rouba da ficção...
Por Alexandre Maron — Segunda, 15 de dezembro de 2003
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Quando o jornalismo rouba da ficção... para vender mais
É muito fácil achar que a cultura pop se resume a livros, filmes, gibis, CDs, RPGs e outros produtos julgados alienantes pela fatia conservadora da sociedade. É fácil dizer isso, mas é mentira.
Nossa vida está tão midiatizada que tudo que nos cerca é digerido e transformado em produto cultural. Uma prova cabal disso é a própria forma como consumimos informação hoje em dia, por meio dos diversos canais de jornalismo que povoam os canais a cabo, das revistas, dos jornais, dos rádios e, claro, da internet.
Toda a linguagem desses veículos é influenciada pelo seu meio e o influencia. Assim, os telejornais tomaram emprestado dos filmes, dos seriados e dos videoclipes as suas técnicas de apresentação das informações. Ou alguém esquece dos crimes que são reconstituídos em forma de storyboards ou até mesmo em dramatizações que (ao menos) tentam ser estilosas, com desfoques e cores saturadas?
Os telejornais lutam para não ser chatos. Os jornais fazem tudo pra se modernizar. São páginas coloridas, infográficos, linguagem coloquial. Tudo. Tudo para encontrar um espaço no coração do leitor-espectador.
E todos esses veículos saíram em busca da narrativa ficcional e seriada para conseguir a atenção do seu cliente. Não é por acaso que os jornais, de TV, rádio e papel, procuram grandes casos que possam ser acompanhados diariamente, semanalmente, que seja. É uma busca incessante de tornar os fatos em novela. A realidade em ficção.
Foi assim que o drama do casal de adolescentes assassinados virou uma novela mórbida, com os jornais lutando pelo detalhe mais terrível liberado a cada dia. Foi assim que jornalistas de todo o mundo foram mandados para Bagdá meses antes de acontecer a guerra do Iraque. Era um prólogo.
Logo aconteceu o drama de verdade e todos estavam lá. Olhe para a grade do seu canal de seriados e compare com a cobertura da guerra. Havia alguma coisa para todo mundo.
Quem adora armas tinha descrições das batalhas e das armas usadas. Se queria drama humano, podia lê-los todos os dias nas histórias das famílias iraquianas. Se você gosta das intrigas palacianas, bastava ir para o noticiário político internacional e lá estava a briga entre Bush e seus aliados, França e Alemanha, que o abandonaram. Tudo em formato pronto para o consumo.
O último fato que aconteceu enquanto escrevo este texto foi a prisão de Saddam Hussein. Nada mais dramático do que isso. O poderoso ditador foi encontrado em um cubículo de 2 por 2 metros, barbado, abatido. Foi filmado sendo examinado. Foi humilhado. Suas imagens foram mostradas para que seu povo visse que ele não voltaria mais. O fato passou o dia sendo discutido, analisado, suas repercussões políticas sendo projetadas para o futuro.
É fascinante com tudo isso vira, de novo, uma novela. Vamos procurando mais informações nos jornais, ligando no Jornal Nacional, na CNN, na Globo News ou na BBC World em busca de alguma novidade. Queremos saber se Saddam falou algo, se Bush vai mesmo julgar o ex-ditador no Iraque, se algum novo ataque da resistência vai acontecer em Bagdá. São cenas do próximo capítulo. Tudo empacotado e vendido em pílulas para seu deleite.
Não se informe. Em vez disso, divirta-se.
* * *
Enquanto isso, no verdadeiro mundo da ficção, Jake 2.0, que parecia uma série fadada a babar o ovo do governo americano, parece ter mudado radicalmente de rumo. Agora, o herói percebeu que a agenda do governo é politicamente questionável e que ele é alvo de uma disputa de poder dentro da própria agência para qual trabalha. Não era para se esperar menos de uma série conduzida por David Greenwalt, o cara que foi o braço direito de Joss Whedon em Buffy e Angel.
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