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A garota com o japonês
Por Felipe Ricotta — Terça, 28 de março de 2006
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Cabaret Kalesa. DDK. Rio.
Liguei pr'O Fotógrafo, a gente tinha combinado mais ou menos de ir pra DDK no Cine Íris.
Só que rolou uma mudança de planos...
"Preciso fazer um freela pra Sexy Magazine, bater umas fotos da garota que vai fazer o strip hoje lá no Cabaret Kalesa... tá na pilha de ir comigo?"
"Opa. Lógico."
(...)
(o pré night solitário...)
"Boa noite, caros leitores. Eu tô aqui em casa tomando umas cervejas e no momento tô ouvindo The Things That I Used To Do... Stevie Ray Vaughan, senhoras e senhores. Essa música tem um dos solos mais..." - não consegui descrever, foda-se, odeio descrever às vezes - "...o solo dessa música é um negócio absurdo, cara. Baixem essa música, meu deus.
O que tá acontecendo é que eu deixei o blog de lado um pouco, deixei um pouco de lado esse lance de ir pros lugares e hoje me deu um louca e quer saber? Foda-se. Vou sair por aí e escrever coisas pras pessoas lerem."
Peguei o buzão e no caminho pra Lapa, olhava pras Pessoas Dos Ônibus Noturnos e me bateu uma saudade estranha delas. Fazia muito tempo que eu não ficava sem o daddy's car e sentia essa liberdade sinistra, a pulsação noturna do lado obscuro, as pessoas que importam menos. Assim como eu.
Afinal de contas quem eu tô querendo enganar, certo?
Os idealistas babacas (como eu? sei lá.) que querem mudar o mundo e ligam o foda-se sempre são deixados de lado com o passar dos anos porque o desconforto que eles emanam através do seu bom(?) senso e a sua falta de aptidão pra entender a existência começa a incomodar demais quem quer ficar ali no seu cantinho sossegado e engordando.
As garotas mais bonitas já estão bem longe daqui, elas vão se afastando gradativamente sempre muito preocupadas em sobreviver nesse mundo cruel material porco capitalista e convenhamos... se mulheres interessantes, bem ou mal, já enchem o saco pra caraleo, imagina as deslumbradas estúpidas? - relax, girls. isso foi só pra vocês gamarem, tá? foi total da boca pra fora.
Encontrei um amigo nos fundos do coletivo e acabamos saltando bem na porta do Democráticos. Ele ia entrar, eu nunca entrei.
(...)
(>>) - forward. msn no dia seguinte.
"Cara, preciso que você repita pra mim o que você falou do Democráticos ontem... tu lembra?"
"Das meninas da gávea que fingem que são pobres, usando brinco de semente e tal?
"Vamu tentar fazer uma Reconstituição Linha Direta aqui... a gente desceu do ônibus e eu falei pra tu PÔ, NUNCA ENTREI NO DEMOCRÁTICOS NÃO. É BOM? aí tu..."
"CARA, É BOM SIM. MUITA MULHER GATA QUE QUER TIRAR ONDA DE POBRE, USANDO BRINCO DE SEMENTE, SANDÁLIA DE COURO... ah, eu falei também quando você riu... É O LUGAR ONDE EU POSSO ESTAR NA MODA USANDO AS MINHAS ROUPAS FUDIDAS."
"Ahahaha boa. Isso vai me ser útil."
(<<) - rewind. já no banheiro do Arco Íris, meu lounge favorito.
"Enfim, eu tô aqui mijando, e quando olhei pra parede tem um flyer escrito ROLO. É ROCK É SHOW. ROCKINROLO@IBEST.COM.BR." Me pareceu ser algo genuíno, então prometi pra mim mesmo que ia entrar em contato com o tal do Rolo e divulgar seu provável roque.
(o email.)
"Coé maluco, que papo é esse de Rolo é Rock é Show? Manda uma foto tua que eu vou colocar na minha coluna e escreve umas linhas aí falando um pouco sobre o seu rockenrou aí que eu vou publicar. Abraço, Ricotta."
ps: o email voltou. foda-se o Rolo.
(...)
Encontrei meu fotógrafo, tomamos umas cervas na porta do Teatro Odisséia.
Até que me surge um personagem de história de quadrinhos com novidades diretamente da Suécia.
"Como chama isso que você me deu mesmo?"
"____. _-_-_-_."
(...)
"De vez em quando eu meio que embarco numa de não sair no sábado pra sair um outro dia, porque sábado é foda... mas se eu ficasse em casa, ia ficar compondo, provavelmente ia sair alguma coisa nova mas sei lá... num dá, tem que viver a vida, né?"
"Ficar olhando pro teto, num dá não."
No táxi, tocava Skank e eu tentava explicar pro Fotógrafo Barbão sobre o Efeito ____.
"Caraleo, essa porra ____________."
"Parecia uma _________ de gengibre."
"Mas é legal quando vc chega num lugar, encontra uns amigos e eles chegam numa de AÍ, TOMA ESSA ________________."
"O cara foi pra Suécia?
"Deve ter ido, sei lá."
"Aí, num é mais fácil ir reto não?" - taxi driver.
(...)
(cabine do banheiro do cabaret kalesa)
"Pois é, a gente chegou aqui no cabaret... (arroto incontrolável)... kalesa acabei de dar o primeiro... hic.... (buruburrubur cof cof burubururb) arroto. cof cof. aaa, caraleo. cabei de... foram três os vômitos. Bizarro. A gente chegou aqui, tá vaziaço, a parada que o maluco me deu tava muito forte, precisava dar uma vomitada. Mas agora eu já tô bem. Vou voltar pra lá."
E lá se foi o Efeito ____.
O doido é que eu tinha uma halls preta no bolso solitária e inexplicavelmente ela tava cheia de formiga.
"Melhor botar uma halls preta cheia de formiga na boca do que ficar com gosto de vômito. Botei. Formiga com bala halls. Uw!"
(...)
Basicamente, nada aconteceu de muito importante por lá, até a hora em que a Garota Com o Japonês apareceu por lá e fez a minha cabeça.
A casa foi enchendo, a gente na expectativa da garota que ia tirar a roupa, se ia rolar de fazer umas fotos antes, trocar uma idéia (nada disso aconteceu, meu deus, não levo jeito pra repórter investigativo na grande maioria das vezes)... eu tava meio embrulhado e travado, culpa do maldito personagem de quadrinhos.
(...)
"Quando os homens viram homens?"
"Quando deixam de ser ridículos."
(uma atriz da globo numa entrevista em algum lugar segundo fontes confiáveis.)
Pois bem, gamei na Garota Com o Japonês. O pouco que lembro da época que ia pra boates tentar pegar alguém e me auto afirmar (como fazem até hoje 90% dos meus amigos solteiros) era que eu sempre escolhia uma. E tinha que ser aquela. Sempre gostei de fazer isso. Na maioria das vezes, nunca acontecia nada (no mundo externo, sabe?) mas aqui dentro rolavam experiências extremamente intensas, cada olhar e cada gesto sendo degustado e decifrado, sei lá se alguém entende.
Mas a questão é... ela não parava de olhar, e eu vou ficar me achando por causa disso?
(...)
(>>)
Fim de noite, eu e meu fotógrafo barbão nos dirigindo à festa Phunk no bola preta e eu tentava explicar pra ele que eu não tenho mais saco pra cair nessa furada de ficar alimentando o ego feminino em boates. Ser mais um desejando e querendo saciar o tesão de momento, sei lá. É como se eu tivesse perdido o tesão da conquista banal.
(...)
(<<)
(volta pro cabaret kalesa, eu falando sozinho com o meu gravador dentro do banheiro depois de um mijão.)
"Brother, ela não tava me querendo... ela tá querendo jogar charme por aí e tal e viu que eu tava olhando, é lógico que ela vai dar corda, só que porra... ela tá com o japonês, ele todo idiota ali, meio perdidão (ela não parava de sambar mpb's dançantes do janot, o josé wilker das picapes cariocas) ela queria fumar, o cara ficava regulando..."
E eu lá no meu canto só sacando e analisando... querendo tocar o universo feminino igual o Djavan e pra quê tudo isso, né?"
Eu me forço a ir pra lugares que eu não gosto simplesmente porque eu não gosto de lugar nenhum. A diferença é que alguns lugares desse tipo tocam umas músicas boas.
No fundo, no fundo, é tudo a mesma merda. Ou vai me dizer que alguém ainda não sabia disso?
"Eu devia fazer igual aquele cara (ali na pista de dança) que é feio e meio nerd, mas que sabe dançar então ele fica meio que esperando a hora certa pra chamar pra dançar e ele dança bem, mulher gosta de homem que dança bem..."
(uma vez eu tentei me utilizar dessa tática travolteana no show do mito stevie b mas não deu muito certo. ricotta #88)
"...e aí o cara vai lá, dança com a mulé, tenta jogar um charme no pé do ouvido... e se fudeu. Não adiantou de nada. (ela foi embora. aliás, a que ele chamou pra dançar era a minha segunda escolha da noite. ela e a do japonês, eram as duas que eu não parava de olhar e mais tarde percebi que elas tavam se falando, deviam ser amigas e tal.) aí, toma no cu, cara. Quê que eu tô fazendo aqui? Pois é, agora tá tocando legião urbana na pista de dança, olha que legal?
E eu morrendo de vontade de chamar a mulher do japonês pra ir lá fora no cantinho aberto perguntar qual que era a dela com o japonês. Ele o tempo todo colando no ouvido dela, totalmente explanada a vontade do cara de beijar ela logo e ela só quer sambar, sambar e sambar, essas coisas.
Confesso que tava me dando um tesão violento aquela bunda se remexendo. Olha, e vou te falar que ficar aqui ouvindo legião urbana e o rappa tá até valendo a pena, só por causa da Garota Com o Japonês e das nossas trocas de olhares. Já valeu a noite."
(...)
Chegamos na porta da ddk eram umas 3 da manhã. tentamos nos aproveitar de nossa condição de imprensa pra entrar...
"Então, fester, eu tô com o meu fotógrafo aí, num rola a gente entrar e bater umas fotos e tal?"
"Olha, ricotta. não vai dar. Tem que pedir credencial antes, são as regras do Cine Íris, eu não posso fazer nada. Veio até um cara da Veja aí e também não entrou."
Normalmente, se alguém da Veja é barrado nos lugares, eu acho ótimo. É um castigo mínimo pra quem comete crimes sérios de burralização coletiva semanal por aí afora. A coisa mais sensata a se fazer, não?
Mas tranquilão, pode passar o rodo e me mandar embora, eu vou ficar escrevendo ricottas aqui do lado de fora.
(...)
"Como tava a ddk?"
"Tava bem cheia como de costume todas as edições eróticas, é claro..."
"E tava promíscuo o ambiente?"
"Promíscuo não, claro que não. Tava numa mediação entre erótica e... claro, e tinham pessoas vulgares como sempre tem em qualquer lugar mas o pessoal tava bem na linha, tava bem legal, pessoas com chicotinhos, tava bem maneiro."
"Você falou que tava numa linha entre o erótica e o..."
"Não tava aquela coisa promíscua, baixa, vulgar, as pessoas tavam com classe, foi diferente..."
"Ah, mas quando eu falo da promiscuidade, é como uma coisa boa." - e ela também não tem a menor obrigação de entender as piadas internas envolvendo a palavra promiscuidade.
"Eu não, particularmente eu não encaro. Mas foi ótimo. Não vou dizer que foi A MELHOR porque eu não gosto de lugares cheios. Mas foi legal."
"E a banda que tocou?"
"Eu tava dançando. Eu não curto banda, eu curto dançar mesmo. Eletro, IBM, pra mim é a minha linha, entendeu? Rolou Type O Negative, minha banda favorita. Pra mim, foi A MELHOR DDK."
Mudou de idéia rápido, não?
(...)
"Como tava a DDK, Red?"
"Então, a DDK tava um inferno, as pessoas estão caindo por tudo quanto é canto, suadas, nojentas, as pessoas fodem pela festa..." - o que será que ela quis dizer com isso? -
"...passa um hentai pornô no terraço o tempo inteiro e os bichinhos fazem cara de muito estupro, sabe?"
(percebam, alguém ainda consegue se importar com opiniões e principalmente com os "formadores de opiniões?" eu não.)
* Felipe Ricotta é artista sensível com feeling e não entende o mundo.
Eu juro que não levei fé quando você me disse que o Jota Quest era a melhor banda de rockenrou do planeta. Na verdade, eu quis te deletar do meu orkut de tanta vergonha que eu senti quando você deixou aquele scrap.
Mas pra você ver como são as coisas, né? Eu sempre achei que eles eram só aquilo que a gente via na tv mas meu deus, o que é aquele disco de 1978 dos caras? Juro que eu não sabia que o Arnaldo Baptista e o Milton Nascimento faziam parte da primeira formação.
E pra te agradecer, o próximo RICOTTA'N'ROLL RADIÔ DOMINGO ÀS 23h NO www.jovemfm.com.br vai ser Especial Jota Quest Fase Psicodélica com David Bowie, Dandy Warhols, Lemonheads, Ben Folds Five, Superchunk, Sonic Youth e vários outros, todos eles fazendo covers daquele discaço do Jota de 1978.
"Eu Leio Ricotta" no Orkut - www.orkut.com/Community.aspx?cmm=353210
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