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Excelsior: Stan por si mesmo
Por Rafael Lima — Sexta, 17 de março de 2006
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O que se descobre de fundamental na autobiografia de Stan Lee, Excelsior!, lançada há poucos anos, é que ele só fez sucesso e virou celebridade depois de 40 anos de uma vida bem banal. Lee é um exemplo tipicamente norte-americano, fundamentado muito mais no trabalho duro e perseverança do que na explosão de um talento extraordinário.
Quando descobriu a fórmula mágica, Stan Lee já escrevia roteiros em quantidade industrial - estamos falando em mais de 60 revistas por mês - durante mais de vinte anos e já havia pensado mais de uma vez em abandonar o ofício em nome de alguma atividade, senão mais rentável, pelo menos mais nobre: que o permitisse dizer sua profissão numa festinha sem se envergonhar no momento seguinte. Não devia ser fácil a vida do autor de quadrinhos antes de Jules Feiffer...
É notório inclusive que, até fazer sucesso, Stan Lee admitia vergonha de ser roteirista, carreira abraçada sobretudo por causa da sua prolificidade (baita estímulo financeiro, num mercado que pagava por página) e pela frustração em não ter se tornado um escritor - um "de verdade", daqueles que escrevem livros.
Chega a ser engraçado vê-lo citando Shakespeare ou Hemingway como influências e autores preferidos, ele, que sempre fez o pastiche do pastiche nos diálogos que escreveu, um cara que confessa abertamente que usou os raios gama como justificativa para criar o Hulk porque "o nome deles soava bem", e que idealizou a armadura do Homem-de-Ferro como um mecanismo externo de controle dos batimentos cardíacos sem saber se aquilo era possível, "afinal, eu não era um médico". Quando diz que, no final dos anos 50, tentava criar histórias com finais inesperados à maneira de O. Henry, isso é mais ou menos equivalente a ouvir Maurício de Souza comentar que suas grandes influências nos quadrinhos eram Will Eisner e Luiz Gê.
Mas o fato é que, ao longo dos atribulados anos 1950, Lee desenvolveu um dos segredos para o sucesso da Marvel: ter se cercado de geniais artistas, capazes não só de diagramar como desenvolver um roteiro a partir de diretrizes mínimas. De lambuja, criavam uniformes e coadjuvantes de luxo, enquanto cabia a ele apenas determinar o tom da história e escrever os empolados diálogos - o método que ficou conhecido como "O Modo Marvel de Fazer Quadrinhos".
Claro que, com o sucesso, muitos dos desenhistas acabaram mordidos pela mosca azul e se estranharam com reconhecimento exclusivo de Stan. O primeiro foi logo Steve Ditko, criador do Homem-Aranha. Lee não arreda pé que todo o conceito e os personagens foram criação dele, quando muito concedendo a Ditko uma co-autoria na qual deixa claro que o personagem é dele.
A tese sustentada é a de que, uma vez de posse da idéia, qualquer desenhista seria capaz de executá-la - uma belíssima mentira. Com Jack Kirby foi diferente, porque Jack permaneceu muito mais tempo na Marvel antes do ressentimento fazê-lo sair. Mas, quando saiu, foi espalhando brasa e fazendo acusações até desmesuradas sobre a falta de capacidade editorial de Lee. Jack era uma usina criativa, capaz de acompanhar o ritmo de Lee nas páginas, e ainda adicionando detalhes e enriquecendo àquela mitologia; sem Ditko, Lee teria criado o Homem-Aranha; sem Kirby, nunca teria feito a Marvel.
Fica claro um certo ressentimento do contato entre eles, que se viam muito mais como operários do traço do que propriamente criadores, evitando quaisquer tarefas administrativas, tipicamente vistas como "menores" por quem está no fim da linha produtiva. Por outro lado, tais atividades poderiam servir de trampolins profissionais e financeiros. Jack Kirby teria recusado o posto de diretor de arte na Marvel para continuar apenas desenhando, e abrindo mão de um salário significativamente maior. Já Stan Lee mantinha com eles mais ou menos o mesmo relacionamento que Martin Goodman lhe dispensava: reconhecia seu valor, dava-lhes crédito autoral, mas, no fundo, via-os como substituíveis ferramentas a serviço de Sua Grande Arte de criar personagens.
Goodman, primo distante de Lee e fundador da editora Timely, depois chamada Atlas e, finalmente Marvel Comics, é, sem dúvida o grande travo na língua de Stan, por não tê-lo dispensado a atenção que ele considerava merecida, por não tê-lo feito uma proposta milionária, nem ao menos oferecido um aumento quando a Marvel foi vendida para uma companhia maior num contrato que obrigava Stan Lee a permanecer como editor e ainda tê-lo acusado de deslealdade quando assumiu o cargo de publisher numa sucessiva mudança de donos.
A partir da década de 1970, ainda com a sorte de encontrar brilhantes sucessores como Roy Thomas ou Jim Shooter, Lee foi gradualmente abandonando o cargo de editor para se tornar um grande divulgador da companhia, exercendo todo o enorme talento para marqueteiro. Seu objetivo era tornar a Marvel tão conhecida quanto Disney. Lee percorre então todas as faculdades e escolas secundárias dos EUA e depois parte mundo afora dando palestras e exibindo a história de seu império.
Apenas nos anos 80, abandona N.Y. e passa a morar em L.A., onde manteve uma extensa carreira de fracassos em adaptações para a televisão e cinema seus personagens - foi preciso Avi Arad entrar em campo para fazer saírem os filmes do Homem-Aranha, X-Men, Demolidor, Quarteto Fantástico, Hulk e devidos desdobramentos - mais em cinco anos do que Stan fez nos 20 anteriores, cujo grande feito seria a única temporada do seriado do Hulk. A questão é que, a partir de meados da década de 1970, ele não apitava mais nada em termos criativos dentro da empresa.
Duas curiosidades de Excelsior!: primeira, a identidade do Homem-de-Ferro teria sido calcada no milionário excêntrico Howard Hughes, e também para provar a Martin Goodman que mesmo um industrial rico poderia fazer sucesso entre os leitores hippies.
Segunda, embora seja comum associar as histórias da Marvel à contracultura, Stan Lee sempre foi o mais careta e enquadrado o possível em sua vida pessoal. Alistou-se patrioticamente para ir à II Guerra (passou a maior parte do tempo escrevendo manuais para as rotinas do exército em quadrinhos, mas isso é outro problema), sempre almejou os valores do sistema capitalista, foi casado uma única vez com a mulher de quem nunca se separou, nunca usou drogas e compareceu de paletó e gravata à sua primeira palestra de divulgação em uma faculdade, em 1970, para uma platéia lotadas de estudantes cabeludos e barbudos, em roupas surradas e cheias de miçangas...
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