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Bem depois do Oscar...
Por Pedro Alencastro — Quinta, 16 de março de 2006
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Fica para a próxima coluna a continuação do texto sobre estrelas mirins. Dessa vez, o assunto vai ser Oscar. Devia ter escrito alguma coisa na semana passada, mas como estava atolado de trabalho e assuntos burocráticos para resolver, tive que adiar o texto.
Depois da festa, os especialistas de plantão tentaram justificar a vitória de tal filme, a derrota do outro e toda aquela baboseira que já é de praxe. Curiosamente, todas essas deduções foram feitas apenas quando a cerimônia acabou. Antes disso, porém, ninguém se habilitava. É sempre a mesma ladainha. Saindo os vencedores, aí sim, todo mundo dá seus pitacos. E haja explicação... Só faltou meterem a CIA (sempre ela) no meio.
Reparem como alguns críticos parecem íntimos dos votantes da Academia. Eles sabem de tudo. Se duvidar, até a cor da escova de dentes dos caras. Li dia desses que Brokeback Mountain não ganhou porque a maioria dos votantes é do sexo feminino e a mulherada não gostou da forma como são tratadas as esposas dos rapazes. Não deixa de ser um argumento relevante, só que esqueceram de citar a fonte dessa informação.
Para entender melhor o que aconteceu esse ano sem recorrer as meras especulações, devemos, em primeiro lugar, desconsiderar o favoritismo de Brokeback Mountain. Havia apenas um indício baseado em outras premiações e nada além disso. Alvo de uma intensa falação da mídia, o longa rendeu uma enxurrada de piadinhas infames, clips parodiando outros filmes, montagens dos cowboys em versão lego... enfim, a palhaçada comeu solta.
Essa repercussão até poderia ter influenciado os votos, mas, se existe uma campanha que efetivamente funciona para fins de Oscar, é a divulgação por parte dos estúdios. Os produtores de Crash sabiam disso e tiverem a seguinte sacada: “Se nós queremos ganhar essa joça, vamos espalhar DVDs do filme para tudo quanto é canto.” Uma lógica simples: quanto mais pessoas assistirem, mais chances de ganhar votos.
Como Crash foi lançado meses antes dos outros concorrentes, os caras resolveram invadir a casa dos votantes via DVD e deu no que deu. Chega a ser irônico, inclusive, que o vencedor do Oscar tenha sido assistido por vários votantes pela televisão, justamente na época em que a indústria cinematográfica sofre alarmante queda de audiência nas salas de cinema.
A vitória de Paul Haggis não tem absolutamente nada a ver com o conservadorismo de Hollywood, como tem sido dito com aquela habitual (e duvidosa) precisão. Comparado com Brokeback Mountain, seu maior rival, Crash é muito mais arrojado, tanto na fórmula, quanto no argumento.
Não fosse pelo homossexualismo dos protagonistas, a obra de Ang Lee não passaria de um Romeu & Julieta dos mais comuns, o que não significa que o filme seja ruim. Pelo contrário, é excelente. Diga-se de passagem, muito melhor que Crash. O que Brokeback tem de minimalista, que é sua maior qualidade, Crash tem de excessivo, que é seu maior defeito.
Na ânsia por mostrar todas as nuances de conflitos raciais nas ruas de Los Angeles, Paul Haggis acabou exagerando na dose. O roteiro é interligado por fatos aparentemente desconexos e forçadamente comoventes, tornando-se piegas e, por vezes, previsível. Por outro lado, o filme também tem seus méritos: algumas interpretações (com destaque para Matt Dillon, Terrence Howard e Thandie Newton), a forma como juntaram todas as partes da trama (embora soe absurdo em alguns momentos) e, principalmente, a abordagem de um problema local que serve de modelo em qualquer lugar do mundo.
Enfim, na sua essência, Crash representa e sintetiza as tendências desse último Oscar, voltado para questões sociais, políticas e globais. Sem falar que é o pior entre os cinco indicados e, como já estamos carecas de saber, Oscar que se preze tem que ter injustiça.
Citando o apresentador da vez, Jon Stewart, "continuem fazendo as contas. No quesito Oscar, o placar é: rapper Djay 5 (autor de It's Hard Out Here for a Pimp) um, Martin Scorsese (diretor de Bons Companheiros, Taxi Driver e Touro Indomável) zero".
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