 |
Robin, um sobrevivente
Por Edvaldo Filho — Quarta, 15 de março de 2006
|
|
Bem-vindo ao Sobrecarga, seu destino para as principais matérias sobre Filmes, Séries, Quadrinhos, Música e muito mais... se você puder agüentar!
Use a barra superior do site para navegar entre os assuntos e confira, no final de cada texto, outras matérias relacionadas ao assunto.
Na barra lateral do site você encontra sempre boas ofertas de produtos relacionados ao universo pop, ajude o site visitando nossos patrocinadores.
Volte sempre!
|
Em abril de 1940, na edição 38 da revista Detective Comics, surge o primeiro, o mais popular e longevo parceiro mirim de herói: Robin, O Menino Prodígio (The Boy Wonder), criação de Jerry Robinson, então um artista com apenas dezessete anos de idade. Vejam só: a jovem cria de Robinson completará 66 anos no mês que vem!
Richard Grayson (apelidado de “Dick”), o primeiro Robin, foi criado para humanizar a figura do Batman. Assim, o Menino-Prodígio serviria como um contraste para os métodos violentos e sombrios utilizados pelo Homem-Morcego que, segundo os críticos da época, influenciavam negativamente os leitores.
Antes de Robin, Batman era um personagem violento, que não hesitava em ser perverso e matar seus inimigos. Com o surgimento desse órfão de um casal de trapezistas, as histórias do Batman ganharam diálogos, leveza e humor, graças também à galeria de vilões cômicos como o Coringa, também criado por Robinson.
Bob Kane era então auxiliado por Bill Finger e Jerry Robinson na concepção dos roteiros e desenhos das histórias. Ao contrário do que possa parecer, Robin não foi batizado em homenagem ao seu criador. Em entrevista ao site hq.cosmo.com.br, Robinson revelou que o personagem "ganhou seu nome por causa de Robin Hood. Isso porque eu era fã deste herói arqueiro quando jovem e inspirei as roupas do personagem em desenhos que o ilustrador M.C. Wyatt havia feito para o livro de Robin Hood que li na minha infância. Então a história de eu ter dado meu nome é boa e engraçada, mas não é verdadeira."
Depois do Menino-Prodígio, pareceu ser regra inventar parceiros-mirins para todos os outros personagens que surgiram após o Homem-Morcego. Dessa safra vieram, não necessariamente nesta ordem, o Ricardito para o Arqueiro Verde, a Dianinha para a Mulher-Maravilha, o Aqualad para o Aquaman, o Kid Flash para o Flash, o Bucky para o Capitão América e o Centelha para o Tocha Humana original.
E as aventuras seguiam com vilões maquiavélicos, cientistas loucos, alienígenas e nazistas sendo derrotados um de cada vez ou todos de uma vez só. Os heróis e seus parceiros mirins estavam sempre prontos a lutar em defesa dos fracos e oprimidos, destruindo tudo e todos que afrontassem a verdade, a justiça, a moral e os bons costumes. Até surgir, na vida real, um vilão com um plano infalível, que escreveria seu nome na história abalando para sempre a indústria das histórias em quadrinhos.
O psiquiatra Frederick Wertham publica em 1954 o livro A Sedução dos Inocentes, onde afirmava que os quadrinhos eram responsáveis pela inversão de valores e pela corrupção e delinquência juvenil. O trecho mais conhecido e citado do livro fala justamente da relação entre Bruce Wayne e Dick Grayson, apontada errônea e preconceituosamente por Wertham como uma relação entre dois homossexuais que moram numa mansão suntuosa com lindas flores em vasos enormes.
Algumas vezes, Batman está de cama por causa de algum ferimento. Robin aparece sentado ao seu lado. Eles levam uma vida idílica. Tem um mordomo, Alfred. Batman aparece algumas vezes de roupão. Parece um paraíso, um sonho de consumo de dois homossexuais que vivem juntos. Às vezes aparecem num sofá. Bruce reclinado e Dick ao seu lado sem paletó e de camisa aberta.
Foi dessa forma que Wertham deduziu a “homossexualidade” entre Batman e Robin. Para demonstrarem masculinidade, os personagens não deveriam evidenciar preocupação um com o outro, não terem um mordomo, nunca dividirem uma mansão, tampouco um sofá e estarem sempre de paletó. Embora hoje pareça ser consenso que o dito “psiquiatra” só quisesse aparecer, a verdade é que os seus escritos abriram uma escara enorme na indústria dos quadrinhos e marcou para sempre a mais famosa dupla de super-heróis. Uma Batwoman e uma Batgirl tiveram de ser introduzidas nas histórias da Dupla Dinâmica para que não hovessem dúvidas a respeito da heterossexualidade dos dois. Não adiantou muito.
Ainda hoje os fãs são obrigados a conviver com todo tipo de chacota relacionada com o assunto. O delicioso (!) seriado dos anos sessenta, onde os personagens eram protagonizados por Adam West e Burt Ward, contribuiu para que a piada fosse propagada durante anos. Como esquecer da “canonização” que Robin dava a tudo e a todos?
Poucos anos depois do livro ter sido publicado, o que teve de ser feito foi separar o Homem-Morcego do Menino-Prodígio. Wertham conseguiu abalar os alicerces da Mansão Wayne, e promover uma verdadeira caça às bruxas, onde era comum pais furiosos queimarem pilhas de revistas em praças públicas diante dos olhos estarrecidos de seus filhos (já se imaginou no lugar desses pobres coitados?). Os heróis nada puderam fazer contra este vilão poderosíssimo. Infelizmente, eles eram feitos apenas de papel e tinta.
Sendo assim, Dick teve de deixar a Mansão Wayne aos poucos. Robin passa então a fazer parte da Turma Titã (The Teen Titans), equipe composta também por Aqualad e Kid Flash, reunidos pela primeira vez no número 54 da revista The Brave And The Bold, de julho de 1964, pelo roteirista Bob Haney e pelo desenhista Nick Cardy. Nesta história, publicada no Brasil na edição 100 do formatinho Os Novos Titãs, da Abril, o Menino-Prodígio mostra capacidade para liderar a equipe que agregaria também Dianinha e Ricardito algumas histórias depois. Em 1969, na história “One bullet too many!”, publicada no número 217 de Batman, Dick se despede de Bruce e Alfred para cursar a universidade. A história foi escrita por Frank Robbins, desenhada por Irv Novick e arte-finalizada por Dick Giordano.
Não dá para dizer que os três foram influenciados, quinze anos após a publicação de A Sedução do Inocente, por Wertham. Pode-se dizer sim que a história pretendeu devolver o aspecto sombrio ao Homem-Morcego, que abandona a Batcaverna e transforma o prédio da Fundação Wayne em quartel-general. Em fevereiro de 1984, agora na edição 39 da revista The New Teen Titans (Os Novos Titãs 17, extinto formatinho da Editora Abril) que publicava as histórias da equipe agora comandada por um Robin mais maduro, Grayson resolve abandonar definitivamente o uniforme colorido, mas não o combate ao crime.
Numa espécie de homenagem ao seu mentor, confecciona um traje de aspecto sombrio, passando a agir sob a alcunha de Asa Noturna (lembram da saga O Contrato de Judas, publicada nas edições 18 a 20 do formatinho Os Novos Titãs, da Abril? Foi nesta saga que o Asa apareceu pela primeira vez) . As histórias que contam os primórdios do Asa Noturna podem ser conferidas na revista Os Novos Titãs, publicada pela Panini.
Jason Todd, o segundo Robin, aparece pela primeira vez em março de 1983 no número 357 de Batman, surpreendido pelo Morcego quando tentava roubar os pneus do Batmóvel. Surpreso com a ousadia do rapaz, Batman resolve treiná-lo achando que encontrou o substituto perfeito para Richard. Esta foi uma das raras vezes em que Batman se enganou com alguém. O sucessor de Grayson era um jovem revoltado, descuidado e pouco disposto a seguir regras. Foi espancado violentamente pelo Coringa e seus capangas antes de ser morto na história A death in the family, escrita por Jim Starlin, desenhada por Jim Aparo e arte-finalizada por Mike Decarlo.
Numa votação promovida pela DC, a maioria dos leitores foi a favor da morte do segundo Robin. Os artistas responsáveis pela história não fizeram por menos e mostraram com detalhes o cruel espancamento e assassinato de Jason pelo Coringa. Após este episódio, Batman se torna ainda mais sombrio devido à amargura causada pela morte de seu parceiro.
Mas a lenda não poderia morrer. Após enfrentar a relutância de um herói amargurado por ter perdido de forma trágica seu segundo companheiro, Timothy Drake é o terceiro a assumir o manto de Robin. Desta vez, o menino por trás da máscara demonstra ser bem mais esperto que seu antecessor, revelando a Dick como deduziu que ele foi o primeiro Robin e Bruce Wayne era Batman.
Vendo o herói que tanto admirava se martirizando pela morte de Jason, Tim pede a Dick que volte a vestir o manto de Robin pois, a seu ver, o Cavaleiro das Trevas precisa do Menino-Prodígio. O novo personagem consegue seu lugar na Batcaverna após salvar Batman e Asa Noturna do vilão Duas-Caras, demonstrando habilidades que seus antecessores não possuíam, tendo carisma e personalidade forte, adotando, inclusive, um uniforme diferente do tradicional usado por Dick e Jason.
Uma curiosidade: quem escolheu o uniforme usado por Tim foi o diretor de Batman e Batman, o Retorno, Tim Burton, que optou por uma das opções mostradas pelos desenhistas da época. Nas HQs, o uniforme foi modificado por Batman antes de ser entregue a Tim.
A despeito de comentários maldosos, Robin é um dos mais importantes personagens das HQs. Amado por uns, odiados por tantos outros, inclusive gente da indústria das HQs e do cinema (entre produtores, diretores e atores, parece que ninguém quer dar espaço ao personagem numa nova safra de filmes do Batman) o Menino-Prodígio segue firme e forte, mesmo não tendo, injustamente, a força de personagens que surgiram na mesma época que ele. No entanto, sua importância é quase tão forte quanto à do Batman.
O Menino-Prodígio apareceu com o intuito de fazer com que os leitores mais jovens se identificassem ainda mais com as histórias numa época em que as HQs de super-heróis ainda eram vistas com inocência. Para o público em geral, que não acompanha estes personagens conhecidíssimos, Robin é tão popular quanto seu mentor, Superman ou Mulher-Maravilha. Já há alguns anos, o personagem tem aventuras solo ou ao lado dos seus companheiros Titãs, auxiliando Batman quando é preciso.
A história do primeiro encontro entre Batman e Dick Grayson, o primeiro Robin, está sendo recontada nos EUA por Frank Miller e pelo desenhista Jim Lee na série All-Star Batman & Robin, The Boy Wonder, sucesso de público e crítica em terras ianques, chegando a ocupar o primeiro lugar na lista dos gibis mais vendidos por lá.
Seria uma forma de Miller se redimir com Richard pela forma como ele abordou o personagem em O Cavaleiro das Trevas 2? Na seqüência de uma das melhores HQs de todos os tempos, que mostra um futuro alternativo para os principais personagens da DC, Miller mostra Dick Grayson como um assassino frustrado por não ter o seu amor correspondido pelo Cavaleiro das Trevas.
Wertham abraçaria Miller se estivesse vivo. Podíamos ficar sem essa... Tsc...
Atualmente, Asa Noturna faz parte da superequipe dos Renegados e Robin faz parte dos Novos Titãs. Ambos auxiliam seu mentor e trabalham em dupla sempre que necessário. Suas aventuras podem ser vistas nas revistas Os Novos Titãs e Batman, ambas publicadas pela Panini. Até onde se sabe, Jason Todd continuará morto.
Duas garotas ainda vestiriam o traje de Robin: Stephanie Brown foi, durante um curto período de tempo, a “menina-prodígio” da cronologia oficial. Carrie Kelly foi a Robin da série O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. Sempre me perguntei o que o Dr. Wertham diria se uma das duas fosse a primeira parceira do Homem-Morcego. Acusaria-o de pedofilia? É o tipo de resposta que só se obtém em realidades alternativas...
Agradecimentos ao amigo Luis Gustavo Lomi pelas informações sobre o uniforme de Tim Drake. Um abraço!
|
 |