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Heróis descartáveis
Por Luiz Eduardo Ricon — Quinta, 11 de dezembro de 2003
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Não é de hoje que os heróis têm perdido um pouco daquela aura sagrada que os cercavam. Desde a antiguidade, quando o conceito de herói foi criado pelos gregos, muita coisa mudou, lógico. Mas como Freud, Jung, Bruno Bettelheim e outros apontam em seus escritos, o herói é quase que uma necessidade psicológica do ser humano, sendo uma construção simbólica que cumpre algumas funções importantes no nosso desenvolvimento.
Joseph Campbell, com seus estudos de mitologia, identificou os passos da "Jornada Mítica do Herói", uma espécie de história oculta dentro de todas as histórias, um esquema narrativo que estaria presente em quase todas as grandes histórias contadas pelos seres humanos, desde os mitos de criação, passando pelos contos de fadas e chegando até os arrasa-quarteirões de Hollywood.
George Lucas é apenas um dos muitos cineastas que reconhecem e aplicam o modelo campbelliano em suas criações, especialmente no primeiro (ou quarto?) Star Wars. E, na verdade, a quase totalidade dos roteiros de cinema que saem dos grandes estúdios hoje em dia seguem esse caminho direto à empatia com o público e ao sucesso nas bilheterias.
Antigamente, os heróis dos mitos ou dos contos de fada eram passados de pai para filho, de avó para os netinhos, através das histórias contadas na hora de dormir ou através de livros e compilações de autores como os irmãos Grimm ou Hans Christian Andersen.
Autores mais modernos, como C.S. Lewis (de As Crônicas de Nárnia), J.R.R. Tolkien (O Senhor dos Anéis) e, no Brasil, nomes como Monteiro Lobato, realizaram com seus trabalhos uma espécie de releitura desses mitos e heróis do passado, criando novas mitologias, novos heróis, que seguiam (ou não) as tradições antigas.
Porém, desde o surgimento dos meios de comunicação modernos e da transformação da indústria cultural numa entidade global e quase onipresente, através da televisão ou mais recentemente da internet, os heróis com os quais lidamos têm se modificado drasticamente.
Se antes nos identificávamos e “seguíamos” um herói, esperando ansiosos por aquela hora quase sagrada onde poderíamos reencontrá-lo no livro, na revista, no rádio, no cinema ou na TV, os heróis de hoje estão bem mais disponíveis, e mais do que isso, são muito mais vorazes pela nossa atenção.
Nos shoppings, as salas de cinema se empilham às dezenas; os canais de TV por assinatura exibem 24 horas por dia de programação; a internet traz o mundo até a nossa escrivaninha, ao alcance de um dedo... Nunca tivemos tanto acesso à informação. E nunca estivemos tão suscetíveis à propaganda.
Uma criança de classe média em qualquer grande cidade brasileira passa em média 4 horas por dia na frente da TV. Na maior parte do tempo, assistindo a desenhos animados. Os heróis modernos povoam pelo menos 1/4 do tempo que elas passam acordadas, sendo ainda o mote preferido para as brincadeiras e muitas vezes estando presentes também nos seus sonhos...
Mas infelizmente, os heróis não estão sós.
Junto com cada herói, as crianças de hoje recebem uma carga cada vez maior de mensagens de propaganda, incentivando o consumo de produtos dos mais diversos. Além disso, muitas vezes o herói só existe como um meio de divulgação de determinados brinquedos, especialmente em alguns animes que são exibidos atualmente. Nesses casos, além de gerar milhares de produtos de licenciamento como roupas, cadernos, mochilas e demais produtos, o herói passa a ser uma ferramenta do marketing, passa a estar a serviço dos fabricantes de brinquedos, e os desenhos passam a ser um mero manual de instruções no uso do produto
Sujeitos aos desígnios dos deuses da indústria e do comércio, os heróis, assim como as roupas, sapatos, jogos e brinquedos, são hoje presas indefesas da moda. O herói super-popular de hoje será fatalmente esquecido no ano que vem, quando novos produtos (e novos heróis) precisarão ser vendidos aos milhões de tele-consumidores espalhados pelo mundo.
Como explicar para uma criança de hoje que ela não pode mais ver o desenho que tanto gostava no ano passado, porque o brinquedo saiu de linha e, por isso, seu herói tem de ir para o limbo?
O resultado disso é que hoje os heróis não são mais cultivados, cultuados por fãs que estabelecem uma relação afetiva e de admiração com seus ídolos, mas, ao contrário, são consumidos vorazmente por multidões de crianças e jovens para quem a única relação possível com o ídolo se dá através do consumo, dos produtos que carregam a sua marca e, de certa forma, perpetuam a existência do herói.
Porque, no fim de contas, mais do que derrotar vilões e salvar o mundo, o maior desafio dos heróis de hoje é vencer a concorrência e pagar as contas...
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