Little Man Tate - Tirem as crianças da sala

Por Márcia Lima — Quinta, 2 de março de 2006

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Eu pensei em começar com
"Little Man Tate - A sua nova banda preferida". Mas não, clichê demais...

"Little Man Tate - A revolução começa em Sheffield"? Não, hermético demais.

"Rapaz, amamos sua banda!" Não, não, alguém já deve ter tido essa idéia...

"Little Man Tate - Porque Arctic Monkeys é só a ponta do iceberg". Certamente alguma resenha já traz essa frase...

"Sheffield, a Seattle do século 21". Nah.

Então, Tirem as crianças da sala: vem aí o Little Man Tate!

"Esse cara não existe", foi meu primeiro pensamento após assistir ao vídeo de The Agent, no myspace.com. Eu não conhecia a banda, não sabia que eram de Sheffield, nem que eram vizinhos dos Monkeys.

Um vídeo e duas canções foram o suficiente para que eu caísse de amores pelos engraçadinhos do Little Man Tate. Se nós fossemos ingleses, eu diria apenas: vá amanhã mesmo a um show, tire suas conclusões e em seguida me agradeça. Mas não é tão simples, então vamos por partes.

Era uma vez quatro garotos (Jon, Ben, Dan e Maz) que moravam em Sheffield. Naquela época, era apenas uma cidade do norte da Inglaterra. Hoje, continua sendo apenas uma cidade do norte da Inglaterra, mas a diferença é que agora Sheffield é conhecida no mundo todo por abrigar os Arctic Monkeys, aquela banda hypada da qual você não agüenta mais ouvir falar.

Mas voltando aos garotos... Jon e Maz eram amigos de infância, jogavam futebol todos os sábados, estudavam juntos, foram ao primeiro show aos 12 anos e acharam uma droga (o show foi em uma igreja...). Um dia, já crescidinhos, eles conheceram Ben que, por freqüentar o mesmo pub e por não perder um só jogo, logo se tornou amigo da dupla.

Certo dia, o trio notou que a cidade andava meio apagadinha e resolveu montar uma banda. Jon assumiu a guitarra e os vocais, Ben quis ficar com o baixo e Maz com a outra guitarra. Reza a lenda que o baterista era tão ruim que, aparentemente, não existem registros de seu nome para não comprometer o cara; o que se sabe é que naquela época a banda se chamava The Moon, e poucos têm boas recordações da fase.

"The Moon foi apenas algo que fizemos quando crianças e realmente não queremos falar disso agora, ficou no passado. Era completamente diferente do que fazemos hoje. Nós éramos jovens. Eu, Jon e Ben...", enrola Maz para um fanzine local.

Resumindo: era tudo muito certinho, mas faltava o principal. Eles não tinham um baterista de qualidade. Tinham um cara que "tentava" ser o baterista, mas que, de acordo com os guris, era um tanto lento demais. E assim surgiu Dan, o amigo do amigo do amigo, que veio para resolver todos os problemas. E eles resolveram mudar de nome. Então, em maio de 2005, eles eram o Little Man Tate, donos dos refrões mais gloriosos e contagiantes de toda Sheffield.

Vamos aos fatos: se os Arctic Monkeys são o novo Pulp, o Little Man Tate é o novo Oasis. Eles são a melhor banda que já passou por Sheffield, e a cidade está passando por uma fase ótima - os Monkeys são muito bons e todos sabem disso; mas ainda tem The Long Blondes, Bromhead's Jacket, Stoney e outros. O LMT é muito mais autoral, muito mais envolvente e, por fim, muito mais divertido do que todas as anteriores.

Imagine uma banda. Quatro caras, instrumentos, amplificadores, letras, fãs... Não, definitivamente isso não é tudo para fazer de "uma banda" UMA BANDA. Você precisa de diversão, batidas que te deixam com vontade de dançar sem parar, refrões que te acompanham da manhã até a noite e, claro, identidade, afinal uma banda sem identidade é como um martini sem azeitona. O Little Man Tate tem tudo isto de sobra, menos os martinis, porque eles preferem mesmo é a boa cerveja, do pub de sempre.

(E aí você vai dizer que eu sempre me empolgo e tal... mas a verdade é que a última vez em que fiquei assim tão interessada por uma banda foi lá pelos 13 quando realmente me dei conta da existência do Oasis.)

Voltando ao Litte Man, eles ainda não têm nenhum disco, e isso não faz nenhuma diferença para os fãs, que aproveitam avidamente cada demo, cada apresentação em rádio, cada parte do único vídeo, e cada bootleg. Só para ter uma idéia, entre o início da banda e o lançamento do primeiro single, em 20 de fevereiro de 2006, eles já conseguiram um extenso currículo.

O primeiro show foi em junho. Logo em seguida, venceram a competição da rádio XFM de bandas novas. Na segunda semana de dezembro, tiveram mais de 6.000 downloads pelo website e venceram também o Freash Meat, uma competição entre bandas independentes que acontece no programa Zane Lowe, na Rádio 1 da BBC. Ainda apareceram no site do Channel Four, foram elogiados pela mídia inglesa, e mencionados em publicações como The Guardian, Rolling Stone e NME. Sem contar as diversas publicações inglesas alternativas como Vanity Project, Sandman e The Fly (fanzine que circula
na rede de bares Barfly). Além disso, estão nas rádios locais e nacionais regularmente.

"Mas por que estes caras são tão bons, afinal?"

A marca registrada do LMT são as letras amarradas pela perspicácia do Norte, as melodias que contagiam e a garantia de fazer você dançar ou pelo menos querer estapear alguém quando descobrir que eles estão escapando com sua namorada.

"Cada canção é sobre coisas que fizemos, histórias sobre nós ou sobre alguém que conhecemos ou sobre algo que lemos". Até aí, tudo normal. Acontece que as letras do Little Man Tate são, ahnn, um bocado atrevidas e talvez um pouco, mas só um pouco, obscenas. Certo, não podemos falar dos assuntos das canções porque este é um site-família, mas você pode imaginar. As histórias, eles juram, são todas verídicas e os assuntos geralmente são polêmicos, e incluem garotas, bebidas e outros elementos que facilmente podem ser encontrados naqueles vídeos, sabe?

Talvez esse atrevimento unido a melodias indie rock e às letras irreverentes e descaradas façam da Little Man Tate a banda mais divertida da atualidade, justamente porque eles não caem nos clichês mais óbvios do maisntream nem se prendem à utopia indie. No palco, o sotaque cockney e a dança de Jon são totalmente diferentes de tudo o que você já viu. Eles são arrumadinhos, mas não são geeks, falam coisas que você teria vergonha de ler, mas não são vulgares, enfim, a dualidade acompanha a banda no palco e fora dele.

Os shows são um capítulo à parte - em resumo, pop garageiro transpirando diversão. Estamos tão acostumados com a postura não-estou-nem-aí de Ian Curtis, Liam Gallagher e Alex Turner que chega a ser um bálsamo a visão de Jon, no palco, se divertindo como uma criança. A forma com que ele dança, com que capta todos os olhares encarando cada pessoa da platéia como se contasse suas histórias - proibidas para menores - para cada um dos presentes e o sotaque sheffieldiano fazem do LMT a maior descoberta depois do mp3.

O setlist ainda é pequeno, são sete canções incendiárias começando por Man I Hate Your Band que é o hino anti-hype ("não me fale de dinheiro/ de fama nem de suas canções/ que são as mesmas canções de sempre/... eu vi sua banda/ eu odeio sua banda").

Sexy in Latin tenta ser a mais comportadinha de todas. Fala sobre um menino e uma menina que brigavam quando pequenos, e também sobre a declaração de amor que o garoto escreveu no muro, obviamente em latim. É aquele tipo de música que as meninas indies adoram dançar. The Agent tem o refrão que sintetiza a banda: (‘here we go again, yeah! here we go again.”) É a “culpada” pelo vídeo-tudo-a-ver onde os guris correm por todas as estradas do norte e termina num campo super bonito com direito a pôr do sol.

What! What You Got tem linhas de baixo interessantíssimas que complementam os vocais de Jon. Court Report fala de um travesti hooligan skinhead que vive em Leeds, e é talvez a melhor música já escrita sobre um travesti hooligan skinhead que vive em Leeds. This Girl isn't my Girlfriend traz guitarrinhas delirantes e a história de uma garota que parece ter mexido com nossos amigos. Down on Marie é a preferida dos fãs, fala sobre uma menina que saía com Jon e se tornou bissexual, ela conheceu uma garota, teve algumas idéias... Você sabe...

"Nas ultimas quatro apresentações nós realmente percebemos que tínhamos alguns fãs. Antes nós tocavamos nos clubes NME pelo país que eram cheios de garotos que vinham para passar a noite do clube, não importava qual fosse a banda. Mas no mês passado - começou provavelmente em Newscastle - os shows tiveram pré-venda e as pessoas ficavam lá frente fazendo barulho e cantando nossas canções... era inacreditável... isto aconteceu algumas vezes em Sheffield e York, mas nunca em outro lugar...Então aconteceu em Liverpool, Birmingham e até em Londres onde nós tivemos a pré-venda de 80 ingressos onde vendiam 150, nós nunca esperaríamos, não em Londres. Ficamos assim "ó deus, o que está acontecendo aqui?" Foi estranho, não esperávamos algo assim.” Comenta, incrédulo, o vocalista Jon.

A banda é comparada com Futureheads e Franz Ferdinand. Os garotos, porém dizem que sua inspiração vem de bandas como Pulp, Stone Roses, Beatles, Carter USM, Oasis, I am Kloot, Doves, Blur e The Clash. Mas você vai notar que a voz de Jon lembra mesmo nosso amigo Carl Barat, ex Libertines, hoje na Dirty Pretty Things. De qualquer forma Little Man Tate é Little Man Tate.

“Nós somos apenas caras em uma banda, cantando sobre coisas reais que atraem as pessoas normais. E também não somos os maiores músicos do mundo!" dizem rindo. Podem não ser, mas a pequena legião de fãs não parece se importar. Dedicados vão aos shows em todo o país e os mais fanáticos ajudam na manutenção do site oficial e na divulgação através de blogs e perfis no myspace.com. Alguns já estão comparando os fãs do LMT com os fãs do Oasis - que são quase hooligans - tamanho fanatismo...

Bem, e como são estes caras?
Em termos de características pessoais Jon parece o mais animado, sempre contando histórias, rindo e gargalhando (um paralelo com o que é no palco); Maz é muito calmo e relaxado (exatamente como no palco); Ben parece ser o chefe, mas de uma maneira legal; e Dan, como mais velho, parece ser o mais maduro - um baterista meticuloso com estilo.

Eles curtem bastante a cena local e indicam três bandas que consideram essenciais: “Repomen é a turma mais camarada. Você tem que encontrá-los, eles são ótimos no palco. Chuck, eu vi no Boardwalk este ano e arrebentaram. Uma ótima banda ao vivo. Stoney, não há o que dizer, apenas que é brilhante.”

Do que eles não gostam? "Eu vou dizer o que não precisaria existir: aquelas drogas de bandas manufaturadas" diz Jon, "almas torturadas que geralmente são apenas crianças de classe média com a vida fácil…Não gostamos de música correta e nunca vamos atrair o pessoal que curte.

Como viver de música está cada vez mais complicado, a banda ainda não pôde desistir de seus empregos. Jon trabalha na bilheteria do Boardwalk (um clube alternativo), Maz estuda na Universidade de Salford e Dan é entregador do Fruit'n'Veg. Ben por outro lado é o mais descansado da turminha, ou como os outros dizem, um parasita do estado.

“We live to be live.” É a frase que os define no myspace.com Precisa dizer mais alguma coisa?

Apenas que você ainda vai vestir uma camiseta escrita: Man I Love Your Band!

Corra porque o melhor single do ano está disponível no I Tunes desde o dia 20 de fevereiro. The Agent é totalmente independente, e saiu neste mês pela Yellow Van Records.


Site oficial: www.littlemantate.co.uk
Perfil no myspace.com: www.myspace.com/littlemantatemusic
Vídeo oficial: http://www.frannyman.com/lmt/video/video.html
Vídeos no youtube.com clique aqui


Eu queria falar do novo disco do Liars, Drum's Not Dead, catártico, hipnótico e assustador, mas não deu tempo. E sobre o discaço da Regina Spektor, Mary Ann Meets the Gravediggers...

Mas não posso esquecer de falar do terceiro Freeze Cast que já está no ar. Muse, Clap Your Hand Say Yeah, Nada Surf, Regina Spektor, Say Hi To Your Mom, The Clientelle, Plato Divorak e um espertíssimo Pavement ao vivo. Não perde.




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