Os últimos lançamentos em quadrinhos nos EUA

Por Felipe Meyer — Quinta, 16 de fevereiro de 2006

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Young Avengers #10


Certo, vamos recapitular alguns fatos. Anos atrás, uma mutante conhecida como Feiticeira Escarlate conheceu um andróide (ou sintozóide, como preferirem) chamado Visão que carregava os padrões cerebrais do aparentemente falecido Magnum. Ignorando o fato do tal Visão não ser humano, não ser o proprietário original de suas emoções e ser impossibilitado de se reproduzir (sem falar que é improvável que seu criador Ultron tenha lembrado de equipar o ser artificial com o necessário para, digamos, "satisfazer uma mulher"), a Feiticeira decidiu que ele era seu homem ideal. Os dois se casaram, apesar dele não possuir direitos civis, e tiveram dois adoráveis filhos gêmeos, apesar das limitações já citadas.

Alguns anos se passaram e foi revelado que os poderes de alteração das probabilidades da Feiticeira (que a cada ano que passa, a Marvel demonstra saber menos sobre como eles funcionam) eram o que fazia os garotos existirem. Tudo foi resolvido apagando a existência dos dois, bem como as lembranças que sua mãe tinha deles. Claro que a Marvel nunca perde a chance de fazer referências antigas (e assim forçar seus leitores a correrem atrás de edições anteriores), e esses eventos foram parte dos motivos que causaram o descontrole dos poderes da mutante, a morte de alguns vingadores e o evento “House of M”.

Pausa.

Mais alguns anos à frente, um novo título chega às bancas trazendo versões juvenis dos Vingadores. Diversos heróis com hormônios à flor da pele são reunidos por uma mistura do Homem de Ferro com Kang, O Conquistador, por possuírem ligações misteriosas com heróis adultos, e que seriam reveladas aos poucos, garantindo o interesse dos leitores. Cassie Lang (Stature), é filha do Homem-Formiga, morto pela Feiticeira Escarlate. Eli Bradley (Patriot) é neto do Capitão América original (como foi revelado na mini-série Truth, o primeiro bandeiroso era negro, e não caucasiano).

Kate Bishop simplesmente apareceu na hora certa e decidiu que queria entrar na brincadeira. Teddy Altman (Hulkling) e Billy Kaplan (Wiccan) são o casal da trama, e alvo das mais recentes revelações do título. A edição Young Avengers Special convidou diferentes artistas para contar rapidamente os primeiros passos desses novos vigilantes, inclusive mostrando um encontro de Wiccan com a nossa conhecida Feiticeira, responsável indireta (?) pelo surgimento dos poderes do garoto.

Adiciona-se a isso o encontro do grupo com Tommy, sósia quase idêntico de Billy - exceto pelo cabelo branco - e com poderes ligados à velocidade (lembrando que a maçã nunca cai longe da árvore, percebem onde estou tentando chegar?). Há também a revelação de que Teddy é filho ilegítimo de uma princesa Skrull com um grande inimigo de sua raça (teria ele puxado os cabelos louros do pai?). Tudo isso, unido, apesar de parecer a maior novela mexicana já criada pela Marvel, acaba resultando num dos títulos mais divertidos e empolgantes dos últimos tempos, fazendo-me lembrar bem do charme que tinham os formatinhos que eu comprava metodicamente todos os meses durante minha adolescência.




Sensational Spider-Man #23


Arco novo, equipe nova. Bom, nem tanto. Angel Medina com certeza tem um bom traço, mas me incomoda o modo como me lembra a época em que McFarlane desenhava o herói. Lá se vai a espinha de Peter Parker mais uma vez.

A história continua no tema “feral”, explorando os personagens do universo Marvel (mais especificamente do universo do Homem-Aranha) que possuem poderes baseados em animais. As aparições da vez são do Abutre, Lagarto, além do ressurgido Lobisomem (o filho pródigo de J. J. Jameson).

Ainda há uma pequena referência à descoberta dos novos poderes do amigo da vizinhança, mas é um alívio ver que por enquanto se limitou ao segundo plano (sem aquela enxurrada de conclusões fantásticas sobre os hábitos alimentares e sexuais desse ou daquele tipo de aranha que preencheu as últimas páginas do arco “The Other”).




Ares #1 e #2


Desde pequeno, um dos compositores que mais gosto é Chico Buarque. Talvez seja por influência da genética, visto que em casa tínhamos todos gostos (especialmente musicais) completamente incompatíveis, mas acabávamos concordando em relação a Chico Buarque. Por volta dos doze anos quase levei meu pai à loucura por conta de uma obsessão pela música “Geni e o Zeppelin”. Ouvia-a dia e noite, repetidas vezes, a todo volume, inclusive durante as refeições. Quando se davam por vencidos, meus pais acabavam em uma longa discussão sobre a sexualidade de Geni, que meu pai afirmava com certeza ser uma “bichinha”, nas palavras dele.

Fato é que a história da moça (ou moço) rejeitada pela cidade mas que representava a única salvação para seus cidadãos (somente para depois ser novamente rejeitada) cativara não somente o forasteiro da canção como a todos daquela casa. Mais de uma década depois, não pude deixar de cantarolar a velha música enquanto lia a nova série Ares, de Mike Avon Oeming.

Nela, o Deus mais odiado do Olimpo (e que dá nome à publicação) é chamado por seu pai, Zeus, a fim de dar cabo da ameaça de Hades, que está aos portões da cidade dos Deuses com suas hordas de demônios. Acreditando ser esta a oportunidade de retornar aos braços e ao carinho dos seus, Ares inflige um ataque brutal sobre o Deus do Inferno e condena seus soldados aos piores sofrimentos da eternidade; somente para ver sua família novamente lhe dar as costas. Humilhado e traído, ele abandona a tudo, inclusive ao título de Deus da Guerra, e decide seguir vida nova entre os mortais.
Anos mais tarde, uma nova ameaça surge às muralhas do Monte Olimpo.

Vindas do oriente, as hordas de guerreiros mortos-vivos enfrentam os Deuses, que caem um a um. Zeus então envia Hermes à Terra, em busca de seu filho mais forte. Mas Ares nada quer saber dos Deuses. Ele agora tem uma vida que preza, um filho que ama e nenhum desejo de voltar a lutar. Ele devolve o mensageiro ferido a seu pai, com uma nova mensagem: se os Deuses o quiserem de verdade, basta chamá-lo novamente, mas este será também o fim do Olimpo, e de todos que vivem nele.

O traço de Travel Foreman é violento, sabendo representar bem o significado de ser o Deus da Guerra. As cenas de batalha são detalhadíssimas e quase cinematográficas, mas é nas interações dos personagens que ele parece se perder, com algumas expressões confusas e erros incômodos de anatomia. Alguns personagens, como Zeus e o próprio Ares, parecem não ter uma estatura fixa, crescendo e diminuindo ao longo das páginas.

Oeming mostra muito bem a que veio, explorando profundamente as emoções e reações do protagonista. Pequenos comentários e referências aqui e ali nos fazem lembrar que a história se passa dentro do universo Marvel, mas a trama segue independente de qualquer participação especial - com exceção de Hércules, que aqui enche a boca para falar de honras mas não é retratado com a maior delas.




Invincible #28


Há algo mais para dizer? Robert Kirkman é o cara. “Invincible é provavelmente a melhor revista de super-herói-adolescente já criada”. Menção honrosa para a última página, onde Kirkman e Ryan Ottley demonstram toda a verdade das palavras que Nolan disse ao filho nas últimas edições.

Como todo título de longa duração, aos poucos os arcos paralelos vão surgindo, à medida que o próprio universo do personagem-título vai sendo aprofundado. Os autores no entanto mantém Mark como foco principal, abrindo espaço para os demais somente quando estritamente necessário.

Ottley é fiel ao visual criado por Cory Walker (co-criador do personagem, e desenhista das primeiras edições), mas eu gostaria de ver um pouco de seu próprio estilo nos próximos números.



Nextwave #1


Pois é. Mais um super-grupo formado por super-heróis esquecidos (e bota esquecidos nisso), numa nova roupagem e um nome diferente e “moderno” que dá exatamente a impressão oposta, a de coisa nova. Tenho certeza que todos se lembram dos exemplos mais recentes dessa fórmula (mas se não lembrarem, é só avisar que eu faço a listagem numa coluna vindoura), especialmente nas publicações da Marvel em 2005.

Normalmente, o que difere uma série de outra dentro desse “gênero” é um ponto de vista que a faça se destacar, uma abordagem que a torne única. Não é o caso de Nextwave, que parece repetir diversos clichês de histórias do tipo “reunião”. O que a faz se destacar (pelo menos um pouco), é o fato desses clichês aparentemente serem propositais. Diversos elementos da mitologia Marvel estão presentes na trama, a maioria tratada com escracho e muita paródia.

A começar pela agência de espionagem da qual os personagens se desgarram, a H.A.T.E. (uma sigla tão estúpida quanto S.H.I.E.L.D.), comandada pelo áspero Dirk Angry (uma óbvia referência a Nick Fury), um sujeito de mais de oitenta anos, fumante compulsivo de charutos e cigarros e que se mantém jovem graças a drogas fornecidas pela organização.
A equipe da “próxima onda” (nome mais psicodélico, impossível) decide agir de forma independente após a descoberta de que o maior patrocinador da agência H.A.T.E. é na verdade fachada para uma companhia que produz armas de destruição em massa para serem testadas em solo estaduniense.

Photon (também conhecida como Capitã Marvel), Homem-Máquina, Capitão, Dinamite e Ellie Bloodstone então roubam uma aeronave experimental, quebram algumas cabeças e se preparam para enfrentar uma terrível ameaça verde gigante e de cuecas roxas (antes mesmo do monstro aparecer por inteiro, já dá pra adivinhar quem é).

Stuart Imonnen tem um traço muito bom, unindo estilos de diversos artistas que admiro (o que o fez ganhar minha simpatia imediata). Warren Ellis, no entanto, parece se perder um pouco no tom sarcástico e exagera nas constantes piadinhas. A narrativa diverte, mas não faz ninguém explodir em risos, como parece ser o objetivo.




Daughters of Dragon


Outro detalhe importante sobre as novas roupagens: elas nunca surgem desacompanhadas. Daughters of Dragon ressuscita outro grupo praticamente esquecido pelos leitores da Marvel: a Nightwing Restorations, que por muito tempo atuou como apoio à agência de heróis de aluguel de Luke Cage e Punho de Ferro.

Suas proprietárias são Misty Knight, ex-policial que teve um dos braços arrancado em uma explosão e substituído por uma prótese cibernética de força sobre-humana; e Colleen Wing, descendente de samurais e que por si só é uma ninja altamente bem treinada. As “filhas do dragão” (como foram apelidadas por Davos, antigo inimigo do Punho de Ferro) retornam em um novo título, onde atuam como oficiais de justiça caçando super-vilões que desrespeitaram suas condicionais. Me fez lembrar um reality show que passava ocasionalmente no CineMax.

A nova caracterização das “heroínas” é interessante, um misto de As Panteras com Starsky & Hutch. Khari Evans é um bom desenhista, mas exagera nos maneirismos e nas expressões quase deformadas. Algumas lições de moda ajudariam bastante também: sempre me incomodaram os vestidos horrendos que Erik Larsen desenhava para Mary Jane, assim como me incomodam bastante as roupas ridículas que Evans escolhe para a suposta alta sociedade; sem falar na exagerada referência aos anos setenta do visual de Misty, com um black power absurdo e incômodos sapatos de plataforma (integrados ao uniforme de couro, o que só torna tudo pior). Colleen, a ninja, parece ser muito mais inteligente que a parceira, usando tênis com amortecedores.

Diga-se de passagem... Até Luke Cage caiu em si e abandonou o penteado e a camisa amarela aberta no peito. Ele e sua esposa podiam visitar a agência Nightwing com algumas revistas e conselhos debaixo do braço.




New Avengers #16


Uma nova ameaça (pra variar) ameaça os EUA e o mundo, aparentemente vinda do espaço. A S.H.I.E.L.D. se vê incapacitada diante da estranha criatura que já destruiu todo tipo de barreira colocada em seu caminho (incluindo o grupo de heróis canadenses Tropa Alfa, derrotado em segundos) e reluta em convocar os Vingadores devido à recusa de Tony Stark em prestar esclarecimentos sobre os eventos de House of M.

No geral, é uma história interessante, com desenhos detalhadíssimos de Steve McNiven e uma boa narrativa de Brian Michael Bendis que faz lembrar a abertura de algumas super-produções do cinema. No entanto não chega a ser uma história completa, mas meramente uma introdução. Basicamente é uma história sobre os Vingadores onde os mesmos sequer aparecem.

Perfeito para o prólogo de uma edição encadernada, mas bastante fraco para uma edição individual onde se espera ver pelo menos alguns dos personagens que figuram na capa.




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