Jane Austen retorna com magia e encantamento

Em 1995, o sucesso de
Razão e sensibilidade, de
Ang Lee, baseado na obra-prima literária de
Jane Austen, proporcionou uma deliciosa enxurrada de filmes baseados na obra da genial escritora inglesa - assim, vieram
Emma,
Persuasão,
Palácio das ilusões... só não foi feita uma versão do melhor livro da autora,
Orgulho e preconceito.
Ou melhor, foi feita sim, mas uma minissérie para a TV, com
Colin Firth e
Jennifer Ehle nos papéis principais. No cinema, naquele período,
Orgulho e preconceito ficou em falta.
Dez anos depois, coube ao diretor
Joe Wright preencher esse vácuo trazendo às telas grandes uma versão à altura do universo literário de Jane Austen, com
Keira Knightley como a protagonista Elizabeth "Lizzy" Bennet. Azarão no Oscar, onde concorre a melhor atriz, Knightley está perfeita como a segunda de cinco filhas solteiras para as quais sua mãe (no filme,
Brenda Blethyn, esplêndida) tenta desesperadamente arrumar (bons) casamentos na Inglaterra georgiana, mas cuja condição
remediada torna a si e a sua família pessoas consideradas
inadequadas para figurarem nas altas classes britânicas.

Brilhantemente adaptado, o roteiro de
Orgulho e preconceito sintetiza com rara competência em um filme com pouco mais de duas horas o calhamaço que se constitui o livro original, e, apesar de estar estreando na direção de um longa-metragem, o cineasta Joe Wright demonstra segurança para criar cenas belíssimas, como a ágil movimentação dos personagens no baile onde Elizabeth conhece Darcy, e plasticamente irretocáveis, como o momento de transição no qual a mesma Lizzy vai visitar a irmã acamada na residência dos Bingley. Um reforço a esse encantamento é a belíssima trilha musical do italiano
Dario
Marianelli, também indicado ao Oscar.
A leveza e a doçura com que Wright conduz seu filme de estréia tornam essa versão de
Orgulho e preconceito uma das melhores adaptações de Jane Austen às telas, digna de comparação com a realizada por
Robert Z. Leonard em 1940 (com
Greer Garson e
Laurence Olivier como, respectivamente, Lizzy e Darcy). Na narrativa, estão presentes a arrogância e altivez das classes mais abastadas da Inglaterra georgiana e a análise da discriminação contra as classes mais humildes que a escritora sempre denunciou em seus livros.
Mas há também a beleza, a suavidade, a magia e o encantamento com que Austen sempre criou suas tramas. Afinal, orgulho e preconceito eram os seus temas. Meiguice, senso e sensibilidade, a sua forma de abordá-los.
Orgulho e preconceito, o filme, honra esse estilo de forma brilhante.