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Opiniões ao vento: final
Por Leonel Dorkboy — Quarta, 10 de dezembro de 2003
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Olá, queridos e fiéis leitores. Aqui vamos nós com a terceira e última parte do nosso guia incompleto, arbitrário, épico e verborrágico sobre os quadrinhos legais no Brasil hoje em dia. Esta coluna múltipla foi planejada desde o começo como uma trilogia, que nem os irmãos Wachowski juram que foi Matrix.
Enfim, continuando. Semana passada, nós (por “nós” leia-se “eu e as vozes na minha cabeça”) nos detivemos nos títulos X, analisando detalhadamente o que se tem de mutantes aqui no Brasil (fora os inimigos dos Thundercats). Hoje, vamos continuar por enquanto na editora Panini e dar uma olhada em um título muito bacana: Marvel Millenium: Homem-Aranha.
Este talvez seja o melhor título de super-heróis no Brasil hoje em dia. E as razões para isso são simples: Brian Michael Bendis e Mark Millar. Bendis, o escritor por trás de Homem-Aranha Ultimate (que dá o título a esta revista) consegue fazer o impossível: criar histórias do Aracnídeo que são, em essência, revisões do que já foi feito há décadas com o personagem, mas sob um ângulo novo e sempre divertido. Para quem não sabe, o universo Ultimate é uma versão do universo Marvel como se os heróis tivessem surgido há poucos anos. Assim, Peter Parker ainda é um adolescente, está começando seu namoro com Mary Jane Watson, apanha dos colegas de segundo grau, etc. Obviamente, tudo recebe um update nas tramas desse universo: Peter, por exemplo, é um webdesigner do Clarim Diário, ao invés de um fotógrafo. Não existe um “truque” ou uma explicação fácil do porquê destas histórias funcionarem tão bem, apenas um bom escritor. As tramas são divertidas e cheias de ação sem serem bobas, e a caracterização dos personagens é perfeita. O único defeito é a arte de Mark Bagley, que não chega a ser ruim, mas fica abaixo do padrão (e com erros de anatomia que de vez em quando incomodam).
Além disso, temos os X-Men Ultimate, também um reboot dos mutantes da Casa das Idéias. Embora bom, este título não chega aos pés dos seus companheiros de revista, com sua caracterização “forçada” dos personagens (é difícil ver os X-Men, pela maneira como se comportam, como adolescentes – mais realista seria representá-los como jovens de 19 ou 20 anos de idade). No entanto, o escritor dos X-Men Ultimate, Mark Millar, compensa em dobro (no mínimo) com o que talvez seja o melhor título de super-heróis da atualidade, Os Supremos. A versão “Ultimate” dos Vingadores, os Supremos são tudo o que os heróis da atualidade deveriam ser: engraçados, profundos, violentos, chocantes e muito, muito poderosos. Millar conseguiu pegar uma das equipes mais insossas da Marvel (francamente, os Vingadores nunca emocionaram muito) e transformá-la em ouro. A arte de Bryan Hitch também é espetacular, com seu hiper-realismo e referências de atores hollywoodianos (Nick Fury é o Samuel L. Jackson escrito!) emprestando ainda mais impacto para as cenas de destruição em massa. Enfim, imperdível. Ainda temos nessa revista minisséries como Demolidor & Elektra Ultimate (que não acrescenta nada de especial aos personagens, só tira) e a Guerra Suprema entre X-Men e Supremos (que eu ainda não li).
Adiante: dois títulos que valem a pena são os excelentes (e baratíssimos) Justiceiro & Elektra e Hulk & Demolidor. A fase atual do Justiceiro é excelente: com Garth Ennis à frente dos roteiros e sempre excelentes desenhistas a cargo da arte (em geral o ótimo Steve Dillon), Frank Castle nunca esteve tão bem representado. As histórias em geral seguem uma linha “humor-negro-e-muitas-mortes-criativas”, mas de vez em quando Ennis nos brinda com suas excelentes caracterizações, que são na verdade seu ponto mais forte. No recente arco de histórias “A Irmandade”, nós pudemos ver o escritor trabalhar com dramas pessoais e personagens cheios de falhas, sua especialidade. Ennis consegue inserir elementos melodramáticos (leia a história Pátria Amada, um especial do Hellblazer, para um bom exemplo disto) sem parecer piegas. Pelo contrário: ele nos lembra que melodramática é a vida. Já Elektra, a cargo de Greg Rucka (roteiros) e Carlos Meglia (desenhos, pelo menos até o último número que eu li) não empolga. Fazer da ninja assassina uma pessoa mais humana e boazinha tira boa parte do charme da personagem: Elektra funciona melhor quando é uma força da natureza, implacável e quase incompreensível. A arte “cartunesca” também é um desserviço à história, emprestando um humor involuntário ao clima que deveria ser mais pesado.
Hulk é uma grata surpresa, pelo menos para mim: eu nunca fui muito fã do Verdão, mas não consigo deixar de lado o arco de histórias atual, de Bruce Jones (roteiros) e John Romita Jr. (desenhos). Focalizando-se em Bruce Banner e nas pessoas ao seu redor, Jones consegue criar histórias novas e “fresquinhas” sem descaracterizar o personagem: seu Banner é amargurado, solitário, sofrido, perdedor. Os coadjuvantes também são uma atração à parte. E, por favor, alguém pode me dizer como John Romita Jr. consegue desenhar dois títulos por mês mantendo uma qualidade tão alta? O pequeno Romita está na sua melhor forma, com um arte “solta” e muito característica. Por fim, o Demolidor de Brian Michael Bendis (histórias) e Alex Maleev (desenhos) apresenta uma perspectiva diferente do herói cego. Com sua identidade revelada e envolvido em esquemas da máfia, Matt Murdock recebe de Bendis o que o escritor sabe fazer melhor: tramas policiais. Destaque também para os diálogos. A arte de Maleev, embora estranha, é competente. O único problema, pelo menos para mim, é a rapidez com que as histórias fluem: às vezes, fica a sensação de que falta “substância”.
Marvel Max, o mais novo título de heróis da Panini e nova vedete da editora, é, para mim, motivo de indecisão. A revista, que inclui no seu mix apenas títulos da linha adulta de mesmo nome da Marvel (e, portanto, é proibida para menores de 18 anos) mistura histórias excelentes e adultas com outras fraquinhas e "adultas". Alias, de Brian Michael Bendis (eu sei, de novo, mas fazer o quê se o cara escreve uns trocentos títulos por mês) e Michael Gaydos, é a pérola da revista, apresentando a ex-heroína e atual detetive particular Jessica Jones envolvida com o pior lado do universo Marvel. Bendis pode ousar neste título adulto, e o faz tanto na história (que apresenta violência, um lado “insalubre” do trabalho policial, referências quase explícitas a formas “pouco convencionais” de sexo, etc.) quanto na diagramação. O escritor brinca com alguns dos aspectos menos explorados do cotidiano em um mundo de super-seres, como o uso de super-poderes no dia-a-dia, a função da polícia frente aos supers, a vida de heróis aposentados e outras coisas. A arte é boa e serve bem à história (sem contudo impressionar).
Já a Viúva Negra, colega de revista de Jessica Jones, desaponta em quase todos os aspectos. Apresentando uma trama ambientada no mundo sadomasoquista de Moscou, o escritor Greg Rucka parece querer inserir o maior número de elementos “adultos” por quadrinho, para lembrar ao leitor constantemente que ele está lendo um título adulto, onde palavrões e seios são permitidos. A arte de Igor Kordey (que, segundo um amigo meu, “só pode desenhar com os pés”) não está tão ruim quanto em suas participações nos X-Men, mas ainda deixa a desejar. E, francamente, a “grande revelação” no final da minissérie não poderia ser mais insossa. Ainda bem que acabou, e no número 4 da Marvel Max teremos o Mestre do Kung-Fu em seu lugar.
Cage, de Brian Azzarello (roteiros) e Richard Corben (arte) reformula Luke Cage, o antigo “herói de aluguel” (e o personagem negro mais famoso da Marvel) e é o título que mais divide a minha opinião dentro da MM. Por um lado, Azzarello, o criador da excelente série 100 Balas, é capaz de roteiros muito, mas muito melhores do que as histórias monótonas que tem apresentado. Por outro, a arte de Corben é diferente e ótima, apresentando um estilão “europeu” nos comics americanos. Cage é apresentado como um tipo durão e mauzão, que não leva desaforo para casa, e aí está o problema: o personagem parece vazio, unidimensional. É claro que nós não queremos ver o “lado frágil e sensível” do herói de aluguel, mas algum resquício de sentimento cairia bem... Além disso, a linguagem de rua, a especialidade de Azarello, se perde na tradução, que se utiliza de gírias dos anos 80 e termos “de novela das 8”, ou seja, gírias que ninguém realmente fala.
Finalmente saindo dos super-heróis, vamos dar uma olhada em um mangá. Vagabond, título da editora Conrad, é o único mangá que eu compro atualmente. A revista, com roteiros e arte de Takehiko Inoue, conta a história de Myiamoto Musashi, o maior espadachim da história do Japão. Obviamente, trata-se de uma versão romanceada, a própria visão do autor sobre a figura histórica, mas nem por isso tem menos valor. Vagabond tem a vantagem de contra com personagens ricos e contrastantes como apenas as pessoas “reais” (ou interpretações de pessoas reais) conseguem ser. Além disso, todo o elenco tem uma qualidade mítica e grandiosa que dá um sabor especial à leitura. A arte também é, em geral, fabulosa – e quem acha que mangá só tem arte simples ou infantil deve dar uma conferida nesse samurai errante. O grande problema de Vagabond, contudo, é a falha (ou característica, mas na minha opinião falha) de muitos mangás: o alongamento excessivo das batalhas. Por mais que seja legal explorar os sentimentos dos personagens antes de uma luta, é muito irritante quando um número inteiro de uma revista é passado em closes dos rostos dos combatentes e espectadores, com pensamentos como “vai ser uma luta difícil!” ou “apenas um sairá vivo!”. Como diz a minha noiva, daí Vagabond vira “VagabondBall Z”, e fica muito, muito cansativo. Felizmente, não é sempre que isto acontece. Fica estranho, contudo, ler um gibi de samurais e torcer para que não haja muitas batalhas... Neste quesito, o clássico dos clássicos de magás de samurais, Lobo Solitário, ganha de longe, assim como Blade of the Immortal, já prometido pela Conrad.
Bem, tenho a vos dizer, senhores, que estes são os títulos que eu acompanho mês a mês. Claro, temos também o excelente Dylan Dog da Mythos Editora, mas eu já escrevi uma coluna inteira sobre ele, e não vou ficar me alongando sobre como este título é excelente. Temos também o atual arco de histórias Batman: Silêncio, que eu li importado, bom mas previsível. E temos ainda vários outros títulos que, diferente de mim, vocês não deveriam perder, como Hellblazer, da Brainstore.
Enfim, este foi um guia totalmente incompleto e arbitrário (mas monumental!), e imagino que agora nós nos conheçamos um pouco melhor em termos de HQs. O problema vai ser ter que pensar num assunto para a coluna da semana que vem...
E você, o que tem lido?
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