Os garotos inocentes do pop

Por Márcia Lima — Quinta, 9 de fevereiro de 2006

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Alou. Tudo nos trinques?

Incrível. De todos os e-mails que recebi sobre o Honorary Title/Coachella/Cat Power apenas dois foram de garotos! Das duas uma, ou os garotos absolutamente detestaram o Honorary ou esta coluna é uma filial do Clube da Luluzinha. Não sei. E de quem foi a resposta mais bacaninha? Da honorária leitora carioca Shirley C. Sampaio que além de amar a Cat Power caiu de amores pelo Jarrod e pelo Aaron assim que ouviu a primeira música e agora tá pensando até em ir ver um show dos caras. Coisa fina.

Antes que eu esqueça: Sábado tem lançamento da nova edição do zine Freeze Pop. Quem é de Porto Alegre ou região metropolitana não pode perder. Estaremos no Cave e os 50 primeiros levam uma edição de presente. Clica no flyer ao lado, para outras informações.

Bom, a coluna desta semana tá bem diferente. No ano passado acompanhamos um estouro de bandas experimentais-queridinhas do tipo Bearsuit, Architecture In Helsinki e Clap Your Hands Say Yeah. Em 2006 esta “estética da inocência” está ganhando ainda mais força e um dos nomes mais interessantes é o The Boy Least Likely To. Já comentei sobre eles aqui, lembra?

Quando ouvi o disco pela primeira vez já pude diagnosticar: amor à primeira vista. Tá, você deve estar pensando que eu amo uma banda por semana, mas não é nada disso, tolinho. A quantidade de bandas novas que eu escuto por semana chega a ser doentio. E de todas estas, uma ou outra eu acho que tem alguma relevância, pra ser comentada aqui.

Pois bem. A dupla The Boy Least Likely To lançou seu disco de estréia, The Best Party Ever, no ano passado e agora começa a fazer algum barulinho no underground. O incrível nesta dupla inglesa é a sonoridade lo-fi e quase infantil, a melodia pop e o tema das canções: o medo da mortalidade de todas as coisas (uma certa síndrome de Peter Pan) estão por todo o disco em letras que falam de ursinhos, tigres, borboletas, refrigerantes e claro, amor.

Como o disco ainda é pouco conhecido as informações são poucas escassas (se você procurar na internet não vai encontrar quase nada sobre eles). Então, Marc Hogan, um jornalista americano, muito esperto, sentiu o potencial da banda, e logo fez uma super entrevista, que eu traduzo logo abaixo.

Sugiro que antes você clique aqui e espere que a música começa em segundos. Assim enquanto conhece um pouco mais sobre esta duplinha fofa, vai ouvindo um sonzinho legal e de quebra, ganha uma nova banda favorita. E, por favor, não deixe de baixar o vídeo de Be Gentle With Me. [Afinal uma banda que fala das Pippetes merece todo o crédito do mundo.]


Entrevista com The Boy Least Likely To, por Marc Hogan



Em The Best Party Ever, a estréia do duo inglês The Boy Least Likely To, o compositor multi-instrumental Pete Hobs, 27 anos e o cantor/compositor Jof Owen esboçam um livro de histórias pop onde combinam inocência e neurose paralisantes. Soando cheio de alegria "I'm Glad I Hitched My Apple Wagon To Your Star" [uma das canções] faz menção à bandas disco country. Mas isto foca apenas uma fração do estilo do TBLLT. Adicione aí psicodelia surf dos 60, pop incompreendido dos 80 e bandas das gravadoras Sarah Records e Postcard.

Como me apaixonei instantaneamente pela musica, não sabia nada dos artistas que estavam por trás dela. Recentemente troquei e-mails com Owen falando sobre suas influências, a infância, e as limitações do rock’n roll.

Marc Hogan: Primeiro, o básico. Onde vocês cresceram?
Jof Owen:
Ambos crescemos em uma pequena vila chamada Wendover em Buckinghamshire, Inglaterra, no meio da zona rural, 40 milhas ao norte de Londres. É quieto e estranho, rodeado pelas colinas Chiltern. É bonito acordar e abrir sua janela entre os campos e colinas. Não há nenhuma loja proveitosa, acho. Apenas lojas antigas de decoração de bolos. Não há muito o que fazer por lá. Especialmente quando se é jovem.

Marc Hogan: Há quando tempo vocês se conhecem? Como aconteceu a união do The Boy Least Likely To?
Jof:
Nos conhecemos na escola e começamos a escrever canções juntos, já naquela época. Então fomos para a faculdade, entramos em algumas bandas, mas não saiu nada interessante de lá. Até a pouco tempo atrás não escrevíamos para o Boy Least Likely, escrevíamos para outras pessoas cantarem. Acho que a primeira canção que escrevemos deve ter sido “Paper Cuts” e “Hugging My Grudge”. E nós apenas um gravador de quatro canais, misturando sons e instrumentos que nunca havíamos usado. E Pete não poderia ter tocado melhor. Acho que o som das gravações veio de não sabermos realmente o que estávamos fazendo.

Sempre pensamos que provavelmente ficaria melhor usando os equipamentos de agora. Mas ainda gravamos da mesma forma. Apenas experimentamos idéias e instrumentos diferentes até que encontramos algo que soe bom, ou apenas nos faça rir. Como nós não queríamos gastar nosso tempo enviando demos para as gravadoras, então negociamos a distribuição, montamos a Too Young To Die e lançamos Paper Cuts como 7 polegadas. A gravadora e a banda cresceram a partir daí.

Marc Hogan: Muita gente suspeita que o nome da banda seja uma brincadeira com a canção de Morrissey, The Girl Least Likely To. Você passou por uma fase Morrissey?
Jof:
O nome é apenas uma frase que condiz conosco. Ninguém realmente esperava qualquer coisa de nós. Nem mesmo eu. E não ouvi a canção de Morrisey até que alguém me enviou uma cópia do single.

Eu realmente não a tenho como um ponto de referencia. Sempre fui um grande fã de Smiths enquanto estava crescendo, e ainda sou. Especialmente do primeiro álbum. Mas existem outras bandas deste tempo que provavelmente representam mais pra mim, hoje, como Go-Betweens e Dexy's Midnight Runners, mas definitivamente quando eu tinha 12 anos, os Smiths significavam o mundo para mim.

Marc Hogan: O que mais te inspirou enquanto estava crescendo?
Jof:
Eu curti muitas coisas diferentes enquanto crescia. Meu primeiro disco foi um de Johnny Cash e Marty Robbins de baladas matadoras, quando eu tinha 7 anos. Eu amei. Sempre achei que seria um cowboy, mas acho q não há muitas chamadas para cowboys no meio da Inglaterra. Talvez quando eu for para a América possa me tornar um, assim como Bernie Taupin fez.

Quando eu estava um pouco mais velho curti todas as bandas da classe 86 como Talulah Gosh, Pooh Sticks e Vaselines. E apenas movi minhas influências a partir daí. Orange Juice, Aztec Camera e Altered Images…. Então passei a curtir bandas que os influenciaram, como Beach Boys e Gram Parsons, e todas as garotas sixties cantoras como Sandie Shaw e Nancy Sinatra. E então passei a ouvir outras coisas como Saint Etienne e Belle & Sebastian e todas as bandas da Sarah Records.
Dexy sempre foi uma grande influência. E Kneckie. Acho que eles foram mesmo subestimados. Quando começamos a escrever o disco eu procurava que tivesse o mesmo sentimento do segundo disco de Kneckie. Uma mistura de upbeat e tristeza. Parece que os momentos tristes sempre são mais pungentes quando são jogados no meio de um disco pop como este.

Marc Hogan: Como você teve a idéia para esta sonoridade do TBLLTH?
Jof:
Nós colocamos tudo o que amávamos neste álbum. Se encaixasse com o resto dos sons e idéias da gravação, então mantínhamos. Nós tentamos um disco beat com banjos e violinos e pareceu funcionar.

Muitos instrumentos que usamos são aqueles que você toca quando é criança, como glockenspiels[um tipo de xilofone], gravadores e toda a percussão, porque pareciam casar com as canções sobre crescer e perder a inocência. E eles parecem trazer um sentimento de alegria, tocados pela nostalgia de algo que já se foi. Os instrumentos mais tradicionais como harmônicas e banjos também estavam lá porque nós queríamos ter um lado folk inglês ou algo do country americano. Apenas bagunçamos e tentamos diferentes instrumentos e sonoridades.

Marc Hogan: Como vocês reproduzem esta variedade sonora nos shows?
Jof:
Os shows que estamos fazendo tem sido realmente bons, mas nós tentamos não tocar ao vivo tanto assim. Eu sempre quis me preocupar mais com estas coisas de gravação, vídeos e a arte do álbum. Sempre gostei de bandas que se concentram mais neste aspecto. Eu não preciso ver as bandas ao vivo se eu gosto delas. Eu só quero vestir um botton com seu nome. Eu gosto da música pop como um produto. Então quando tocamos ao vivo tem que ser especial. E como temos sete músicos extras para os shows, não é tão fácil estarmos todos juntos no mesmo lugar, na mesma data.

Marc Hogan: Seu disco está começando a sair da Inglaterra?
Jof:
O disco está vendendo muito bem fora daqui. Mais do que eu jamais esperei. A reação foi de surpresa. Ainda está completamente no underground até o momento, mas pouco a pouco, parece que estamos atravessando esta fase. Infelizmente não há data oficial de lançamento nos Eua, mas esperamos que seja lançado no fim do verão ou começo do outono. Dedos cruzados.

Marc Hogan: Fale-me sobre sua gravadora, To Young To Die. Outros artistas estão sendo lançados?
Jof:
A gravadora é nossa, nós a criamos para lançar o single “Paper Cuts” e ela cresceu a partir disto. Ainda somos os únicos artistas que lançaram algo, até agora. Mas esperamos lançar um single de Sweet Amanda Aplewood até o fim do ano. Ela tocou conosco na gravação do disco.

Marc Hogan: O que é ‘warm Panda Cola’? (nome de uma canção do disco)
Jof:
Warm Panda Cola é uma versão de Coca cola mais barata que você pode comprar por aqui. Vem em uma garrafa de 25cl [meio litro] e tem um panda desenhado nela. Também pode ser encontrada nos sabores framboesa e cereja e não costuma ser uma bebida para adultos.

Marc Hogan: Há muitas alusões ao medo da morte no disco, todos através de simbolismos. O que há por trás deles?
Jof:
Eu acho que minha parte feliz é a mais medrosa sobre estas coisas de envelhecer e morrer. Quando estou feliz e as coisas vão bem, eu não quero que nada mude e acho que é quando eu me torno mais consciente da minha mortalidade.

Acho que as referências à morte vem do medo infantil de mudar em um mundo onde você não fica completamente confortável, como o medo que muitas crianças tem de que seus pais morram ou se afastem deles. Há muito do imaginário infantil ali [no disco], mas eu não sou particularmente nostálgico. Eu sei que eu era provavelmente mais feliz na época, mas não tenho nenhuma idealização da infância. Eu não lembro de ter sido cheio daquela alegria inocente quando criança. Acho que sempre tive consciência do mundo cruel que estava à frente. Acredito que muito da vida de uma criança é preenchida por tristeza e desconforto, assim como a vida adulta.

Marc Hogan: Onde o romance se encaixa em tudo isto? Há algumas canções de amor apesar de sua autocrítica usual, como em Paper Cuts...
Jof:
Bem, sinto que o álbum foi escrito em duas partes iguais. Uma parte foi quando eu estava feliz em um relacionamento e o resto foi depois de nos separarmos. Acho que é um pouco óbvio distinguir quais são as canções de cada fase.

Marc Hogan: "Fur Soft as Fur" fala sobre o quê?
Jof:
As letras são às vezes sobre crescer, sobre o início da vida adulta e sobre as responsabilidades de ser um adulto. Sobre as coisas não tomarem o caminho que você espera e sobre aprender a viver com o desapontamento e o compromisso. Imaginando que os sonhos não se tornam realidade sempre da forma que você gostaria, e que você pode apenas ir levando sua vida sem realmente prestar atenção no que o deixa feliz em primeiro lugar. Suponho que seja apenas um aviso para lembrá-lo de seus sonhos, não mantê-los distante, levando a vida à passo de tartaruga. Originalmente a canção se chamaria The Tortoise Song (a canção da tartaruga) e foi de onde as imagens de "smiling at the leaves" e "chewing butter beans" vieram.

Marc Hogan: A arte do disco foi feita por um amigo seu. De onde vem este estilo, que lembra muito um livro infantil?
Jof:
Tim é um artista que conhecemos, que faz este tipo de pinturas muito rápidas e repetidas até que seus desenhos consigam fazer sorrir. A idéia para a capa foi gradualmente desenvolvida a partir da primeira capa do single, onde havia um garoto com um balão. Depois disto ele desenhou mais personagens do tipo. Meu favorito é o narigudo que aparece no single Be Gentle With Me. Espero que se torne um livro infantil algum dia.

Marc Hogan: Qual foi seu livro infantil preferido?
Jof:
Foi How the Whale Became and Other Stories de Ted Hughes. Acho que atualmente eu até confundo suas histórias com a bíblia. Eu amo a forma como a tartaruga e o macaco se tornaram. E recentemente eu li You're an Animal, Viskovitz de Alessandro Boffa que realmente curti e que parece uma continuação adulta dos livros de Ted Hughes. (...) Nunca tinha ouvido falar de Calvin e Haroldo até escrever a canção "My Tiger My Heart", e as pessoas começarem a me perguntar se eu havia sido influenciado pelas tirinhas. Mas sou um grande fã agora.

Marc Hogan: Por The Best Party Ever não ter sido lançado nos Eua imagino que muitos de seus fãs tenham ouvido sua música por mp3...
Jof:
Eu não me importo que as pessoas troquem nossas canções com seus amigos ou se sintam livres para baixarem nosso álbum. Isto realmente não me aborrece. Eu apenas acho que as bandas deveriam se esforçar mais nos encartes e nos produtos que podem fazer as pessoas se interessarem pelo trabalho físico do disco.

Marc Hogan: Às vezes ouço seu nome relacionado as Pipettes. Qual outra banda inglesa as pessoas devem conferir?
Jof:
[The Pipettes] são nossas amigas e somos grandes fãs delas. Seu som é uma mistura entre Bananarama e Huggy Bear. São três garotas cantoras que usam vestidos de bolinhas e fazem danças sincronizadas como as Shangri- Las. São fantásticas. E também fizemos alguns shows com Monster Bobby, o guitarrista das Pipettes. Ele lembra muito The Magnetic Fields. Também gostei muito do disco do Go! Team.

Marc Hogan: De que mais você gostaria de falar?
Jof:
Bem, falei de Ted Hughes, "Buffy – A caçadora de vampiros", Ursinho Pooh, e das Pipettes. Então, acho que tudo o que era importante foi falado.

Thnks @ Marc Hogan

Site Oficial: http://www.theboyleastlikelyto.co.uk/
Blog http://theboyleastlikelyto.blogspirit.com/
Myspace.com http://www.myspace.com/theboyleastlikelytouk




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