A morte das gravadoras (2ª parte)

Por Marcos Vasconcelos — Terça, 7 de fevereiro de 2006

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Na guerra das gravadoras-pedras contra os consumidores-ondas-do-mar (nessa guerra a gente sabe quem ganha, não importa o tempo que leve); existe um terceiro elemento – o marisco da história: o artista. E de que lado o artista está? Depende. Os primeiros a colocar a cabeça para fora se agarraram furiosamente às pedras e defenderam as gravadoras. Todos lembram do caso Mettalica. E o que fez o público, com sua imensa criatividade? Uma parte passou a execrar a banda. Os amantes do grupo, arrumaram jeitos e maneiras de continuar transmitindo as músicas da banda pela rede.

Uma dessas maneiras era disfarçar o nome da banda – Metrallica, Mettalika e outras formas. Não havia search que desse fim à pratica. Mas o Mettalica tornou-se o grupo-libelo contra a transmissão digital de música. Outros artistas os seguiram, na maioria, grandes e consagrados grupos e cantores.

Só que uma parte dos artistas resolveu se atirar na onda. Alguns por vislumbrar o mundo novo e irreversível que se avizinhava, outros para obterem vingança contra práticas quase escravistas adotadas pelas gravadoras durante toda a sua história. A internet trouxe alforria para muitos artistas. Grupos como o Arctic Monkeys já utilizaram a internet como meio de divulgação de suas músicas e lançaram álbuns com grande sucesso.

Artistas independentes como Juliana Hatfield também já experimentaram a venda direta de suas músicas através de seus sites e ferramentas de compra, como o PayPal, com mais ou menos sucesso. Surfando essa onda, aparecem serviços comercialmente bem sucedidos, como o iTunes, da Apple, que aproveita a paixão pelo mais fascinante gadget do século - até agora: o iPod. No Brasil, por exemplo, já há exemplo de uma gravadora mais antenada com a modernidade – a Trama – que também usa seu espaço na rede para divulgar e distribuir músicas de novas bandas e artistas.

O fato é que, não obstante o lado em que o artista esteja, a gravadora, nos moldes como a conhecemos de longa data, está se tornando uma estrutura desnecessária. Vejamos, o que faz uma gravadora por um artista, novo ou consagrado? A princípio, existe a fase de produção musical – execução, gravação, mixagem, etc... Esta parte, aos poucos, vai deixando de ser prerrogativa dos grandes estúdios de gravação, próprios ou contratados pelas gravadoras. A tecnologia atual permite gravar com grande qualidade até num computador caseiro. O mesmo pode ocorrer com a produção gráfica conexa ao álbum.

A próxima fase, já com o material pronto, ou seja, a gravação-mestra (master), é a produção, ou seja, a replicação em fábricas, de grande quantidade de mídia (CD). Chega-se aqui no primeiro obstáculo, ou gargalo da indústria fonográfica. É neste ponto que a indústria tira seu lucro. Observemos: no camelô do mercado popular, no varejo, um CDR custa em torno de R$ 1,20. Uma capa de acrílico, uns R$ 0,50.

Levando-se em conta a compra dessa mídia e acrílico e impressão de encartes e de espelhos de CD, em escalas de atacado, a mídia deve custar para a gravadora em torno de R$ 1 a 2. E quanto se paga por ela na loja? Na melhor, das hipóteses, R$ 10,00 nas grandes lojas. Os lançamentos, contudo, costumam sair pelo triplo desse preço. É um lucro enorme, do qual pouco chega na mão dos artistas e do qual as gravadoras, apesar dos crescentes prejuízos, ainda não querem abrir mão, o que certamente denota a grandeza da ordem desses valores.

Ainda há duas fases no trabalho da gravadora junto ao artista. Um deles é a distribuição. Com a mídia produzida, a gravadora tem o caminho de distribuí-la pelas lojas, pequenas e grandes. É aqui que reside um dos pontos nevrálgicos da guerra. A internet, na prática, torna essa distribuição cada dia mais obsoleta. E sem distribuição não há venda, e sem venda não há lucro. As lojas de CDs, em si, são estruturas fadadas à extinção, a médio e longo prazo. Quem tiver condição, em breve, se algum mecanismo de proteção conseguir vingar no mercado, poderá vir a comprar CDs em armazéns digitais.

Bastará levar seu iPod ou MP3 player a um desses lugares, passar seu cartão de crédito e fazer o download direto para o aparelho, provavelmente já com toda a parte gráfica e dados incluída. Imagine se um local desses necessitará de espaço, prateleiras e coisas desse gênero? Futuramente poderão ser apenas quiosques, aparelhos semelhantes a caixas eletrônicos de banco. A população de baixa renda, neste tempo, certamente será atendida pelo mercado negro e pelos piratas. Como já acontece hoje.

(continua...)




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