Gran Finale

Por Edvaldo Filho — Quinta, 2 de fevereiro de 2006

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Ou Um dia extraordinariamente ruim.

Atenção: este texto contém spoilers. Se você ainda não leu a conclusão de Vingadores: A Queda, pare aqui mesmo.

Já há muito percebemos que a grande maioria das sagas que foram produzidas mudaram muita coisa apenas durante certo período de tempo. Quase que a gente já não vê mais as transformações radicais pelas quais personagens foram submetidos e o que outrora foi vendido como sendo definitivo já não define mais nada. As histórias dos X-Men (os X-fãs ainda vão me pegar. Nenhuma ameaça até agora) que o digam. Qualquer fã dos mutantes sabe que toda mudança é desfeita uma edição após a outra. Isso também fez com que muitos leitores de HQs abandonassem o gênero dos super. Eu mesmo quase já procedi assim uma vez.

Em contrapartida, se quisermos continuar maníacos, devemos compreender que segurar estes personagens por décadas não é fácil, ou você queria ver o Hulk, nestes mais de quarenta anos de existência, ainda vagando pelo deserto gritando “Hulk esmaga!”? Não dá, né?

Parece que é assim que uma história com pretensões de saga tem de ser lida: lê-se a introdução, o desenvolvimento e a conclusão de cada história (normal) e avalia-se o impacto que ela causou quando chegou às bancas, desconsiderando a cronologia, esta pobre coitada cada vez mais judiada pelos escritores.

Vingadores, A Queda (a melhor maneira que encontraram para rebatizar Avengers Disassemble por aqui) é uma dessas sagas bombásticas que parte de um mote simples: um dia ruim. No caso do maior supergrupo da Marvel, um dia extraordinariamente péssimo, que abalou as estruturas de uma das equipes mais queridas das HQs.

Foi uma desgraça atrás da outra de repente, assim mesmo, do nada, sem aviso, num ritmo tenso e intenso, onde vingadores foram desmoralizados, enlouqueceram, entraram em coma ou morreram, a sede tradicional foi destruída e ninguém sabia o que estava acontecendo de fato.

O escritor Brian Bendis e o desenhista David Finch não produziram nada à altura de V de Vingança, O Cavaleiro das Trevas e tantas outras que compõem a lista das melhores de todos os tempos, mas A Queda não deixa de ser uma excelente história, bem escrita e desenhada, que cumpre o papel proposto: o de entreter, empolgar e provocar ansiedade pela vinda da próxima edição da revista.

Parecia o ultiverso. Lembrou-me, inclusive, da cena em que a versão suprema da Viúva Negra revela à Tony Stark que o Gavião Arqueiro diz adeus à sua família sempre que parte rumo àquela que pode ser a sua última missão.

"Olha só... Não é pra me gabar... Mas nós somos indivíduos extraordinários. Somos, sim! Não temos dias bons ou ruins, a gente tem dias extraordinariamente bons e dias extraordinariamente ruins. Este foi... Foi um dia extraordinariamente ruim. E sabe o que mais? Tava na cara. Não vai ser a coisa mais popular que eu já disse, mas... Tava na cara. A gente vive no curto prazo. Sai correndo atrás do que cai na frente naquele segundo, e depois corre pra coisa seguinte."

Estas palavras do Gavião Arqueiro, transcritas da página 18 da edição 22 de Os Poderosos Vingadores resumem bem as várias tragédias que abateram a maior equipe de super-heróis da Marvel em sua última grande saga publicada no Brasil. Aliás, resumem toda a carreira de todos esses personagens uniformizados que têm encantado gerações de leitores desde a década de trinta.

É Brian Bendis mostrando mais uma vez o por que dele ser “o cara”. De uns tempos pra cá, ele e os seus colegas estão aproveitando elementos do passado, amarrando-os de tal forma que, de repente, tudo faz sentido.

Mais uma vez, o escritor chamou a nossa atenção para o fato de que os nossos personagens preferidos sempre caminham sobre o fio da navalha, e nenhuma corta tão profundamente quanto aquela que nos pertence e que não cuidamos de maneira adequada.

No final da história da edição 23, quando o Dr. Estranho avisou aos Vingadores que o que estava acontecendo era fruto da magia, o que estava prestes a ser revelado foi tão chocante quanto evidente. A revelação de que a Feiticeira Escarlate estava destruindo a própria equipe trouxe à tona o fato de que esta personagem sempre demonstrou ter um comportamento instável, à beira da insanidade. Não foi ela que casou com um andróide, num dos eventos mais esquisitos já mostrados numa HQ e simulou, usando os seus poderes, a gestação e concepção de gêmeos? Uma mulher poderosa, de mente fraca, que de repente resolve descontar todas as suas frustrações nas pessoas que outrora foram a sua família. Nada de Loki, Kang, Mestres do Terror, Caveira Vermelha ou outro inimigo tradicional. A maior tragédia dos Vingadores foi a sua implosão.

Tantas histórias depois, é impossível manter-se impassível diante do que acontece com os personagens que acompanhamos durante tantos anos. Depois de ler a última história da edição 24 de OPV*, publicada originalmente na revista Avengers Finale, onde cada vingador dita qual foi o melhor momento da equipe na sua opinião, me permiti fazer o mesmo.

Viajei um pouco no tempo e tentei lembrar quais foram os melhores momentos dos Vingadores desde que eu comecei a acompanhá-los há não sei quantos anos. O surgimento do Superadaptóide, o confronto com o Homem-Absorvente (é, o nome é esse mesmo) publicado na edição 92 da longínqua Heróis da TV... Aliás, tudo o que aconteceu com o grupo, a partir desta revista, foi inesquecível. Ótima seqüência de histórias escritas por David Michelinie, Mark Gruenwald, Steve Grant e Bill Mantlo e desenhadas por John Byrne e George Pérez, que culmina na edição 17 do extinto formatinho Grandes Heróis Marvel, que consequenciou nos eventos mostrados na última história da edição 100 de Heróis da TV.

Lembram do que aconteceu com os Vingadores, em especial com Carol Danvers, nesta edição comemorativa que foi às bancas em setembro de 1987? Se não, dá uma remexida na sua coleção ou procure-a num sebo perto de você.

Em suma, nada acabou, de fato. Os Vingadores recuam para serem reformulados. Acrescentam Novos no nome, e mudam os membros e a sede da equipe numa seqüência de histórias que ainda serão publicadas por aqui. É possível, até provável, que tudo (ou quase) o que aconteceu em A Queda seja desfeito no futuro, mas dificilmente esta saga será esquecida pelos leitores.

Avante, Vingadores!


*Sigla da revista Os Poderosos Vingadores.



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