Cowboys confinados no armário

Se o amor entre homens é inaceitável na região mais conservadora dos Estados Unidos, qual a probabilidade de um romance entre cowboys (verdadeiros baluartes da virilidade Hollywoodiana) vingar na pátria puritana do Tio Sam?
Acostumado a arriscar sua reputação – como já havia feito em
Hulk (2003) – o tailandês
Ang Lee resolveu pagar pra ver. E se deu bem. Embora soe como uma história de amor nada-convencional,
O Segredo de Brokeback Mountain é um romance daqueles impossíveis como qualquer Romeu & Julieta. Lidando com um amor genuíno, onde a preferência sexual dos personagens é o de menos. Até trocarem os primeiros afagos, Ennis Del Mar (
Heath Ledger) e Jack Twist (
Jake Gyllenhaal) são rapazes pobres do Wyoming, acostumados a trabalhar no campo e cheios de expectativas por um futuro melhor.
Contratados para cuidar de um rebanho de ovelhas em Brokeback Mountain durante o verão de 1963, a relação entre ambos é estritamente profissional. Entretanto, após semanas de convivência, a atração, até então imperceptível, torna-se um sentimento avassalador na primeira investida de Jack. Resistente, Ennis acaba vencido por uma emoção que não consegue compreender e (muito menos) evitar. Sua negação impotente fica explícita na cena em que esmurra uma parede a fim de abafar a dor da despedida.

Passados quatro anos – já casados e com filhos – eles se reencontram, repetindo a dose numa freqüência proporcional ao amor que sentem um pelo outro e que jamais sentirão pelas esposas, dignas de carinho, nada mais que isso. Os encontros ocorrem de forma esporádica, distante dos olhos intolerantes da sociedade. Acima da família e do trabalho, o preconceito é o maior empecilho do casal. Na verdade, não o preconceito propriamente dito, mas o medo de enfrentá-lo. Se os personagens não chegam a ser descriminados, é porque evitam que a situação chegue a este extremo.
Aos sete anos de idade, levado pela mão do pai, Ennis viu o corpo de um homem espancado até a morte por manter relações homossexuais, motivo suficiente para rejeitar a idéia de “sair do armário”. Qualquer olhar suspeito na rua causa neuroses que refletem um perfil reservado e menos passional. Jack, por outro lado, é mais ingênuo e carente, mantendo relações extraconjugais com homens e mulheres.
Com personalidades tão opostas, os conflitos são inevitáveis, constantes e violentos. Esta veemência com a qual expressam a raiva é ainda maior nas cenas de paixão carnal. Heath Ledger e Jake Gyllenhaal se entregam de corpo e alma ao papel, extrapolando os meros “ossos do ofício” (para se ter uma idéia, Jéssica Alba recusou ficar nua em
Sin City, por exemplo).
Todavia, não é apenas nos momentos vigorosos que os atores demonstram seu talento. Todos os detalhes, por menores que sejam – desde o sotaque, até os trejeitos – recebem um tratamento especial. O elenco de apoio está excelente, com destaque para
Michelle Willians. A atriz soube dosar um misto de decepção, tristeza e ódio catalisados pela esposa de Ennis, ciente do real propósito das “pescarias” do marido.
Valendo-se da sensibilidade e técnica dignas de artistas geniais, Ang Lee conduz um roteiro sem grandes reviravoltas, valorizando atuações realistas, ao invés de frases de efeito. Apesar dos esforços em localizar o espectador no tempo auxiliado pelo envelhecimento dos personagens (especialmente as crianças), há uma certa disritmia temporal. Fora isso, o filme é excelente.
Obs: não recomendável para homofóbicos e adeptos do romancezinho água com açúcar.