A tristeza de um amor secreto

Homossexualidade e western nunca se cruzaram. Caubóis sempre foram os homens sérios, talvez taciturnos, às vezes justos, às vezes maus, que bebem uísque em grupos ostentando sempre uma imensa masculinidade, nunca sequer desejando alguém além de mulheres, mesmo quando passam meses juntos, isolados, levando gado de lá para cá, dormindo próximos, tomando banho no mesmo rio.
Com
O Segredo de Brokeback Mountain, essa heterossexalidade onipresente foi deixada de lado para mostar dois caubóis que, sim, são sérios e taciturnos, bebem uísque com masculinidade, matam alces para se alimentar, afugentam coiotes, mas se apaixonam um pelo outro.
Os dois são Ennis Del Mar (
Heath Ledger) e Jack Twist (
Jake Gyllenhaal), trabalhadores rurais desempregados que vão para a montanha cuidar das ovelhas de um fazendeiro (
Randy Quaid). Lá, no meio do nada, numa convivência diária, apaixonam-se, ficam juntos por algumas semanas e separam-se no final do inverno, para tocar suas vidas como antes. Ennis casa-se com Alma (
Michelle Williams) e tem filhos, mal conseguindo sustentar todos eles. Jack tenta evoluir como peão de rodeio, mas é um fracasso e acaba casando-se também.
Apesar de estarem distantes, nunca se esquecem um do outro e reencontram-se depois de quatro anos. A partir de então, alimentam um caso por duas décadas, vendo-se duas ou três vezes por ano, sempre mantendo as aparências heterossexuais em seus respectivos casamentos falidos.

A tensão que existe entre suas vidas oficiais e suas vidas secretas vai tornando-se cada vez maior, suas brigas vão tornando-se cada vez mais freqüentes, suas fraquezas e medos ficam claros.
Os dois atores centrais fazem um trabalho estupendo, com seus sotaques carregados, seus olhares, suas posturas, suas expressões, seu comportamento que muda ao longo do tempo. Principalmente Heath Ledger e seu personagem calado e distante, porém extremamente frágil. Além de todas as cenas com Jake e com Michelle Williams, as últimas cenas com
Kate Mara (Alma Junior, filha de Ennis) são exemplos de um ator que tem plena certeza de que está fazendo o trabalho certo, no tempo certo e na medida certa.
O roteiro de diálogos precisos baseia-se num conto da escritora
Annie Proulx e rodou durante sete anos até alguém se interessar em produzi-lo. Era tido como um roteiro impossível de ser filmado, até que
Ang Lee apostou na possibilidade de levá-lo às telas. O trabalho dos roteiristas
Larry McMurtry e
Diana Ossana trata a história com discrição e coragem, faz os personagens profundos, cria situações de amor e dúvida, de paixão e raiva, usando palavras somente quando necessário - é um filme com muitos silêncios, às vezes acompanhados pela ótima trilha sonora de
Gustavo Santaolalla. Lee pega esse roteiro complexo e torna-o algo leve e sutil, de todos os modos muito bonito. Algo que já havia feito na direção de
Razão e Sensibilidade: transformar uma história densa e cheia de nuances em algo agradável, belo e com profundidade humana.
E cenas de cenas de sexo, afinal, acontecem? Sim, existe uma entre os protagonistas e surpreende. Não há nudez, não há nada explícito, mas é mais interessante do que se fizessem uma orgia com os capatazes. Essa cena torna-se uma referência mais adiante, quando Ennis está na cama com sua mulher e quer relembrar Jack.
Mas na sessão do filme para a imprensa, a cena parece que não teve tanto impacto quanto as que demonstram os dois homens tendo problemas e sentimentos que não se costuma associar a casais gays. Eles não são só sexo, eles discutem a relação, eles têm ciúme, eles se magoam com o que dizem, eles ficam esperando ansiosos seu próximo encontro, eles choram quando brigam, e beijam-se demonstrando afeição. Isso tudo arrancou alguns risinhos nervosos de quem estava na platéia. Em uma das cenas mais tocantes, enquanto Jack dirigia chorando após uma grande decepção, alguém ria.
Brokeback é, em si, um filme triste. Apesar de a tristeza não depositar-se em tragédias, em fatos terríveis que assolam a vida dos dois. A tristeza vem da própria resistência em aceitarem-se e da perspectiva quase nula que têm de viver juntos. A tristeza vem da necessidade que têm de usar máscaras socialemente aceitáveis e, só quando possível, tirar essas máscaras para estar com quem realmente amam e de quem nunca querem se separar. Essa é a tristeza maior.
Mesmo que aconteça algo trágico na metade final, a história de Ennis e Jack só é triste porque o que poderia ter sido vinte anos de problemas e preconceitos, sim, mas também de amor e companheirismo, torna-se apenas uma lembrança não tão boa de vidas infelizes.