A delicadeza e o estupro

Por Tiago Cordeiro — Terça, 31 de janeiro de 2006

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** Não leia esta coluna se você ainda não leu o livro(de Sérgio Sant´Anna) ou viu o filme (de Beto Brant) Um Crime Delicado **

Sérgio Sant´Anna é um produtivo escritor (publica desde 1969) e um dos maiores de sua geração. Apesar de não contar com a mesma fama que outros escritores, como Rubem Fonseca e Simone de Mello, partilhavam quando lançou seu Um Crime Delicado Sant´Anna é um dos melhores escritores que a literatura brasileira já conheceu, como comprova em seu livro levado às telas pelo cineasta Beto Brant.

O crítico de teatro Antônio Martins vai ao banco dos réus, acusado de estupro pela pintora Inês, uma jovem bela e manca. Até o ato sexual que gera a acusação, Martins sente-se envolvido em uma estranha armadilha do misterioso artista plástico Vitório Bracantti.

Embora sua sinopse faça parecer que Um Crime Delicado trata-se de um mero trilher policial, a peregrinação de Antônio Martins vai bem além. O leitor é convidado a caminhar junto com o obcecado crítico de arte rumo ao centro de sua própria tragicomédia, pouco trágica. Nem Martins e nem o leitor terão absoluta certeza do estupro, da manipulação ou de coisa alguma. Mesmo a qualidade de réu de Martins não lhe assegura um lugar certo no jogo de xadrez que o autor propõe.

Afinal, como diz o autor: não serão o verdadeiro amor e a sexualidade mais autêntica, sempre, o encontro de dois inconscientes? e no caso das violações, não estaremos diante da imposição do inconsciente de um sobre o inconsciente de outro? Então o leitor-intérprete traduz as questões como bem quiser, pois a linha que separa o amor do estupro é tão tênue quanto a que separar o crítico e o apaixonado.

As múltiplas interpretações de Um Crime Delicado remetem à outra livro: Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis. Se a obra-prima do maior escritor brasileiro se diferencia do livro de Sant´Anna por ser o anti-trilher, ou seja, um livro em que o maior mistério termina em seu início com a morte do narrador, os dois livros se tocam na presença de duas jovens mancas: Inês e Eugênia.

Porém, o se o objeto de tentação de Brás Cubas permanece puro e intocado, Martins cede aos encantos de Inês, em um momento de catarse e confusão. Afinal de contas, as duas representam um mistério insondável que nem o cínico e, talvez muito menos, o crítico são capazes de abraçar sem sofrer as maiores conseqüências. O abandono de Eugênia, por vergonha das convenções sociais, significa a impossibilidade de Brás Cubas de compreender o ser feliz e de se inserir nele (por que coxa, se bonita? Porque bonita, se coxa?) enquanto que o julgamento alegórico de Martins é o pesadelo de todo crítico: ser julgado com a mesma implacabilidade que aplica a cineastas, atores e artistas, em geral. E o pior: sem ter certeza de sua própria defesa.

O crítico e o estuprador têm medo de sofrerem o mesmo crime que cometem nas mãos de seus algozes. E mesmo que sejam delicados, afinal, os piores crimes são delicados. Na sua própria medida, Sant´Anna também oferece um antitrilher, pois o que importa não é a identidade do criminoso - somos todos criminosos - mas sim seu crime delicado de ler.




COMPRAS
Livro > Um Crime Delicado (Sergio Sant´anna)
Livro > Um Romance de Geração (Sergio Sant´anna)
Livro > Tempo de Delicadeza (Affonso Romano De Sant´anna)
Livro > Aí Vai Meu Coração (Ana Luisa Martins)
Livro > Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza (Octavio Paz)
Livro > Latim Forense (Marco Antonio Martins Pereira)
Livro > Canção para Chamar o Vento (Eliana Martins)
Livro > A Saga das Mãos (Joao Carlos Martins)

 

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