A morte das gravadoras (1ª parte)

Por Marcos Vasconcelos — Terça, 31 de janeiro de 2006

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Desde que me entendo por gente até os dias de hoje, eu já vi muitas coisas desaparecerem da face da Terra, feito animais extintos.

Hábitos e objetos. Por exemplo, as máquinas de escrever: primeiro as manuais, depois as elétricas e eletrônicas; os pagers e bips; os carburadores de automóvel – alguém aí lembra quando dava problema de platinado e condensador de ignição? E eu não estou falando de modismos, já que estes são cíclicos. Na década de 20 – 2020 – provavelmente veremos a volta da calça boca-de-sino. E na década de 50 – 2050 – também.

Também não falo de modelos de objetos freqüentemente modernizados. Sim, o Chevette e o PC-XT morreram, mas existem substitutos nas mesmas faixas de uso. Falo de coisas que realmente ficaram obsoletas. Por exemplo: as câmeras VHS e as máquinas fotográficas de filme estão em vias de extinção completas, devastadas pelas DVs e câmeras digitais, cada vez mais potentes e perfeitas. A indústria de câmeras já percebeu isso. Das linhas da Nikon, a fabricante mais poderosa do setor, 80% já são de equipamentos digitais. Em breve será a totalidade das linhas, afinal, o que manterá de pé uma indústria e um hábito poluidores e pouco práticos? O romantismo? Talvez. O mesmo romantismo que ainda faz com que boa parte da indústria cinematográfica ainda utilize a gravação em película e a industria da gravação de áudio ainda tenha os adoradores – poucos mais resistentes – do analógico.

Contudo, a obsolescência está às portas de uma das mais renhidas trincheiras da indústria do entretenimento: a fonográfica. Por um detalhe que as gravadoras se recusam a enxergar, pelo menos na frente das câmeras: o fonograma - por definição, a aposição da música em meio físico – morreu, extinguiu-se como necessidade. Vejamos: na antiguidade clássica, barroca e romântica, como se reproduzia a música? No papel, ora.

O compositor escrevia a pauta e a entregava para copistas, que a reproduziam para os músicos das orquestras e as bibliotecas. Com o desenvolvimento de aparelhos transdutores – microfones – e o advento da gravação, ficou mais simples difundir a música. Daí, surgiu o fonograma, a gravação da música em meio físico, desde os discos de cera de carnaúba até o vinil. E então, a indústria fonográfica.

Walter Benjamin, o filósofo, que em 1936 criticou as técnicas de reprodução em massa das obras de arte, jamais poderia imaginar onde a tecnologia poderia chegar em termos de facilitar esta reprodutibilidade. A música viu, na década de 70, surgirem os primeiros gravadores de fitas cassete; na década de 80, o fonograma digitalizou-se e a mídia em vinil perdeu o lugar para o compact disc. A década de 90, contudo, criou a gravação digital e a compressão de dados. A morte do fonograma estava decretada em uma sigla: MP3. Não eram mais necessários o CD, o vinil, a fita ou qualquer mídia física para se manter a música. Bastava um computador.

A partir daí, o fenômeno da cópia, que antes era restrito entre os limites das aparelhagens e acervos pessoais, passou a ser simples como dar dois cliques num mouse. Criava-se o primeiro acervo global: o Napster. E a primeira batalha da grande guerra das gravadoras. O Napster perdeu, mas a guerra continuou. AudioGalaxy e Kazaa lutaram bravamente e perderam. Mas veio o eMule, no rastro da popularização da banda larga de transmissão de dados via rede. Com o eMule, também surgiu uma mudança de hábito. Até então, baixavam-se músicas individuais, arquivos isolados em MP3. Agora, baixam-se arquivos compactados, contendo CDs inteiros e até discografias. A guerra agora é encarniçada.

A indústria, sem ter como impedir a transmissão de música pela rede, passou a apelar para a civilidade dos internautas, classificando o ato de criminoso e até mesmo ameaçando levar casos isolados às últimas conseqüências na justiça. A antipatia pelas gravadoras só aumentou. E a transmissão de dados também, em progressões geométricas.

(continua)




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