Recomenda-se ver o filme com um certo ceticismo

Aos que conhecem a obra de
Spielberg, parecia bastante provável que o cineasta, sempre tão partidário, fosse puxar a brasa para a sardinha israelense em
Munique, ainda mais levando em conta seu grande histórico de sentimentalismo cinematográfico. Para nosso alívio, esta perspectiva desagradável não se realizou: Spielberg dá o braço a torcer e admite, em seu novo filme, que o problema entre Israel e a Palestina é complexo e de bem mais difícil solução do que alguns querem fazer acreditar.
Mais do que isso: Spielberg também questiona fortemente a validade da fracassada política de contra-terrorismo adotada por Israel após o massacre de Munique, onde se acreditava que a simples caça de líderes das organizações – e sua eliminação por meios bastante parecidos com os empregados pelos próprios terroristas, diga-se de passagem – era a solução mais adequada para coibir novos ataques, política clonada, com igual fracasso, pelos americanos após os eventos de 11 de setembro de 2001.
Para um melhor aproveitamento do filme, talvez seja conveniente localizar melhor o leitor: após o término da Segunda Guerra Mundial, um dos primeiros desafios adotados pela ONU (criada em 1945) foi alocar definitivamente a imensa nação judaica – o povo que mais injustamente sofreu o peso da guerra - em um território próprio, livre e soberano. Para isso, aceitando a reivindicação dos judeus espalhados pela Europa, criou o Estado de Israel a partir da divisão da Palestina, território antes ocupado por uma população mista árabe, judaica e cristã. O plano de divisão foi votado pela ONU em 1947, e Israel fundada no ano seguinte.

No entanto, não existem soluções mágicas para um problema tão entranhado na história daquela região: as diferenças culturais e religiosas entre os árabes e judeus. E esta solução em particular, uma divisão física artificial e instantânea do território da Palestina entre povos rivais, nunca se mostrou uma das escolhas historicamente mais felizes, ainda mais quando existiam tão enormes barreiras étnicas, culturais e religiosas entre as partes separadas. O resultado foi a amplificação de um ódio histórico, onde os dois povos rivais, agora afastado do mútuo convívio e apartado um do outro, tinham bastante tempo e liberdade para mastigar seu ódio contra o vizinho.
No lado palestino o povo sentia-se roubado, e, devemos aqui admitir, dificilmente pensaríamos diferente na situação deles. Do sentimento de indignação para a certeza de injustiça é um passo. Daí para a guerrilha e o terrorismo, apenas outro. A escalada de agressões e as tensões entre Israel e as diversas nações árabes da área levaram a vários conflitos, entre eles a Guerra dos Seis Dias, em 1967, onde Israel abocanhou partes importantíssimas do território palestino, incluindo a Faixa de Gaza, a península do Sinai, a Cisjordânia e Jerusalém, ficando com um território quatro vezes maior do que tinha em sua fundação.

Tudo este rancor desaguou no atentado do grupo Setembro Negro contra a equipe olímpica de Israel em Munique, em 1972, onde uma desastrada tentativa de resgate feita pela polícia alemã acabou no massacre de 11 atletas israelenses, cinco terroristas palestinos e um policial alemão. O atentado foi um divisor de águas na política mundial, trazendo não somente à atenção do planeta as reivindicações palestinas, como também inaugurando, com a equivocada escolha que os terroristas fizeram para apresentar estas reivindicações ao mundo, uma era de terrorismo, barbárie e insensatez que segue até nossos dias.
Este é o ponto de partida do filme, que mostra eventos da chamada Operação Mitzvah Elohim (ou "Fúria de Deus"), coordenada pelo Mossad, o serviço secreto israelense, para caçar e punir os responsáveis pelo massacre de Munique.
Eric Bana (
Tróia) é Avner, israelense recrutado para liderar uma célula financiada pelo Mossad em uma caçada pela Europa a fim de executar tanto os supostos responsáveis pelo massacre quanto potenciais líderes e apoiadores de futuros atentados. Em sua trajetória de assassinatos, que no início parecem ao grupo eticamente justificáveis, Avner e seus companheiros começam lentamente a perceber que estão apenas cortando as cabeças de uma hidra, e que a eliminação violenta de um líder apenas acaba por trazer sempre um substituto mais cruel.

O fato é que - e este é um magnífico trunfo de um filme
mainstream admitir - violência gera, sempre, mais violência. Em
Munique (que, aliás, parece um nome inadequado, já que o filme não trata especificamente do atentado de Munique em si, mas sim aos eventos que se seguiram), Spielberg não poupa esforços para fazer e espectador compartilhar deste pensamento.
Ao retratar a equivocada e truculenta política israelense de contra-terrorismo, nada mais do que uma tentativa incrivelmente ingênua de combater fogo com fogo, Spielberg deixa clara sua posição, bastante sensata e adequada ao momento político: não é a pura brutalidade de um lado que vencerá a brutalidade de outro.
O filme serve como uma lente para analisar tanto os conflitos atuais no Oriente Médio quanto à política americana de contra-terrorismo após o 11 de setembro – ato que não é senão um eco do massacre de Munique. Não estranhamente, grupos conservadores norte-americanos passaram a atacar violentamente Spielberg, afirmando que seu questionamento da brutalidade como método de combate ao terrorismo seria uma apologia aos terroristas, reclamando que, na obra, os terroristas não são satanizados o suficiente ou simplesmente chamando-o de traidor.

Ora, nada mais incorreto: em momento algum os terroristas são retratados como heróis. Em momento algum, o filme justifica qualquer ato terrorista. Em
Munique, Spielberg deixou o esperado maniqueísmo de lado, e, embora não aponte soluções, admite ter aprendido a óbvia lição que a história recente vem ensinando: ambos os lados, ao evitar o diálogo e eleger a brutalidade, alimentam e retroalimentam, mutuamente, um perigoso círculo de ódio e intolerância.
Munique é longo (164 minutos), trata de um assunto árduo, sofre com pequenos problemas de ritmo e é para o público comum, por estas razões, pesado e bastante difícil de engolir. No entanto, é indiscutivelmente um dos melhores e mais maduros trabalhos de Spielberg.
Um último adendo: recomenda-se ver o filme com um certo ceticismo. Os eventos retratados são baseados nos relatos de Juval Aviv (no filme, o personagem de Eric Bana, "Avner"), fonte do jornalista canadense George Jonas (autor do livro
Vengeance, no qual o filme foi inspirado). Até hoje, os relatos de Aviv não foram confirmados e geram muita controvérsia, principalmente em Israel, onde já foram chamados (inclusive por chefes da inteligência israelense, que negam a participação de Aviv em qualquer ato da Operação Mitzvah Elohim) de "conspiracionistas" e "totalmente ficcionais".