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A injustiçada música trash
Por Douglas Donin — Terça, 9 de dezembro de 2003
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Já falamos muito, nesta coluna, sobre filmes trash. Aliás, quando se fala em "trash", basicamente, pula na nossa cabeça aquela idéia clássica de um filme de ficção-terror barato dos anos 50, com algum monstro emborrachado correndo atrás de uma mocinha gritona enquanto a platéia da matinê faz guerra de pipoca nas cadeiras do cinema. É o ícone, com certeza, mas seria injusto dizer que "cultura trash" resume-se a cinema de baixa qualidade técnica. A coluna de hoje servirá para corrigir esse erro.
De uns tempos para cá, eu e um amigo iniciamos uma disputa um tanto quanto insólita: quem obtivesse a música mais trash seria o vencedor. Nossa guerra está feroz e acirradíssima, e pelo que parece, bastante longe do fim: quando um julga ter achado a pior música de todos os tempos, o outro surpreende com algo bem mais medonho.
Tendo passado, em nossa disputa, por quase todo o passado musical brasileiro, chegamos a uma conclusão: a enorme maioria das músicas que nos provocam risos hoje, alguma época, foi considerada música "normal". É tudo uma questão de ponto de vista.
Todas as manifestações culturais (e a música, principalmente) seguem uma linha evolutiva constante e fixa. Assim, dentro de um período estabelecido, temos técnicas, tendências e recursos que ditam os padrões de normalidade de uma arte – e, quanto mais de acordo com estes padrões, mais chances uma obra tem de resistir à ação do tempo. Qualquer passo para fora destas definições é arriscadíssimo: quebrar a ordem normal das coisas é algo que apenas os gênios fazem com sucesso. Os exemplo são aqueles que acabaram tornando-se pilares da música moderna: Jerry Lee Lewis, Jimi Hendrix, Bob Dylan e tantos outros. Estas pessoas não se sujeitaram à cultura: a cultura se sujeitou a elas.
Mas nem todos são gênios. A grande maioria dos passos dados para fora dos padrões são passos dados em direção à excentricidade, que, ao invés de modificar toda a cultura ao redor com sua força, transforma o responsável em curiosidade, bizarrice ou piada para as gerações futuras. E esta é a própria essência da música trash: a música deslocada, a estranha e a incomum, a que não foi absorvida devidamente. Ou mesmo a música que esteve inserido na cultura mainstream da época, mas que foi regurgitada e expulsa pela ação do tempo. É uma música que atrai pela própria incapacidade de se adequar ao "normal" – ou de forçar o normal a se adequar a ela. E, quanto mais fora dos padrões, mais amada pelos entusiastas do trash será a música.
Este é um pensamento curioso: estamos cercados por obras que não resistirão à ação do tempo. Aliás, muitas não resistem mesmo ao nosso tempo! Identificá-las pode até se tornar um belo passatempo.
Mas chega de teoria: o que frequenta os aparelhos de som dos trashmaníacos de carteirinha? O que o amante da cultura trash tem de arranjar para começar a temperar o seu Winamp?
Músicas datadas: essa categoria agrupa todos os movimentos musicais com curta duração, ou ligados a manifestações culturais extremamente localizadas. Por terem um fim repentino, essas músicas ficam ligadas a uma época específica. Exemplo: Menudo, Dominó, lambada. É impossível ouvir lambada e não se lembrar da segunda metade dos anos 80, quando esse "estilo musical" (que ganhou até um pavoroso filme) dominava as pistas de dança e as aberturas de novela. Onde estávamos com a cabeça?
Extravagâncias: roupas extravagantes, cabelos impossíveis, sotaques estranhos e coreografias descabidas são a essência dessa categoria, que engloba vários artistas e bandas desgarradas as quais se recusam veementemente a parecer gente normal. Exemplo: Locomia. Alguém lembra de um bando de doidos, vestindo roupas pretas e usando leques prateados, que volta-e-meia apareciam no Gugu? Eram eles. Também entram aqui, em menor grau, Kiss, Twisted Sister, Poison, Viper e a toda a imensa facção poser de roqueiros usuários de calças de couro e longos cabelos loiros.
Baixo nível: a música que choca pela apelação e pela capacidade de ofender. Um atentado ao bom gosto e aos bons costumes. Exemplo: axé music e funk carioca. Enquanto a axé music oferece letras de duplo sentido a granel, sustentando-se nas nádegas de suas dançarinas e em suas coreografias escandalosas, o funk carioca vai muito além: joga na cara dos ouvintes baixarias que fariam a Messalina e o Marquês de Sade corar. Claro que gostamos destas músicas por mera curiosidade científica.
Nostalgia: trilhas sonoras de desenhos animados ou seriados antigos e músicas infantis em geral. O apelo não está na qualidade da música, mas na nostalgia que proporciona. Exemplo: as músicas da abertura de desenhos animados clássicos, de seriados como Batman ou Esquadrão Classe A, ou mesmo os grupos infantis como Gengis Khan (Comer comer, comer comer, é o melhor para poder crescer...) e Mara Maravilha. Só temos que desligar o som correndo quando tocam na campainha, para evitar embaraços.
Tosqueira: a música que atrai pela absoluta falta de qualidade técnica. O equivalente musical dos filmes do Ed Wood. Exemplo: de novo, o funk carioca. No futuro, quando arqueólogos examinarem as ruínas da nossa civilização, se perguntarão como um samplezinho simplório e irritante, com uma pessoa sem nenhuma técnica vocal, analfabeta e desdentada berrando à frente, pôde colocar de joelhos a cultura do país inteiro.
Breguice: dor-de-cotovelo, declarações metafóricas e insólitas de amor, tragédias gregas e traições amorosas é o que não falta nas populares músicas bregas nacionais. Alguns sustentam que o brega é a música nacional por excelência. A música brega é suficientemente mainstream, mas é popular demais para fazer parte da orgulhosa "cultura oficial" do país. Exemplos: Sidney Magal, que virou até adjetivo, Alípio Martins, Amado Batista, Waldick Soriano e - é claro - o absoluto rei Wando.
Cópias malfeitas: aqui entram todas as horrendas versões de músicas famosas americanas. Fazer versão de música famosa, aliás, é dar um tiro no próprio pé: existirá sempre uma obra conhecida para lembrar todo mundo como a sua cópia é mais pobre. Algumas são até hilárias, como I Should be so Lucky, da Kylie Minogue, que acabou virando - inexplicavelmente - Acho que Sou Louca nas mãos da Simony.
Você-não-deveria-estar-aqui: curiosidades que fazem você perguntar se está vivendo no mundo certo, entre elas, pessoas que decididamente não deveriam estar cantando, ocupando preciosas horas úteis das fábricas de CD. Exemplo: Sílvio Santos, namoradas do Ronaldinho, Danielle Winnits, Carla Perez e outras provas de que alienígenas deveriam urgentemente conquistar a Terra para botar ordem na casa.
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