Filme complicado sobre questões complicadas

Uma das imagens mais significativas do século vinte é um homem com a cabeça coberta por uma meia, na sacada do apartamento da delegação israelense nas olimpíadas de Munique em 1972. Ele era um dos membros do grupo Setembro Negro que, com a ação de seqüestrar os atletas judeus em solo alemão, pretendia chamar a atenção do mundo para a causa palestina. Pela libertação dos reféns, pediam em troca que Israel libertasse palestinos presos, mas o governo de Golda Meier não aceitava negociação.
A impassibilidade de ambas as partes somou-se à inépcia total da polícia alemã e a tragédia estava montada: todos os onze reféns foram mortos, a maioria na desastrosa ação de resgate no aeroporto. Todos os seqüestradores também morreram, com exceção de três deles, presos e depois libertados pelos alemães em troca de reféns que outro grupo palestino havia feito, semanas mais tarde.
Munique, o filme de
Steven Spielberg, mostra o que aconteceu após as olimpíadas, ou seja, a vingança de Israel: a formação de um grupo de cinco agentes secretos para eliminar, um a um, os responsáveis direta ou indiretamente, pelo planejamento do seqüestro.
Com roteiro de
Eric Roth e
Tony Kushner, baseado no livro
Vengeance, de
George Jonas (que se baseou em deoimentos de um agente cuja existência Israel nega), acompanha desde o recrutamento do jovem agente Avner Kauffman (
Eric Bana), que se torna líder do grupo, até a execução dos seus alvos em vários países da Europa.

O filme tem classificação recomendada para maiores de 18 anos e não é difícil entender por quê, a começar pelos assassinatos: é violência explícita e impactante em cenas claustrofóbicas. Os alvos do grupo são 11 homens, dos quais conseguem assassinar sete e, como um brinde ao espectador, algumas outras mortes são necessárias, cada uma diferente da outra, numa espécie de catálogo para se matar pessoas de modo estranho (uma das recomendações do serviço secreto israelense é que eles usem bombas, ao invés de revólveres, para causar mais repercussão).
Entretanto, o filme não é só mortes. Apesar de as seqüências de ação ocuparem grande parte dos longos 164 minutos, há muita reflexão dos personagens sobre seus próprios atos. Afinal, eles estão matando por quê? Para quem isso servirá? Isso trará paz para Israel ou só aumentará o conflito? Aquelas pessoas merecem mesmo morrer? É digno de um judeu sair matando por aí? É nesses problemas éticos e morais que
Munique se distancia do que poderia ter sido em mãos erradas.
Ele não é um filme moralista com tiroteios e explosões, ele é um filme que questiona as ações drásticas tomadas por dois povos que vivem juntos e que não chegam nunca a um acordo. Aliás, isso fica bem claro: nada do que judeus ou palestinos fizeram desde aquela época, nem uma das mortes, atentados, seqüestros, nada adiantou para melhorar a vida de ninguém, tudo só levou a mais ódio e mais sangue. E a última imagem, na Manhattan de 1973, com o World Trade Center ainda fazendo parte da paisagem de prédios, nos lembra até que ponto a loucura de acabar com o "inimigo" pode chegar.
Interessante é notar a narrativa esperta que Spielberg utiliza, interpondo, por vezes, uma cena à outra, como quando os nomes dos atletas mortos são anunciados na tv, misturando-se, com a edição, aos nomes dos palestinos que serão mortos pelos agentes secretos. Ou, já no final, quando a cena de Avner fazendo sexo desesperado com sua mulher é interceptada por
flashbacks das mortes terríveis no aeroporto (a junção dessas duas cenas é algo bastante chocante e deve ter desagradado muita gente).
Talvez o mais aparente ponto fraco do filme seja o excesso de informação e o pouco tempo que o roteiro dá para que o público possa digerir o que escutou ou viu e chegar a uma conclusão. Às vezes tantos dados são colocados na tela em poucos minutos que fica impossível entender tudo e compreender o que está acontecendo. Quem não sabe nada sobre o seqüestro de 1972 e não tem uma noção básica de Geografia e História, vai se perder já no começo. CIA, KGB, Mossad, OLP, são algumas das organizações envolvidas nos acontecimentos que se atropelam e, junto com palavras em hebraico que não se sabe o que significa, e personagens misteriosos que ninguém sabe de que lado estão, fazem com que o filme se torne de difícil assimilação.
Spielberg disse uma vez que se público sai do cinema com uma imagem na cabeça, aquele filme viverá para sempre. Dependendo disso, não há como
Munique não viver eternamente (uma espiã nua, estendendo-se, baleada, na cadeira da sala para morrer após abraçar seu gato é deveras inesquecível), e não só pelas imagens, mas pela intenção que tem. Apesar de ser um filme de judeus sobre judeus e palestinos (e, por isso, esses últimos não são lá muito bonzinhos), o objetivo é mostrar que a paz é o melhor remédio. Em entrevista à revista
Time, o diretor fala a respeito:
"Para mim, esse filme é um pedido de paz. Em algum lugar, no meio de toda essa intolerância, há que haver um pedido de paz. Porque o maior inimigo não são os palestinos ou os israelenses. O maior inimigo na região é a intransigência”.
Isso não fica exposto claramente no filme. É preciso pensar para captar alguma coisa, e essa é a maior qualidade que
Munique tem. ¤