Não chega a ser um crime, mas um deslize numa carreira brilhante
Beto Brant é um dos cineastas que mais correspondem ao que se espera de um autor, no sentido tradicional que se concebeu do termo para a sétima das artes. Seus filmes anteriores
Os Matadores,
Ação Entre Amigos e
O Invasor consolidaram uma forma de cinema bastante particular, que se debruça sobre o Brasil de hoje em suas mais variadas manifestações regionais e culturais, um Brasil profundo, página B.
Os Matadores é um filme praticamente sem paralelos no cinema brasileiro atual, que reputo um dos melhores filmes da chamada Retomada. Sua forma crua e direta, uma transposição do clima da fronteira do Brasil com a Bolívia, em um mundo povoado por traficantes, matadores, prostitutas, homens cruéis e toscos, traduz nas telas do cinema algo que antes parecia restrito às editorias policiais de jornais do interior do país, quando muito. É um filme que mostrou e provou que
Murilo Benício pode ser um bom ator quando bem dirigido e que
Wolney de Assis é um grande ator esquecido pelo grande cinema.
Ação Entre Amigos foi outro marco. A visão dos anos da ditadura através das idiossincrasias de quatro amigos em viagem de lazer quando se defrontam com o torturador a que todos foram submetidos como prisioneiros políticos e a complexidade com que o tema é tratado, sem preto no branco, sem hipocrisias, costuram uma aula de cinema e um grande deleite para quem gosta de uma boa história. Sem contar a presença de grandes atores desconhecidos do grande público, à exceção de
Leonardo Villar, um mito do cinema brasileiro.
O Invasor é um filme incômodo por algumas de suas opções, pelo fetichismo com que se utiliza dos personagens interpretados por
Sabotage e por
Paulo Miklos, mas que constrói uma sordidez tão dilacerante que toda a sua seqüência final, um tapa na cara do espectador, é de se aplaudir de pé. É seu filme menos rústico, justamente a sua maior qualidade, mas não menos belo.

Por que analisar esses três filmes antes de entrarmos propriamente em
Crime Delicado? Por um simples motivo.
Crime Delicado não consegue ter nada disso. Nem uma sombra.
Marco Ricca, que também esteve presente em
O Invasor, agora ataca de ator e de produtor. A forma com que conduz um perturbado e solitário crítico de teatro, Marco Antonio Martins, que vara as madrugadas a beber solitariamente em sórdidos botequins paulistanos, é um dos pontos fortes do filme. Qualquer espectador sai do cinema e pode seguramente proclamar aos quatro ventos: eu acredito em Marco Ricca. Mas e o resto? O resto é o resto.
Nos outros filmes de Brant sempre esteve presente a figura do talentoso escritor e roteirista
Marçal Aquino, a quem Brant deve boa parte de seu sucesso. Neste
Crime Delicado, ambos se irmanam apenas na tentativa de repetir a fórmula e na inconsistência produzida. A crítica provavelmente vai elogiar – como já tem feito – a beleza da estreante
Lilian Taublib, que vive a jovem e intrigante Inês, uma espécie de musa e pupila de um renomado artista plástico mexicano, José Torres Campana, interpretado por
Felipe Ehrenberg, ele mesmo um misto de artista plástico, performático, escritor e ator. Mas além de sua beleza e da ausência de sua perna direita, Lilian é pouco aproveitada pelo filme.
Poder-se-ia dizer que
Crime Delicado aborda o ciúme de um homem seguro, que vive a espinafrar peças de teatro alheias, provocado pela misteriosa Inês, que o desafia tal como enigmática esfinge e o envolve num turbilhão de sentimentos desconexos, a ponto de leva-lo a se defender de uma acusação de estupro. No meio disso tudo temos cenas das peças espinafradas, metaforizando sensações e sentimentos e, ao cabo, um depoimento final de Ehrenberg, conceituando a sua arte, o seu estado artístico, num verdadeiro manifesto para a câmera.
Um deslize na carreira de Brant,
Crime Delicado se apaga como borra de café, mais ainda, como cheiro de chope quente esquecido no fundo da tulipa. Fetichista ao extremo, não acolhe o possível talento de Taublib, a quem parece venerar em sua singularidade estética, e se assemelha a todas as instalações e performances das quais os museus de arte contemporânea estão fartos e que pouco dizem ao público, senão ao próprio artista. ¤