Nós Vimos III: Munique

Por Alexandre Sivolella Barreiro — Quinta, 26 de janeiro de 2006

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Mazeltov, Spielberg! ou A Vendetta de Israel ou O Precipício

Steven Spielberg é um mito vivo do cinema mundial. Seu toque de Midas o permitiu por vários anos ostentar algumas das maiores bilheterias do cinema, com Tubarão, E. T. – O Extraterrestre, seus Indiana Jones, Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros e por aí vai, dentre os seus quase 50 filmes dirigidos. Além disso, embora nunca tenha ousado muito em termos formais, destacou-se pela variedade temática, desenvolvendo obras de suspense, terror, aventura, ficção científica, e ainda filmes históricos, documentais e dramas existenciais. Prateleira de vídeo-locadora é o que não falta para as suas produções.

Maldades à parte, ser um mito vivo não é exatamente uma experiência agradável. O lado ruim é o nível de exigências que ganha força a cada anúncio de uma nova produção com a sua assinatura. E nos últimos anos a resposta ao público tem sido aquém do esperado. Prenda-me se for Capaz, O Terminal e Guerra dos Mundos, seus três últimos antes deste Munique, foram filmes elaborados, caros e que contaram com custosos esquemas de distribuição. Mas em retorno não tiveram grandes bilheterias, fator de qualidade para alguns, nem impacto estético, fator de qualidade para outros.

Munique não faz feio. Ao abordar o ataque perpetrado pelo grupo terrorista Setembro Negro durante os Jogos Olímpicos realizados naquela cidade alemã, Spielberg consegue tornar a questão ainda mais complexa do que parece supor o senso comum. Esse resultado é provocado justamente pela opção em privilegiar o pós-ataque, ou seja, a reação israelense à ação do grupo terrorista. O que faz o governo israelense extra-oficialmente? Decide se comportar como organização terrorista. O nome do jogo é vingança. Munique é quase um filme no melhor estilo mafioso.

Infelizmente, em alguns momentos, Spielberg joga para as massas e cede à tentação. Mostrar, por exemplo, as supostas cenas ocorridas durante o ataque terrorista em si, tal como teria ocorrido no interior dos alojamentos dos atletas até o trágico desfecho final no aeroporto da cidade olímpica não nos ajuda a compreender melhor o filme. Fazer com que essas imagens perturbem os sonhos do agente Avner Kaufman (Eric Bana) é um artifício barato e desnecessário. Serve apenas à curiosidade mórbida da platéia. Teria sido muito mais instigante permitir essa e outras lacunas no filme. Mas o cinema norte-americano parece ter certa ojeriza a lacunas, silêncios e perguntas sem resposta.

Munique conta com uma excelente trilha sonora, levada com sensibilidade por John Williams, o mesmo compositor das grandes orquestrações de Guerra nas Estrelas, Indiana Jones, Super-Homem e tantos outros marcos da música no cinema. A trilha não é enfadonha, ao contrário, pontua o filme em seus momentos de inspiração e, o que é mais importante, não é mero acessório e não cede às imagens, mantendo seu espaço próprio. Em relação ao trabalho da equipe técnica, louve-se ainda o diretor de fotografia, Janusz Kaminski e a figurinista, Joanna Johnston, que permitem-nos uma visão irretocável dos anos 70.

Por falar em Williams, em sua estrutura narrativa Munique lembra outro filme que também contou com um gênio da trilha sonora – Enio MorriconeOs Intocáveis, de Brian de Palma. Senão vejamos. Avner, Steve (Daniel Craig), Carl (Claran Hinds), Robert (Mathieu Kassovitz) e Hans (Hanns Zischler) formam um grupo especialmente designado pelo governo, agindo sob criterioso mistério, para resolver um determinado problema. Nesse meio-tempo têm somente um ao outro como suporte emocional e ao fim da batalha nem todos poderão voltar sãos e salvos para as suas respectivas casas. O sacrifício de alguns membros desse grupo de elite é sempre necessário para demonstrar a dificuldade e o perigo, além de reforçar a nobreza da missão.

Nobreza? Nem tanto. Aqui não se trata de nobreza. E nesse ponto, os filmes se distanciam ao máximo. A missão conferida a Avner e seus companheiros é o ponto nevrálgico principal do filme. Já se disse que ao contemplarmos o precipício, ele também nos contempla. Até que ponto pode um Estado deliberar de tal forma uma resposta à altura de um ataque terrorista? A partir de que momento ele também não se torna, como seus oponentes, terrorista?

Nesse sentido, o melhor momento do roteiro de Tony Kushner e Eric Roth é o do encontro nada fortuito entre o grupo de Avner e uma célula da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) em um esconderijo de uma das mil cidades por que passa o filme. No caso, Atenas. Após discussões e enfrentamentos, o líder da célula palestina e Avner, camuflado como terrorista basco ou comunista, discutem as razões das ações dos palestinos. “Seja sincero”, provoca Avner, “vai me dizer que você ainda sente saudades das oliveiras da sua avó?”. O palestino lhe responde: “você não entende, pátria é tudo. Pode demorar cem anos – não importa – um dia teremos a nossa pátria”.

Munique certamente desagradou a muitos dos militantes sionistas, para quem a existência do Estado de Israel justifica tudo, inclusive assassinatos promovidos em nome da vingança. É um tipo de argumento que serve a todo tipo de militância, ideologia, crença religiosa e que ainda rege muitas das ações humanas. E provavelmente continuará a reger.

É salutar que a discussão sobre o terrorismo, seja qual for a sua origem, possa se desdobrar e fugir das balizas tradicionais a que estamos acostumados. A permanecer o estado de coisas, a tendência é a de continuação das causas e das conseqüências. É o que aponta o fim do filme, singelo e perturbador. O plano final é daqueles que fazem o espectador permanecer em sua poltrona e divagar um pouco, ao menos um pouco, sobre o que acabou de assistir, antes de ir tomar uma cerveja ou jantar. Aproveite o momento.




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