Na última coluna, em meio à minha interminável divagação pelo tema da edição em reality shows, toquei no tema "comportamentos estranhos" dentro dessas séries protagonizadas por seres irreais em situações pretensamente reais (em especial, Blow Out).
Hoje, retorno com ênfase a essa parte do comportamento, e a palavra em questão será a sempre ouvida e nem sempre compreendida "attitude", que pode adquirir múltiplos sentidos dependendo da situação. Acima, como exemplo, podemos ver o saudoso Johnny Cash, externando certa dose de "attitude" autêntica, causada pelos anos e pelas entranhas.
É evidente que o significado literal do inglês "attitude" é algo próximo de "comportamento", em português. Quando é usada com uma intenção positiva, a palavra indica "personalidade", "autenticidade" ou "firmeza de posicionamento".
Sendo assim, "Fulano tem muita personalidade, sabe o que quer, não é um frouxo" vira "One's got a lot of attitude". Só que o sentido pejorativo no uso dessa palavra (vindo de "bad attitude") é tão forte que isso já influi bastante na forma e constância de uso. Isso significa que, em quase todas as vezes que a gente ouve "attitude" nas séries - e é uma constante - a tradução ficaria entre "convencimento", "arrogância", "prepotência", "egolatria" e a consequência dessa tralha toda, o popular "piti".
Modelos, em especial, estão envolvidas com a palavra até a raiz danificada de seus cabelos esquisitos. Sempre das duas uma: ou é exigida nas sessões de fotos ou reclama-se do comportamento de divas frescas - e isso tudo é sempre "attitude".
"E cadê as séries, meu filho??" Pois é, é aqui que eu falo delas.
Por curiosidade pessoal e profissional, um dia assisti àquela pérola chamada America's Next Top Model, criada e apresentada pela Srta. Tyra "16:9" Banks. Estava numa fase de classificação bem inicial e eu, digamos, fui com a cara de uma certa candidata espetacular que apareceu por lá, chamada Brita. Pra minha surpresa, no programa seguinte, depois da limpa geral, Brita foi a primeira das finalistas a ser eliminada.
Tendo em vista que outras candidatas eram monstruosas e que eu fiquei indignado com aquele disparate, vim procurar no Google algo sobre a eliminação da moça (foto ao lado). Entre outros fãs reclamantes, achei uma entrevista da própria candidata, dizendo que ela sabia de antemão que ia ser eliminada, não necessariamente por alguma fraude ostensiva, mas por sua experiência como modelo, pelo andamento do "jogo" e pela natureza dos envolvidos e daquele meio.
Vi o episódio seguinte pra tentar enxergar o que ela dizia ou até, quem sabe, pra tirar a má impressão. Pois foram três, ao todo; não foi possível 
assistir a mais do que três capítulos daquilo. Entre jurados absolutamente repulsivos, um cidadão dono do penteado mais ridículo do Ocidente (bate Donald Trump e ainda lembra um coadjuvante do Banana Splits Show), um festival de arrogância sem qualquer sustentação e n situações vergonhosas inventadas pelo programa ou pelas participantes, America's Next Top Model só veio reforçar, com tudo, aqueles conceitos comuns sobre as modelos. Isso, claro, para aqueles que, como eu, ainda mantinham alguma dúvida saudável sobre o assunto e não se deixam levar fácil por preconceitos. Jornalista é assim... Tem de duvidar mesmo que (e ainda mais quando!) pelo benefício dos outros...
Tapadas ao extremo e mesmo assim cheias de vontades e opiniões (lotes, montes, pilhas de "attitude" em sentido condenável), as moças não deixaram margem a especulação. As que estavam ali, pelo menos, mostraram índices tão altos de repulsa e prepotência que, sinceramente, nenhuma mereceria ser "top qualquer coisa" que fosse. Nem os jurados. Diabos, se é pra soltar o verbo, pela futilidade e falta de tato que esse povo demonstra, eles todos nem mereceriam ter qualquer emprego neste mundo! Fazer fofoquinhas umas das outras, apelar por coisas inventadas, se achar a "boa-acima-de-todas", dar chilique quando tudo está ao alcance, tudo isso não apenas dificulta o profissionalismo de quem está em volta (maquiadores, fotógrafos, figurinistas) como também é a essência da atitude anti-profissional por si só.
É uma competição? Beleza. Quando foi que competição virou sinônimo de "eu preciso arrancar sua cabeça"? Não é possível que vença a mais profissional, a mais versátil, a mais bonita, a mais fotogênica, a mais acessível? Tantos quesitos, tanta coisa a ser trabalhada e as débeis mais preocupadas em puxar tapetes... Como Patrick Dempsey bem ouviu num dos primeiros episódios de Grey's Anatomy, "você não é o inimigo, é apenas um competidor".
Assim como em Blow Out, as emoções são engessadas - a não ser quando elas são eliminadas e choram. No resto do tempo, o mesmo "clima" artificial, as mesmas expressões sem brilho, a mesma falsa camaradagem e a mesma perversidade subjacente. E aí quem tem algum tutano de verdade fica de saco cheio (com razão ou não), dá um espalho pra cortar a "bullshitagem" (foto abaixo) ou vai desabafar no pós-parto, como a dita Brita descrita.

Como eu disse antes, exemplos de "estranheza" nesses moldes também vão ser encontrados num
Extreme Makeover ou
Queer Eye (mais uma vez, vide
última coluna), ainda que as propostas sejam diferentes. Entretanto, a dosagem e a natureza da coisa são bastante diferentes... Dizem que o comportamento incômodo é um traço comum dos americanos. Bom, os ingleses malucos nos
reality shows do People&Arts também agem assim a torto e a direito. Curiosamente, seja na Blairlândia ou em Bushópolis, os apresentadores costumam ser mais desenvoltos e emocionais que os próprios candidatos transformados. Claro que estão ali pra isso e, não raro, têm preparação como atores. Mas será assim tão difícil expressar emoções verdadeiras?
Na falta delas, o "participante médio" busca ser
cool, e assim, falso, em busca de uma "
attitude" que não é realmente a sua, e sim aquela construidinha pra ser mostrada e esfregada na cara. O resultado é que tentar desesperadamente ser
cool fica muito,
muito uncool...

Não, minha gente, "
attitude is not everything". Tentam espalhar essa bobagem há tempos... Como diria Içami Tiba, "
o importante não é ter razão, o importante é ser feliz" - e, muitas vezes, foda-se quem tem a razão (o delicado adendo é nosso). Uh! Olha só o que eu fui citar! Tentativa emergencial de reabilitação: "
mate-me, por favor" antes que eu faça de novo (citando agora Legs McNeil).
Mas é sério que não vale a pena o esforço e, quando ele existe, em 90% das situações vai ficar falso. Seja mais autêntico, mais você, e essa tal de "
attitude" vai transparecer sem esforço - e vai ser notada. Não adianta falar "não ligue pro que os outros pensam". A verdade é que todo mundo liga, sim, e isso faz diferença pelo fato de vivermos em sociedade, termos família, amigos, etc. O que eu digo é: "não ligue
tanto, porque a vida, apesar de tudo, é sua".
Aí, fica até difícil acreditar que um canal de TV tenha baseado toda a sua reformulação de imagem em torno de algo tão dúbio e vazio quanto esse conceito. Nariz em pé não é o tipo da coisa bem vista por ninguém neste planeta, e personalidade certamente não tem a ver com o canal a que você assiste. Aliás, o
Sony nada mais é que um mero canal de TV cuja programação é totalmente importada. Onde estaria qualquer mané porra de atitude em meio a isso?? Cadê a personalidade própria, se ainda formos legais e considerarmos só o "bom sentido" da expressão? O que se vê de conteúdo próprio, na verdade, são as lamentáveis inserções nacionais escritas e filmadas nas coxas, sem planejamento, texto, direção, pronúncia ou critério.
Jornalismo? Passou muito longe dali. Bom senso? Parafraseando o Oasis, "não deposite sua vida nas mãos de um canal de TV, pois ele certamente vai pôr tudo a perder". Sidney Santiago, pobrezinho, é risível como apresentador... Os outros dois
poseurs só se salvam.

Apesar disso,
escolhi antes o canal Warner para dar nome às "cabo-urradas" porque o Sony, ainda que tenha sua fatia, apresenta muito mais acertos que erros, sem dúvida. Infelizmente, o canal andou dando uma piorada nesse quesito, ao reforçar sua campanha-mancada com
spots nada mais que ridículos. Neles, alguns aparecidinhos cheios de
falsa malandragem (
attitude sem lastro) pagam micos incríveis, desnecessários e sem graça, com a única intenção de encher o saco de quem está do lado de cá esperando sua série preferida começar. Sony,
me ajuda aí!
Pois é... Seja querendo extravasar o que não existe ou seja por nariz empinado comprado no shopping, a nota vai ser sempre
zero. Lembrem-se das sábias palavras de Morpheus: "
Stop trying to hit me and hit me!" ¤