Nós Vimos: Crime delicado

Por Carlos Dunham — Terça, 24 de janeiro de 2006

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Constrangedor (também) de tão ruim

Beto Brant é, sem dúvida, um dos maiores talentos da nova geração de diretores brasileiros - seus três primeiros filmes comprovam isso. E é claro que o seu talento não será colocado em questionamento devido à péssima qualidade de uma única realização. Mas que seu mais recente filme, Crime delicado chega a ser constrangedor de tão ruim, isso é algo que não podemos deixar de constatar.
Simplesmente salta a nossos olhos. Os filmes anteriores de Brant sempre se caracterizaram por, entre outras virtudes, um roteiro inteligente, uma montagem dinâmica e uma direção jovial e criativa. Característicam que faltam por completo em Crime delicado: tais áreas são tão repletas de erros e equívocos que soam como inacreditáveis em um filme do diretor.

Crime delicado conta a estória de Antonio (o excelente Marco Ricca, aqui apenas correto), um crítico teatral erudito e pedante, que
aparentemente adora demolir verbalmente as peças alheias. Apesar de toda a sua erudição, Antonio frequenta botequins de última categoria, com um pé no submundo, e em um desses botequins conhece Inês - vivida pela estreante Lilian Taublib, uma atriz bastante talentosa, e que não possui a perna direita, amputada. A personagem da atriz obviamente mantém tal condição, o que Antonio a princípio não percebe, pois
a vê sentada em uma mesa de bar. Inicialmente atraído pela moça, Antonio se aproxima dela, mas perde o interesse quando constata que Inês é uma deficiente física. Beto Brant teve, aqui, uma oportunidade ímpar para fazer uma crítica ao preconceito, mas não só a desperdiçou abominavelmente como o acabou fortalecendo, pois, tão logo percebe a deficiente física de Inês, Antonio a descarta covardemente, como se a moça não tivesse sentimentos. É melhor não ter uma perna que não ter coração.

O roteiro dedica-se por praticamente toda a metragem a cenas absolutamente desnecessárias de sexo e perversão, e acaba por explicar mal qual seria o real interesse de Antonio por Inês. Ademais, ainda comete um erro duplo ao sobrecarregar a ação de Crime delicado com cenas das peças que Antonio critica - primeiro, porque, sendo um filme de menos de 80 minutos, tal prática sugere que não haveria mais assunto para o filme, o que não é verdade, apenas tais assuntos não foram desenvolvidos; depois, porque as cenas das peças apresentadas no filme são tão ruins que acabam por fortalecer a postura destrutiva de Antônio ao falar mal das mesmas e, assim, esfriar o perfil sarcástico do personagem.

Muitos são os equívocos de Crime delicado mas, tecnicamente, nenhum supera o observado na cena do estupro: Antonio vai à casa de Inês durante a madrugada, conversa alguns minutos com ela e culmina por abusar sexualmente da moça. Ele a pega pelo pescoço e a joga na cama, estuprando-a em seguida. Mas como, se em momento algum ele soltou ambas as mãos do pescoço da moça? Como, então, o personagem abriu o zíper da calça para praticar o ato vil contra Inês? Pode-se argumentar que Antonio estaria com o zíper aberto o tempo todo e só o percebera durante a execução do ato criminoso. Então, isso ao menos deveria ter sido esclarecido para o público, para, se o argumento vir a existir, não soar como uma desculpa esfarrapada. Afinal, farrapo por farrapo, Crime delicado já o é desde o seu título: qual é, afinal, o crime delicado?

Estupro? É, realmente um estupro deve ser algo delicadíssimo!




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31/01 > A delicadeza e o estupro
27/01 > Crime Delicado
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