Spielberg estaria perdendo a habilidade?

Um dos grandes méritos dos filmes de
Steven Spielberg - e um de seus dons mais admiráveis enquanto cineasta - sempre foi a sua admirável mão para filmar, uma habilidade tão especial a ponto de conseguir transformar algo aparentemente simples, irrisório até, em um momento de pura poesia - foi assim com uma mera porta se abrindo, em
Contatos imediatos do terceiro grau, ou com o toque da mão de um extraterrestre no ombro de uma criança, em sua obra-prima
E. T., o extraterrestre.
É curioso - e principalmente, triste - observar como, infelizmente, Spielberg vem filme a filme perdendo esse dom - o que já era flagrante em
O terminal e
Guerra dos mundos e novamente se observa em seu mais recente filme,
Munique. Como seu filme anterior - o supramencionado
Guerra dos mundos, que nos trazia, inacreditavelmente para um filme do diretor, extraterrestres perversos e dispostos a matar -
Munique também trai tudo aquilo que o público sempre se acostumou a esperar de
Steven Spielberg por conter uma narrativa repleta de violência, com excessivas cenas de matança, nudez, destruição e perversidade. E pior: realizadas de uma forma tão vazia e superficial que parece que o filme foi feito por um diretor qualquer. Não por um (ex?) gênio do cinema.

Está certo que a temática do filme não poderia, realmente, permitir muitas veleidades românticas ou a recriação de um mundo edulcorado de flores:
Munique aborda a reação dos líderes políticos e grupos armados ao assassinato covarde dos atletas israelenses nos Jogos Olímpicos de 1972, ocorrido na cidade que dá nome ao filme. Mas justamente por tal tema ter ido parar nas mãos de
Steven Spielberg, seria justo que esperássemos por um filme no qual a solidariedade calasse o ódio, e onde a poesia fosse maior que a guerra. Não é, infelizmente, o caso.
O diretor opta por um relato quase jornalístico, o que poderia ter sido uma boa opção, se o filme com isso não se

tornasse frio e desinteressante - como ficou, a opção do diretor converteu-se em um erro de construção dramática. Ademais, o roteiro de
Tony Kushner e
Eric Roth, embora competente, sobrecarrega os momentos de ação e de luta armada, que Spielberg converte em cenas extremamente violentas e até certo ponto desnecessárias -
até certo ponto porque é evidente que é preciso mostrar
o que e
como aconteceu. Mas desnecessárias por serem excessivas e construídas, cinematograficamente falando, de uma forma banal.
Como ficou,
Munique acabou se tornando um filme longo demais e que nem de longe honra o que, a princípio, deve ter sido o seu objetivo: resgatar para o mundo um episódio que entrou para a História - do esporte e da humanidade - como um dos atos mais covardes jamais cometidos pelo homem.