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O doce veneno de Bruna Surfistinha
Por Tiago Cordeiro — Segunda, 23 de janeiro de 2006
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Bruna Surfistinha é pop. Afinal de contas, de Luciana Gimenez a Jô Soares, a ex-garota de programa só não participou de programas como Caldeirão do Huck e outros transmitidos em horários onde a censura é baixa. Se fosse há dois anos, Bruna Surfistinha (ou Rachel Pacheco, seu verdadeiro nome) participaria de algum capítulo da novela Celebridades de Gilberto Braga. A mais nova escritora de sucesso não se tornou sinônimo de audiência sem motivo. O Doce Veneno do Escorpião, seu primeiro livro (a escritora promete um segundo livro que não aborde pornografia) não é um simples fascículo pornográfico e muito menos uma chata autobiografia.
O jornalista Jorge Tarquini, através de relatos da personalidade, documentou como foi a vida de Rachel, muito antes de um certo blog ( www.brunasurfistinha.com/blogs) tornar a prostituta Bruna Surfistinha mais distinta do que as demais mulheres da vida paulistas. Apesar disso, Tarquini não é responsável pela maior parte do livro, e é preciso falar: Bruna/Rachel escreve muito bem. Se o conteúdo de suas páginas já seria suficiente para manter qualquer homem (ou mulher) atento a suas páginas, sua forma objetiva, clara e absolutamente direta faz da leitura algo fácil. O Doce Veneno do Escorpião é livro para terminar em horas, não que seja simplista, mas porque dormir antes de termina-lo é como recusar aquele fetiche que você não conta para ninguém.
Diferente do que a maioria pode imaginar antes de ler, O Doce Veneno do Escorpião não é livro para chocar pela crueza das vidas de prostitutas. O que impressiona é a sinceridade e sobriedade da autora que não é personagem. Bruna Surfistinha é tudo o que Madonna alegou ser em sua fase Erótica e não foi e ainda muito mais. Surfistinha/Pacheco assume seus erros, não põe a culpa na sociedade e nem se mostra uma pessoa amarga pela vida. Famosa por uma carreira pouco respeitada pela sociedade, a ex-garota de programa não parece disposta a assumir o papel de “vítima-que-está-arrependida”. Hoje vejo que tudo que vivi era uma fase pela qual eu tinha que passar. Sem arrependimentos. Três anos que eram para ter acontecido assim: putaria, drogas...Se não fosse desse jeito, longe dos meus pais, talvez eu ainda estivesse tomando antidepressivos. E eles, nem sei... Por que foi bom? Por vários motivos (eu sempre vejo o lado bom das coisas).*
E o lado bom de O Doce Veneno do Escorpião mergulha exatamente aí. Não são as explicações de termos como “chuva negra” ou as impressionantes páginas pretas do livro, mas sim a franqueza de uma mulher pouco diferente da sua amiga, prima, irmã ou mãe. Surfistinha, não é uma vítima das conseqüências e nem uma despudorada. Simplesmente alguém que sobreviveu seguindo caminhos duros (com ou sem trocadilho) e pouco bem vistos. No fim das contas, o leitor pode julgar, mas a autora não cai nessa armadilha. Aliás, não cai em armadilha alguma.
Essa semana, a coluna Gente Boa do jornal O Globo informou que os direitos de O Doce Veneno do Escorpião foram comprados pelo diretor Marcus Baldini, resta saber quão fiel será esta adaptação. Por enquanto, o livro e seu relato já são mais do que atraentes. ¤
*Páginas 131-132
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