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Globo de Ouro: um boteco de gabarito
Por Pedro Alencastro — Quarta, 18 de janeiro de 2006
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É inevitável comparar o Globo de Ouro com a premiação da Academia. No canal Sony, por exemplo, inventaram o rótulo de "terror do Oscar" - aliás, what the fuck passou pela cabeça dos caras que criaram aquela propaganda?? Eu, como espectador assíduo de tais celebrações, sempre considerei o Oscar um evento do mesmo calibre que as bodas de prata de um parente distante.
Nessas ocasiões, todos fingem se divertir, disfarçam interesse na conversa dos outros e tudo não passa de uma encenação – assim como na entrega dos carecas dourados. Quando a Whoopi Goldberg conta uma piada sem graça, o pessoal ri pra não ficar chato, aplaudem os premiados fazendo pose de bom perdedor, e por aí vai...
Já no Globo de Ouro é diferente. Também rola aquela frescura de tapete vermelho, as piadas continuam sem graça e os perdedores sorrindo amarelo, mas a turma agrupa-se em volta de mesas, onde o trago rola a solta. Ninguém está preocupado em calcular o preço das jóias da Nicole Kidman e avacalhar o figurino da Diane Keaton. Dane-se a etiqueta. O negócio é confraternizar. O Globo de Ouro é como um happy hour antes da festa com traje a rigor; só que num boteco de gabarito, com bebida liberada e clientela VIP.
Anteontem não foi diferente. Logo na abertura, ao embalo de uma música engraçadinha, Queen Latifah deu o tom da premiação: "It's party time!". De fato, era noite de festa, e os favoritos reinaram absolutos. Como esperado, O Segredo de Brokeback Mountain foi o grande papa-prêmios da noite: melhor filme, diretor (Ang Lee), roteiro e canção.
Na categoria comédia, os prêmios de melhor filme, ator e atriz para Johnny & June ressaltaram o importante papel de Johnny Cash na cultura norte-americana – ídolo folk e uma espécie de Roberto Carlos ianque.
Num ano sem zebras, até o lendário compositor John Willians, famoso por ganhar prêmios como quem troca de cueca, levou troféu pela trilha sonora de Memórias de uma Gueixa.
Entre os seriados, novamente, nenhuma surpresa. Confesso que nunca vi Lost, mas o prêmio de melhor série de drama só ratificou o estardalhaço em cima da produção. Quanto a Desperate Housewives – outro fenômeno de popularidade, premiada melhor série de comédia – assisti um que outro episódio, deixando-me a impressão de ser uma versão “dona de casa” para Sex and The City (que saudade da boa fase dos Simpsons...).
A propósito, Chris Rock mandou muito mal ao apresentar o prêmio de melhor atriz de série em drama. O comediante classificou Desperate Housewives (com quatro indicadas na categoria) como um fenômeno de sucesso global e disse que Weeds só é assistido por maconheiros do naipe de Snoop Dogg. No final das contas, teve que entregar o troféu para uma constrangida Mary-Louise Parker, protagonista de Weeds.
Premiado melhor ator de série em comédia por The Office, Steve Carell confirmou a boa fase, subindo ao palco sob sonoros aplausos. Curiosamente, os atores premiados por séries dramáticas fizeram os agradecimentos mais cômicos. Geena Davis, a primeira presidente mulher dos EUA em Commander In Chief, marcou sua volta triunfal, e Hugh Laurie (House) foi um show à parte. Listou setecentos e tantos nomes para os quais deveria agradecer, colocou todos no bolso e sorteou três, arrancando gargalhadas da platéia.
No cinema, os grandes destaques da noite foram Philip Seymour-Hoffman, vencedor na categoria melhor ator de drama por sua atuação como Truman Capote (que já prometia ser espetacular); e a nova queridinha da América, Reese Witherspoon, saiu melhor atriz de comédia por Johnny & June. Seu colega de cena Joaquin Phoenix, no primeiro (e merecido) papel de destaque da carreira, ganhou como melhor ator de comédia na pele de Johnny Cash.
Para completar, talvez a única surpresa tenha sido a premiação de Felicity Huffman, que incorpora um homem transexual em Transamérica e deverá ser a rival de Reese Witherspoon ao Oscar.
Entre os coadjuvantes premiados, Rachel Weisz (O Jardineiro Fiel) provou que Fernando Meirelles acertou em cheio quando rejeitou Nicole Kidman. O cineasta brasileiro voltou de mãos abanando, mas era só simpatia. Já George Clooney, com prestígio em alta, venceu na categoria melhor ator coadjuvante por Syriana, tendo outras duas indicações (roteiro e direção por Boa Noite, e Boa Sorte).
Como de praxe, não faltou o prêmio consolação, concedido a Anthony Hopkins; comemorações à la Cuba Gooding Jr.; com Sandra Oh, de Grey's Anatomy, perdendo-se no meio do caminho para o palco; além do clássico discurso rancoroso/interminável protagonizado por S. Epatha Merkerson, melhor atriz em minissérie ou telefilme por Lackawanna Blues.
Rubens Ewald Filho, por sua vez, esteve mais mansinho que o de costume, destilando apenas algumas alfinetadas: comparou o queixo de Reese Witherspoon com um cotovelo, criticou o “espanglês” de Penélope Cruz e chamou Mariah Carey de gorda. O onipresente comentarista tomou conta da transmissão do SBT, ignorando os tradutores (nada) simultâneos e Analice Nicolau – o que não foi de todo ruim.
Ah, ia me esquecendo. O novo Superman, Brandon Routh, apresentou um dos prêmios e me deixou assaz ressabiado. Parecia meio inseguro, mas espero que seja apenas implicância da minha parte. Caso contrário, vem bomba por aí...
Clique aqui para conferir os premiados na 63ª. edição do Globo de Ouro.
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