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Nós Lemos : Top 10 Contra o Crime
Por Felipe Meyer — Segunda, 16 de janeiro de 2006
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Eu gostava de Angel. Gostava mesmo. No começo tinha um pouco de vergonha de admitir e usava as velhas desculpas: a patroa gosta, comecei a assistir por causa dela, ela me arranca o dedo se eu tentar mudar de canal...
Mas o fato é que a canastrice de David Boreanaz fingindo ser um herói de ação e negociando acordos matrimoniais com demônios da quinta esfera me conquistou de imediato (me fazendo inclusive cometer alguns pecados de fã, como ir atrás das temporadas anteriores, que eu havia perdido, e baixar os episódios da última temporada e assisti-los antes de passarem por aqui). Admitamos, é um conceito até meio bobo, mas uma fórmula infalível.
E se aproveitássemos essa mesma receita mas apimentássemos um pouco? Ao invés de vampiros e demônios, que tal seres de outra dimensão, alienígenas e cientistas malucos? Ou melhor ainda, policiais ao invés de advogados? Provavelmente resultaria na versão televisiva de Top Ten, de Alan Moore e Gene Ha, que a Devir lançou no Brasil no fim do ano passado.
Após uma introdução do próprio Moore, que fornece os primeiros detalhes da cidade de Neópolis em forma de relato jornalístico, a primeira página do álbum resume bem a distância do cenário onde os personagens passarão seus dias do mundo real que todos conhecemos. Passada inteiramente dentro de um vagão de trem, sempre sob o mesmo ângulo, a cena faz o leitor gradativamente se despedir dos tipos comuns e ser apresentado às estranhas figuras de uniformes berrantes que povoam a grande metrópole.
Fundada no fim dos anos quarenta, Neópolis tinha um objetivo bastante claro: abrigar os milhares de heróis e vilões da ciência que as duas últimas guerras mundiais haviam produzido. O mundo estava mais uma vez a salvo, e aparentemente não tinha mais lugar para eles. Com uma população tão heterogênea, formada por Deuses, semi-Deuses, robôs e todo tipo de acidente químico-genético, manter a lei se mostrou ser um trabalho extremamente difícil mesmo para os mais experientes policiais. A solução veio em meados dos anos oitenta, quando o departamento de polícia de Neópolis se tornou subalterno da central da Alter-Terra, que padronizou os departamentos existentes em milhares de outros mundos paralelos.
Esse é o grande ponto de partida de Moore (foto), que explora a rotina maçante de policiais em um cenário que não tem nada de maçante. As paisagens e os moradores de Neópolis são os personagens principais da narrativa, deixando os oficiais do décimo distrito (ou Top Ten, como foi carinhosamente apelidado) como meros coadjuvantes encarregados de interligar as diversas histórias que vão surgindo ao longo da série. As homenagens culturais se espalham pelo álbum, e a qualquer momento o leitor pode ser surpreendido por personagens conhecidos da televisão, cinema ou mesmo dos quadrinhos perambulando pelas ruas, como se integrassem todos um mesmo universo. Isso pode inclusive ser parte da estratégia de Moore e Ha, tentando nos mostrar o samba do crioulo doido que se tornou o mercado das histórias em quadrinhos e como a renovação dos conceitos antigos pode ser a única saída para desenvolver temáticas realmente originais.
As referências ao mundo real também não ficam para trás. Mesmo se passando em um mundo fantástico, os contos de Top Ten tentam permanecer o mais fiéis possíveis à realidade, seja na representação das mais diversas profissões, do racismo (aqui focado nos cidadãos robóticos, ou “clicadores”) ou na terrível doença mutante M.O.R.T.S.(resultado de múltiplos parceiros de múltiplas raças e origens interplanetárias).neópolis é uma cidade extraordinário, mas possui problemas bastante mundanos.
Ha foi responsável por dar vida e forma aos personagens de Moore, mas dividiu os desenhos com Zander Cannon. A dupla faz um trabalho belíssimo ao quebrar o estereótipos dos heróis musculosos e perfeitos ou heroínas gostosas e de roupas minúsculas, ao mesmo tempo que reaproveita esses clichês para tornar ainda mais fortes e evidentes as personalidades de certos personagens, forçando o leitor a ler a série de perto, para não perder nenhum detalhe.
Top Ten - Contra o Crime reúne os sete primeiros capítulos da série, que aparentemente fecham um arco completo. Há muito mais por vir, no entanto, incluindo a solução de diversos casos que foram levantados nesse primeiro volume. A esperança é de que os resultados das vendas motivem a Devir a publicar no Brasil os números restantes (ainda estamos esperando novos volumes de Powers e Planetary), assim como a série que se seguiu, The Forty-Niners, que conta os primeiros dias de Neópolis assim como um dos funcionários mais importantes do décimo distrito.
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