
Invincible
Se eu ganhasse dez centavos por cada novo fã que eu conquisto para essa ótima série de
Robert Kirkman, a essa altura já podia comprar os encadernados importados (aliás, é uma boa idéia. Quem vai ser o primeiro a contribuir?).
Invincible pode ser resumida como a realização de dois grandes sonhos adolescentes dos leitores de quadrinhos: poderes incríveis, é claro, e fazer sucesso desenhando, já que o desenhista regular do título -
Cory walker - começou com nada menos que
quatorze anos.
Seu traço, no entanto, não deixa nada a desejar em comparação com artistas mais “maduros”, e casa muito bem com a narrativa “novelística” e bem-amarrada de Kirkman, que aos poucos vai explorando todos os clichês possíveis do gênero super-herói (e da ficção científica em geral) a fim de contar o crescimento do herói adolescente e suas dificuldades de lidar com invasões alienígenas, problemas familiares (se você acha sua família ruim, ainda não viu nada) e hormônios à toda.
The Walking Dead
Kirkman de novo. Alguns meses atrás, em algum lugar, li uma frase sobre como os gibis de terror
“nunca causaram medo em ninguém”. Não lembro quem disse isso, mas essa pessoa deve ter passado batido por
The Walking Dead, uma série que me fez pular da cadeira em alguns momentos. Diferente de
Invincible, aqui a história é contada de forma quase cinematográfica, oscilando entre a ação ágil e apressada e o drama que domina páginas e mais páginas. Os personagens, de origens e personalidades diversas - muitas vezes incompatíveis - vão aos poucos estabelecendo relações que podem ser exploradas por muitas edições, mas não as aproveitam por muito tempo, pois vão indiscriminadamente sendo mortos um a um, da maneira mais violenta que Kirkman pode imaginar.
Da mesma forma que a fotografia preto-e-branca como documento histórico representa muito mais fielmente a realidade que a colorida, os diferentes tons de cinza de
Cliff Rathburn sobre os desenhos de
Charlie Adlard fazem saltar aos olhos uma visão bastante crua e realista do desespero passado pelos protagonistas - tirando os zumbis correndo por toda parte, claro.
Legend

Inspirado no livro
Gladiator, de Philip Wylie,
Howard Chaykin conta a história de
Hugo Danner, o mais próximo de um Super-Homem que o mundo real poderia ter. Graças a uma experiência feita por seu pai, Hugo cresce com poderes incríveis aliados à típica educação conservadora de cidade pequena. Porém, ao invés de vestir uma roupa azul berrante e sair mundo afora combatendo o mal, Hugo usa suas habilidades para se tornar um astro dos esportes e herói de guerra, conquistando o coração de algumas mulheres e arrebentando vários engraçadinhos pelo caminho.
Ao longo da história, Chaykin desenvolve no personagem uma grande variedade de sentimentos e emoções: inocência, orgulho, decepção, vingança, luxúria, patriotismo e todo tipo de valores que confundem o ser humano e o fazem perder constantemente o rumo. Apesar de tudo, ele não se deixa corromper completamente, passando boa parte da vida contendo-se e lutando para não ferir ninguém acidentalmente.
Os desenhos de Russ Heath estão longe de lembrarem o gênero “super-herói”, lembrando os antigos quadrinhos de terror e puxando levemente para o
underground lisérgico dos anos setenta - com um traço marcante que explora bem as expressões enquanto mantém todo o resto o mais simples e limpo possível.
The Forty-niners

A
Devir já lançou por aqui o primeiro encadernado de
Top Ten, que conta o dia-a-dia do departamento de polícia de Neópolis, cidade do universo criado por
Alan Moore para o selo
America’s Best Comics e que tem sua população composta somente por super-heróis, super-vilões e super-coisas em geral (ou “heróis da ciência”, como Moore prefere chamar, em protesto ao termo registrado pela Marvel e DC).
Enquanto um novo volume não chega às prateleiras brasileiras, fica o apelo para que a editora traga a essas paragens a ótima
The Forty-Niners, nova parceria de Moore e
Gene Ha e que dessa vez explora os primeiros anos da cidade fantástica assim como seus primeiros habitantes (incluindo o jovem e sexualmente confuso Steven Traynor, que cresceria para se tornar um importantíssimo personagem de
Top Ten).
A narrativa toma um rumo diferente da série original, permitindo-se desenvolver mais calmamente os personagens, sem ter de lidar com um grupo tão extenso de protagonistas ou mesmo tantas situações e complicações em um curto espaço de tempo. Ainda assim, possui várias das qualidades que fizeram de
Top Ten um sucesso, como a mistura inusitada de gêneros, as inesgotáveis referências e homenagens à cultura pop e as reviravoltas surpreendentes.
Black Hole

O
underground não morreu. Não com artistas do peso de
Charles Burns ainda no mercado. Eu havia visto essa série em alguns sites gringos, citada entre as melhores publicações de 2005, e tive de correr atrás.
Resumindo: um estranho vírus, aparentemente transmitido pelo sexo, começa a surgir numa cidadezinha e transforma os adolescentes em criaturas deformadas. Em se tratando de jovens pouco responsáveis e sexualmente bastante ativos, isso obviamente é um problema. As primeiras edições parecem girar em torno de
Keith, que têm visões envolvendo o “bug” (como foi apelidada a doença) e
Chris, por quem Keith é secretamente apaixonado e que ainda não sabe que acaba de contrair o mal.
Os desenhos de Burns tornam as deformações ainda mais grotescas que a pura imaginação permitiria, mas é no roteiro que ele realmente se destaca, contando tudo do ponto de vista confuso dos jovens personagens. O sexo e a nudez são exibidos sem pudor, meros elementos narrativos. A sexualidade explorada pelo artista não tem nada de excitante e, muito pelo contrário, apenas ajudam a aumentar a sensação de desconforto e até desespero transmitida pelos protagonistas.
Golden Boy

Imagino que a última coisa que se esperava ver nessa matéria era exatamente a menção de algum mangá. Mas
Golden Boy merece estar nessa listagem, pois é diferente de qualquer mangá que eu já li.
Oe Kintaro à primeira vista parece ser um perdedor nato, talvez o arquétipo mais representado nos mangás
shounen (para garotos). Sempre acaba rodeado de belas garotas com as quais com certeza não teria nenhuma chance. Em todo lugar que vai, carrega consigo um pequeno caderno no qual faz desenhos e todo tipo de anotações que o colocam sempre em problemas. Na verdade, Kintaro se autoproclamou um “estudante da vida”.
Largou a faculdade de Direito no último ano, mas não antes de completar todas as disciplinas exigidas. Desde então tem percorrido o japão exercendo as mais diversas profissões, como faxineiro, cozinheiro, programador, escritor fantasma e até mesmo escravo sexual. a cada nova experiência ele come o pão que o diabo amassou e termina por se tornar um profissional muito superior a seus empregadores, rumando então para o próximo obstáculo e deixando para trás donzelas apaixonadas e cavalheiros assustados com a possibilidade de Kintaro ser o homem que salvará o Japão... não, o mundo!