Mando Diao - A Escandinávia é pop

Por Márcia Lima — Quinta, 12 de janeiro de 2006

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Hey!

Não vou falar do que prometi na semana passada (discografia The OC), apenas porque o mundo corre e nós corremos com ele. Não dá mesmo, tem uma coisa incrível que você precisa saber.

Ah, a Escandinávia... Uma região tomada pela escuridão durante grande parte do ano... Enquanto o frio congela as almas, a cena musical, incrivelmente produtiva, incendeia o mercado europeu. Poderíamos falar sobre Figurines, The (International) Noise Conspiracy, Jens Lekman, Kings of Convenience, Will Oldham e alguns outros.

Mas pára tudo.

Você tem de conhecer duas bandas: Mando Diao e Sugarplum Fairy. Elas são a última Coca-Cola no deserto, a bolacha mais recheada do pacote, a cobertura de uva no sorvete de chocolate e tudo mais o que você puder imaginar.

Sério.

Conheci a primeira banda em 11 de junho de 2005, no Southside, festival de grande destaque na Alemanha, e que tinha o Oasis no line-up. Fiquei encantada, impressionada, apavorada e maravilhada. Eles tinham aquele punch de bandas como Nirvana e Subways, mas eram de um sixtie pop que na hora me lembrou dos Beatles. Uma quantidade incrível de yeah yeah yeahs, um nonstop frenético no palco, vocalistas que se alternavam em refrões que me deixavam com vontade de pular e cantar - mas, que droga, eu não sabia as letras! E ainda assim, as canções pareciam velhas conhecidas.

Muitas bandas depois, viria o Oasis e, mesmo idolatrando os ingleses, alguma coisa não me deixava parar de pensar naquela banda que eu não sabia sequer como pronunciar o nome. Claro que fui atrás e agora, seis meses depois, quase uma pós-graduada em Mando Diao e Escandinávia, trago um resumo da banda.

Vamos nos imaginar em Borlänge, cidade de 40.000 habitantes, centro sul da Suécia, campeã nacional no número de homicídios e drogados. Barra pesada? Deixo as explicações por conta de Björn Dixgård, frontman, guitarra solo e compositor do Mando Diao: "Nesta cidade perigosa e fria, onde há o maior número de drogados e assassinatos de toda a Suécia, você tem que ser mau o bastante se não quiser apanhar da gangue de otários na escola".

Com seus futuros companheiros de banda, a cena não era muito diferente. A única saída foi aliar a esperteza que precisavam ter nas ruas à força do rock'n'roll: "Isso estava lá fora", lembra Gustaf Norèn (vocais, guitarra base e composições). "Metallica e Guns era tudo o que ouvíamos na escola, mas eu estava mesmo era por dentro da soul music e dos Beatles, e então ouvi Nirvana pela primeira vez. Eu senti que o rock seria a única coisa em minha vida que nunca me abandonaria. Era a única coisa com que eu podia contar, como um cristão pode contar com Deus".

Maus, arrogantes e munidos de declarações bombásticas, eles seguem a cartilha de "como ser um rock star": "Nós honestamente acreditamos que nossas canções são melhores que as canções dos Kinks, Who ou ainda Small Faces. Podem até ser melhores que muitas canções dos Stones ou Beatles, ou iguais a elas. Nós competimos com as melhores bandas do mundo".

O temperamental Gustaf ainda complementa: "Ver o Mando Diao ao vivo é como ir a uma igreja. Nossos fãs nutrem por nós o mesmo sentimento que as pessoas nutrem pela religião."

E, como estrelas do rock não são nada sem os fãs, leia este depoimento: "Eu os conheci no verão de 2004, quando assisti ao primeiro vídeo de Sheepdog em Fast Forward. Meu primeiro pensamento foi: 'f***ing hell, que banda é essa?' O som era fabuloso, o vocalista elegante e tãããão cool... Era o que eu esperava desde que o som do Oasis (minha banda favorita desde sempre) se tornou meio velho. Imaginei que os garotos fossem da Inglaterra, nunca esperei que a Suécia pudesse trazer uma banda tão boa. Sempre gostei do fato de o Mando Diao ser formado por jovens, porque acredito firmemente que as melhores músicas são feitas até os trinta. Eu os vejo assim: Gustaf e Björn são A dupla de compositores que o mundo esperava desde Lennon e McCartney. Ambos são gênios. A cada vez que ouço sua música (e faço isso o tempo inteiro) eu os admiro mais. Outro fato importante: se você quer ver uma banda dando 100% de si no palco, então vá a um show do Mando Diao. Eles são enérgicos e entusiasmados."

As palavras são de Jacqueline Pohl, alguém que, de tão fã, resolveu criar uma página sobre os guris.

Assino embaixo de quase todas as frases (menos aquela sobre o Oasis, por motivos óbvios). Mas o fato é que, não é de hoje, fãs enlouquecidos idolatram a banda. Fansites e fóruns, geralmente japoneses, alemães ou suecos, monitoram a vida dos rapazes 24 horas por dia.

Mas voltemos à história da banda, agora que você já virou fã e quer saber o máximo de coisas possíveis. Em 1995, Bjorn formou a banda Butler, o equivalente aos Quarrimen para os Beatles, ou seja, o embrião, o pontapé inicial. Pessoas foram e vieram, até que, quatro anos depois, com integrantes comprometidos, a banda ganhou maturidade suficiente. "Nós nos tornamos realmente sérios", diz Gustaf. "Desistimos de pensar na escola. Desistimos de pensar nas namoradas. Bjorn e eu nos trancamos em uma casa no início do verão e passamos seis meses escrevendo nossas canções. Desistimos de nossas vidas pela banda, porque sabíamos que sem o Mando Diao não seríamos nada."

Sentiu a paixão? Auto-confiança é tudo!

Eles tinham 17 anos e, logo que acabaram de compor, passaram a sacudir a cena de Borlänge. Um jornalista local ficou impressionado com a performance da banda e, em uma bela reportagem, provou por a+b que era um absurdo que uma banda como aquela não tivesse gravadora. "Foi uma grande reportagem, grandes palavras. Ele sentiu que estávamos nos tornando tão grandes quanto o Oasis", disse Gustaf.

Logo a notícia se espalhou e chegou na capital, Estocolmo, onde uma VJ da Music Television ficou tão impressionada quanto o primeiro jornalista e os levou até a EMI. Sobre o contrato, Gustaf é cabal: "Eles entenderam que nossa música era a melhor."

No estúdio, a banda refez as canções demo, detestou o resultado e a gravadora aceitou manter a gravação original. "Nós gostamos daquele sentimento ingênuo e despropositado que pairava nas demos. Gravamos, produzimos e masterizamos para nós mesmos, sem ter idéia de que estávamos gravando um álbum de que as pessoas falariam e escreveriam sobre e que ouviriam no rádio".

Depois de lançarem Bring'Em In, o primeiro álbum, a banda entrou em uma turnê nacional com Hellacopters, Kent e Thåström. "Fizemos vários shows, mas ainda não tínhamos experiência profissional, não em turnês. Então, ali estavam bandas que tocavam há dez anos e os integrantes tinham 30, 40 anos e aí chegam estes caras de 20 e poucos, tocando rock'n'roll de verdade e fazendo muito melhor que eles". Claro que foi Gustaf quem disse isso...

A turnê triunfante levou o Mando Diao ao Japão, onde Bring'Em In acabava de ser lançado. O caminho até a terra do sol nascente propiciou cenas que eles nunca tinham visto. "Era frenético. Lá, o rock ainda é novo, era como a beatlemania", exagera Bjorn. "Depois de conquistarmos o Japão, voltamos para casa e começamos a receber cartas de fãs japoneses que traduziam nossas letras do inglês para sueco. Não conhecíamos nossas canções em sueco. Eles eram tão loucos... e por isso nós os amamos."

Apesar de não ter reconhecimento nenhum no Brasil, o que é um crime, Bring'Em In pôs o Mando Diao na lista das "bandas suecas com potencial internacional", aquelas a que nos referimos lá em cima. Eles agora são conhecidos e idolatrados em toda a parte, principalmente no Japão. Tudo isso se deve à energia maníaca, às melodias e aos refrões que colam em você e não descolam nunca mais.

Mas Bring'Em In foi apenas o começo. Malas prontas, viajaram até Bath, Inglaterra, e gravaram o mega-über Hurricane Bar.

Richard Rainey, conhecido por seu trabalho com o U2, ficou impressionou ao ouvir as demos e o primeiro disco, e também "intrigado com a originalidade das canções", segundo consta. Depois de um show em Berlim, eles tiveram a chance de se encontrar e "discutir sobre as coisas mais importantes da vida: Beatles e britpop". Tendo essas afinidades, resolveram trabalhar juntos na gravação do segundo disco, que continha nada mais nada menos do que 60 canções demo.

Clean Town, o single arrasa-coração que foi lançado em toda a Escandinávia e no Japão, levou dois anos para chegar à forma final - o que, de acordo com a filosofia mandodiana, é a prova de seu poder. "Se após dois anos você ainda gostar da canção, então sabe que ela terá durabilidade".

Por ter sido gravado longe de casa, Hurricane Bar sintetiza os sentimentos da banda pela cidade natal. "É um tributo a Borlänge. Absolutamente não é sobre botá-los para baixo com coisas do tipo 'cidade de m****a, caiam fora daí'. É mais com o fato de que você pode abandonar a cidade e ainda assim ela sempre fará parte de você".

A seguir, o que é imperativo que você saiba sobre o Mando Diao:

* Eles são: Björn Dixgård (vocalista, guitarra solo, compositor), Gustaf Norèn (vocalista, guitarra base, compositor), Carl-Johan Fogelklou (baixista, backing vocal), Samuel Giers (bateria) e Mats Björke (órgão e percussões).
* Eles têm o rock sixtie no sangue.
* Em 1999, trocaram o antigo nome da banda (Butler) após um sonho de Bjorn. Nele, alguém dizia que este deveria ser o nome da banda. Assim como nos Beatles.
* Atualmente, vivem em Estocolmo
* É difícil escolher as melhores canções de cada álbum, mas comece pelo seguinte:
- Bring'Em In: Mr Moon, Sweet Ride, Motown Blood, She's So.
- Hurricane Bar: Sheepdog, God Knows, Cut The Rope, Clean Town, Down In The Past.

* No site oficial da banda, depois de registrado, você pode baixar vídeos exclusivos e bacanas. São pequenas gravações caseiras, como Gustaf passando roupas ao som de Good Night, dos Beatles. Ou ainda os garotos no backstage; ou aproveitando a folga no Japão; ou na torre Eiffel; ou em festivais; em lanchonetes - enfim, toda aquela quinquilharia que nenhum fã dispensa.
* Mando Diao no myspace.com

***

Ok, até ontem, você nem imaginava que existisse uma cidade chamada Borlänge. Hoje, você sabe que existe uma banda ótima vinda exatamente de lá. Mas segura aí, porque você não sabe da maior. Não é apenas a maravilha Mando Diao que faz Borlänge tremer. Nada disso. Tem Sugarplum Fairy, aquela outra Coca-Cola no deserto.

Se o Mando Diao adora a comparação, mas tenta ser um pouco sutil, o Sugarplum Fairy ama os Beatles e mostra isso em 100% do seu trabalho. E também em um vídeo lindo, que tá rolando na net, e explica bem o nome da banda: ao som de A Day In The Life, cenas em slow de palco e backstage. Mas o que tem a ver?

Você lembra do projeto Beatles' Anthology? Paul fazia referência a uma contagem antes das canções, em estúdios. Ao invés do tradicional "One, two, three, four", eles falavam "sugar plum fairy, sugar plum fairy". Em A Day In The Life, Ringo Starr é quem puxa a contagem.

Mais: muitos, ainda hoje, se perguntam sobre "o que teria acontecido se os Beatles tivessem mantido o estilo que usavam nos shows em Hamburgo, antes da intervenção de Brian Epstein". A resposta está na Sugarplum Fairy, cinco garotos de Borläge que se vestem como os "Beatles de Hamburgo": calças de couro apertadas, botas, camisa branca, jaqueta de couro, charme, talento, humor, atitude explosiva e a arrogância de quem sabe que é bom.

Os garotos têm entre 19 e 21 anos e também são sucesso em terras japonesas. Victor, o vocalista, diz que "Nós entramos no palco com 100% de convicção no que estamos fazendo, o que é positivo e contagiante".

O disco de estréia da Sugarplum Fairy, Young & Armed, foi lançado em maio de 2005, apenas na Escandinávia e no Japão, e será lançado no resto da Europa no início de 2006.

Ainda não sei muito sobre a banda, apenas que o futuro dos caras brilha tanto quanto a capa do Hurricane Bar.

O que você mais precisa saber sobre a Sugarplum Fairy:

* A banda é composta por Victor Norén (vocal, baixo, percussão), Carl Norén (vocal, guitarra), David Hebert (baixo, teclados), Kristian Gidlund (bateria) e Jonas Carlson (guitarra).
* Gustaf, do Mando Diao, é irmão de Victor e Carl da Sugar.
* O site oficial fica aqui.
* Sugarplum no Myspace.com: clique aqui.
* Assista (And Please) Stay Young, vídeo oficial.
* Músicas que você não pode perder: (And Please) Stay Young, Coming Home e a ótima Sail Beyond Doubt

***

Ah, eu queria comentar sobre a Dirty Prettty Things ter sido capa da NME nessa semana, mas já fui.







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