A última trama de Will Eisner

Na quarta capa de um dos álbuns que colecionam a obra de Jules Feiffer,
Will Eisner comenta, com admiração, que seu ex-aprendiz tinha galgado os degraus da respeitabilidade e sido aceito na “cidade alta”, ou seja, no mundo da
alta cultura, eternamente vedado aos autores de histórias em quadrinhos. De certa forma, Eisner passou a vida toda tentando abrir essa porta: primeiro, com
The Spirit, ao elevar a estética dos super-heróis a um patamar superior; depois, com sua agência de propaganda, ao utilizar os quadrinhos como instrumentos didáticos e publicitários; a partir da década de 1970, com a
graphic novel, ao explorar temas adultos.
The Plot, sua obra póstuma, é a coroação dessa carreira: apresentada e posfaciada por figurões acadêmicos (um deles, Umberto Eco), publicada por uma
grande editora e distribuída em cadeias de livrarias, Eisner enfim deve ter encontrado a paz consigo mesmo.
Desde
To the Heart of the Storm, quando a temática judaica saiu do armário e passou a ocupar lugar central em sua obra, Will Eisner vem forçando cada vez mais o foco sobre o preconceito histórico, e segundo ele, injustificado, contra os judeus. Se sua penúltima
graphic novel,
Fagin o Judeu, beirava a propaganda ao fazer revisionismo dialogando com o folhetim de Charles Dickens, em
The Plot o tom é muito mais grave: Eisner dá-se ao trabalho de fazer uma pesada pesquisa histórica reconstituindo as origens do
Protocolos dos Sábio de Sião e sua propagação mundo afora, até hoje. Como se sabe, os
Protocolos são um livro apócrifo amplamente divulgado a partir do século XIX, no qual atribui-se aos judeus uma grande conspiração para nada menos do que controlar o mundo.

Nos primeiros dois terços, Eisner recorda minunciosamente e com seu grande talento de narrador de histórias os últimos dias de Maurice Jolly, jornalista francês que elaborou uma farsa criticando o governo de Napoleão III com título de cordel:
O Encontro de Maquiavel e Montesquieu no Inferno. Mal sabia ele que, décadas depois, o corpo de suas críticas serviria de base para que políticos russos de facção conservadora elaborassem uma longa falsificação sobre um suposto congresso de anciãos judaicos cujas atas entregariam os tais planos de domínio mundial – apenas um truque para desviar a atenção do czar para seus propósitos, usando os judeus como bodes expiatórios.
Enquanto coloca sua dramaturgia e narrativa para reconstituir fatos e caracterizar personagens, Eisner mantém a história nos arreios e prende a atenção do leitor. A partir do momento em que os
Protocolos de Sião ganham vida própria e começam a ser reproduzidos em outros países, a impressão que fica é que, assim como estes transcendem sua proposta inicial, o autor perde o fio da história e se limitar a enumerar as diversas tentativas de descrédito do livro – chega a ser chato atravessar as 17 páginas onde se comparam os
Protocolos e o livro de Jolly, que se transformou na cuidadosa reportagem do jornal londrino
The Times quando imaginava-se que a reputação do livro seria enterrada para sempre – e a constatar, desiludido, a sobrevivência do manuscrito a despeito de resoluções em tribunais e relatórios do congresso desautorizando-o.

Talvez esse seja o grande interesse de
The Plot: mostrar como a informação é algo orgânico, mutante, quem sabe dotado de vida própria e portanto complexo de ser gerenciado; da mesma forma com que Eisner não consegue conter a expansão dos
Protocolos dentro dos limites de sua história – e o roteiro se afrouxa no final – os conspiradores russos ou Maurice Jolly provaelmente também não imaginavam que um panfleto de propaganda pudesse adquirir vida própria, se alimentando de um preconceito existente, sobrevivendo a documentos oficiais e contra-propaganda e realimentando o ódio étnico que o gerou por tanto tempo.
The Plot é um retrato de seu tempo, de conspirações imaginadas que se transformam em reais e inspiram a imaginação de novas conspirações; quando qualquer notícia serve para provar um fato que irá sustentar uma argumentação, a despeito da idoneidade jornalítica na reprodução daquele fato, enfim, um tempo onde qualquer um pode contar sua própria versão da História. Eis a de Will Eisner.