 |
Nós lemos: Disparos do front da cultura pop
Por André Mansur — Segunda, 9 de janeiro de 2006
|
|
Bem-vindo ao Sobrecarga, seu destino para as principais matérias sobre Filmes, Séries, Quadrinhos, Música e muito mais... se você puder agüentar!
Use a barra superior do site para navegar entre os assuntos e confira, no final de cada texto, outras matérias relacionadas ao assunto.
Na barra lateral do site você encontra sempre boas ofertas de produtos relacionados ao universo pop, ajude o site visitando nossos patrocinadores.
Volte sempre!
|
A mira perfeita de Tony Parsons
Os temas podem variar mas o olhar é o mesmo. Disparos do Front da Cultura Pop (Editora Barracuda) é uma compilação de textos irônicos e corrosivos de Tony Parsons, escritos ao longo de quase vinte anos, pinçados dos mais variados veículos de comunicação inglesa, sobre relacionamentos, viagens, celebridades e música. Particularmente, é este último tema que nos interessa.
Nascido na Inglaterra há 52 anos, Parsons escrevia fanzines em meados dos anos 70. Com o surgimento do punk, a imprensa ficou desorientada, sem entender o movimento. A saída encontrada pelo semanário New Musical Express foi buscar alguém que estivesse envolvido na balbúrdia e pudesse traduzir para o leitor comum o que de fato ocorria. Encontraram Tony Parsons. Palavras do próprio: “Fui bebê quando Elvis vestia 38, criança durante a beatlemania, adolescente quando Bowie começou a fazer sucesso, jovem durante o movimento punk. Nasci na época certa”
Com um texto sem firulas, Parsons descrevia suas impressões sobre tudo que acontecia à sua volta. Munido de um humor ácido, quase sempre de modo provocativo, e lançando mão de tiradas que iam do engraçado ao genial – eventualmente ambos – além de provar ser um atento observador: “Rotten se apóia no pedestal do microfone”, conta sobre um show dos Sex Pistols, “abre uma lata de cerveja e fita a platéia com seus olhos vidrados, provocadores e cínicos: cabelo espetado e tingido de vermelho, rosto pálido e cadavérico, metal pendurado nas orelhas, pernas esqueléticas, colete vermelho, gravata preta e alfinetes – ele parece o cadáver anfetaminado de uma edição dominical da imprensa marrom”.
Às vezes seu ataque é frustrado. Ele narra com um certo desconcerto a vez em que ficou surpreso com a presença do Robert Plant, do Led Zeppelin, em um show do Danmed. O local era o lendário Roxy (primeira casa de shows exclusivamente punk), que acabara de abrir. Pronto pra detonar o “superdeus do heavy metal”, Parsons se aproxima de Plant e questiona a presença dele na platéia. Com uma insuspeita propriedade, Robert Plant diz que gosta do Danmed e, sobretudo, do baterista Rat Scabies. “Ele é realmente impressionante”, e completa mais tarde, “gosto de manter contato com o que está acontecendo”. Por fim, o jornalista assume que simpatizou com Robert Plant e põe o rabo entre as pernas.
Destaques não faltam ao livro: o escritor perde a linha tietando Bruce Springsteen; pergunta ao George Michael se é verdade que ele é um cretino arrogante; desconfia de Billy Idol e sua turma por tomarem suco de laranja (“Punks limpos: uma ameaça às nossas crianças” é o título da matéria); detona a ambient music de Brian Eno; arranca declarações de David Bowie como a que ele diz não encontrar mais utilidade para sua narina direita; afirma que Kylie Minogue não passa de um copo de leite desnatado e visita a lápide de Jim Morrison, brincando com a especulação do crooner estar vivo e cogita a hipótese dele aparecer no dia de lançamento do filme de Oliver Stone “vestindo um smoking de pele de cobra”.
O fato mais bacana, contudo, talvez seja o dia em que Parsons desceu o rio Tâmisa no barco Queen Elizabeth, acompanhando o infame show dos Sex Pistols. Comemoravam o Jubileu da rainha. Considerando todos os atributos já enumerados do escritor, possivelmente Parsons é a pessoa mais indicada a narrar a mítica passagem. Melhor: seu texto é o registro histórico definitivo sobre o incidente. É como se estivéssemos lá também – e conseqüentemente sofremos todas as escoriações promovidas pela polícia.
Mesmo sobre os outros temas, Tony Parsons mantém seu estilo, notadamente em evolução conforme o tempo avança, embora, às vezes, possua opiniões de caráter duvidoso – “Mendigar é uma vocação (...) quanto mais é possível descer? A Inglaterra se tornou uma nação de bebês chorões.” Ou: “Por que uma mulher nunca deveria ficar bêbada? Por que beber faz as pessoas falarem alto, as torna repugnantes, sentimentais, autocomiserativas e burras. E é claro que a maioria das mulheres já é assim completamente sóbria.” – e se deixe levar por preconceitos etnocêntricos, como na passagem em que afirma que os russos acreditavam serem os mocinhos na Guerra Fria. Neste momento, Parsons não se dá conta de que também é uma vítima do pensamento maniqueísta – aliás, tão involuntariamente quanto os russos.
Cabe destacar também as matérias e entrevistas com celebridades dos mais variados ramos: de Jerry Hall (modelo e, na época, esposa de Mick Jagger), passando pelo pugilista Muhammad Ali até os escritores Martin Amis e Ian McEwan – este, Parsons analisa, acertadamente, que “construiu sua carreira através de histórias de suspense, mistério e imaginação temperadas com sangue, vômito e sêmen.” Perfeito.
Fora os deslizes técnicos, como as falhas na revisão e o título que sugere apenas o primeiro capítulo (sobre a música pop) e o último (sobre as celebridades pop), o livro possui mais acertos do que erros. Característicos da pontaria precisa de Parsons. ¤
Serviço:
Disparos do Front da Cultura Pop
Autor: Tony Parsons
Editora: Barracuda
Preço médio: R$ 40,00
|
 |