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Muito após o reveillon...
Por Edvaldo Filho — Sexta, 6 de janeiro de 2006
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Consegui reunir alguns amigos e colegas num pequeno grupo de discussão, desses do Yahoo! Grupos, para trocarmos informações ou o que quer que seja sobre quadrinhos via e-mail. Os pouquíssimos que participam gostam de brincar dizendo que suas coleções vão aumentando à medida que laços matrimoniais são contraídos, os filhos vão nascendo e crescendo, os cabelos vão embranquecendo... Enfim, o tempo vai passando e a gente não larga esse costume delicioso de ir à banca, às comic shops, sebos e livrarias para comprar gibi.
No ano que passou, então, nos refestelamos com material de excelente qualidade publicado pelas principais editoras de HQs do Brasil. Vejamos à medida que a lembrança (e não a ordem cronológica) me permitir citar pelo menos algumas obras e tecer alguns comentários a respeito do que foi publicado, comprado e lido.
Não posso deixar de começar pela republicação da (eufemisticamente falando) excelente Maus, de Art Spiegelman. Quando pensávamos que tudo sobre o holocausto foi dito, eis que Spiegelman nos surpreende narrando a história do seu pai, Vladek, desde as vésperas da Segunda Guerra Mundial até o fim dela, aproveitando para nos mostrar também o processo de criação da obra e a conturbada relação que o autor tinha com o seu pai. Uma das melhores Histórias em Quadrinhos (com maiúsculas) de todos os tempos, sem dúvida - sem clichês, sem maniqueísmos e com muita genialidade.
Além disso, veio como um presentaço da Companhia das Letras, pois saiu baratíssimo se levarmos em conta o conteúdo da obra. A editora está de parabéns por tornar disponível esta obra prima por um preço acessível, ao contrário do que fazem a Devir e a Conrad com o que publicam. Se você ainda não leu, azar o seu. Que conste aí que Maus foi a primeira História em Quadrinhos a ganhar o prêmio Pulitzer. Consenso de público e crítica, tira facilmente qualquer uma outra desses top tens individuais que qualquer leitor de HQ que se respeite costuma fazer.
E por falar em Conrad, no ano findo esta editora levou às bancas a premiadíssima série Sandman em seu formato definitivo: álbuns de luxo em formato maior que o americano, capa dura, cada um compilando arcos fechados das histórias escritas pelo consagradíssimo Neil Gaiman e ilustradas por uma seleta equipe de artistas. Por enquanto deu para conferir três: Prelúdios e Noturnos, de 248 páginas; A casa de Bonecas, de 240, e Terra dos Sonhos, de 168 páginas. Mais sete álbuns devem vir pelos próximos meses para que leitores de excelente gosto possam, depois de ler ou reler as histórias, exibir envaidecidos a coleção completa em suas estantes ou escondê-las imediatamente daquele(a) sujeito(a) chato(a), seja lá qual grau de parentesco ou amizade ele tenha, que inadvertidamente possa aparecer e querer emprestada. Atenção para o conselho de alguém experiente no assunto.
Aproveitando o filme, a Devir recolocou nas prateleiras os clássicos de Sin City O Assassino Amarelo, A Dama Fatal e A Grande Matança, com acabamentos luxuosos e nova tradução. O clima noir, a enorme complexidade dos personagens, os enquadramentos de Frank Miller, o preto-e-branco... Sin City deu moral para que o escritor e desenhista co-dirigisse a produção cinematográfica baseada em suas histórias da Cidade do Pecado mesmo embaixo dos protestos da Associação dos Diretores da América, que viu o artista como um intruso em sua área. Conforme notícias, não faltaram manifestações de indignação por parte dos colegas de Robert Rodriguez, que o expulsaram da Associação de Diretores simplesmente porque Frank não era diretor profissional. Problema deles. Nós é que não deveríamos ser privados de uma das melhores adaptações cinematográficas de HQs de todos os tempos.
Sim, sempre que posso, me aventuro em outros gêneros e não costumo dar de cara com material ruim. Vamos tentar listar então o que houve de bom no mundo dos super-heróis (a minha praia, por enquanto) em 2005.
A Panini é a editora ponta-de-lança no gênero. Até hoje, só agradecimentos à editora por ter tomado os direitos de publicação dos personagens Marvel e DC quando pensávamos que a Abril tinha posto tudo a perder. Cansei de ouvir as lamúrias de leitores desesperados por acharem que estava tudo acabado com o cancelamento gradual dos títulos da linha (pra que e por quê?) Premium. Mais eis que a Panini chega e é só alegria para todo mundo!
Peraê?! Só alegria não! Como nada é perfeito, a editora teve seus altos e baixos, mas sempre manteve os ouvidos abertos a críticas.
Do lado da Casa das Idéias
O universo Ultimate continua abrigando os melhores títulos. Uma exceção é Demolidor, O Homem Sem Medo, a revista que, na opinião deste escriba, deveria ter abarcado The Pulse.
Tenho sérios receios de que Marvel Max passe a ser "Min". O que se salvou nas últimas edições foi a reformulação do Dr. Estranho. Poder Supremo parece ter perdido o mesmo fôlego de outrora, e o que a série da Shanna tá fazendo lá? Lembra a Era Image: histórias com quase nenhum texto e muito desenho da protagonista semi-nua em uma história que será ruim quando melhorar. Quando eu quiser ver mulher semi-pelada em revista, sei qual devo comprar. Certo, Frank Cho desenha bem. Quem não sabe disso? Espero que Powerless e Falcão Noturno, novas séries já anunciadas, salvem a revista.
A única coisa que eu tenho a dizer sobre Homem-Aranha e X-Men é: que pena... Perdi a boa vontade para com estes personagens há muito tempo, numa galáxia distante e, sinceramente, não vejo motivação nenhuma para buscá-la de volta. Sobre o Cabeça de Teia, ainda um dos meus personagens preferidos, já falei em um artigo anterior. Em contradição ao que você acabou de ler, dei uma olhada em Surpreendentes X-Men depois de muito tempo sem pegar num título mutante. Quase paro quando vejo Wolverine referir-se a mais uma morte de Jean Grey. Parei mesmo quando o Colossus retornou do inferno ou de sei lá de onde ele esteve. Cheguei à conclusão de que no universo Marvel tradicional mutante não morre, tira férias. Por que não reeditar os clássicos de Claremont, Byrne e Austin? Sai em distribuição nacional e ainda vende como água. Quem ousa duvidar?
O que mais houve de bom? Vejamos: a linha Marvel Knights; Loki, excelente história de Robert Rodi magistralmente ilustrada por Esad Ribic; a reedição de Elektra Assassina, de Frank Miller e Bill Sienkiewicz (eta nome chato de escrever...!), o vol. 1 de Os Maiores Clássicos do Quarteto Fantástico de John Byrne, o encadernado Marvels... Ou seja, a maioria republicações de clássicos pertencentes a uma época em que boas idéias saíam em abundância daquela casa.
A forte impressão que se tem é a de que a Marvel continuará investindo mais na qualidade dos filmes de suas franquias do que na qualidade das histórias delas. Torço para estar muito enganado.
Enquanto isso, do lado De Cá
A Marvel se concentra nos filmes, a DC nos quadrinhos de qualidade! Vejam só as seções de cartas das revistas DC: os editores não escondem o fato de que os marvetes estão prestando mais atenção nas produções da Distinta Concorrente.
Os títulos regulares, excetuando o do Cavaleiro das Trevas, estão muito bons. Os especiais, com raras exceções, melhores ainda. Grandes Clássicos DC trouxe os Novos Titãs de Wolfman e Pérez, a Mulher-Maravilha de George Pérez, Batman: Ano Um, de Frank Miller... Falta o Superman de Byrne para completar o que deveria ser a trilogia perfeita. Infelizmente, uma editora (acho que a Mythos - faz tanto tempo que eu nem me lembro) prometeu The Man of Steel e ficou na promessa.
DC Especial nos brindou com Gotham Central, um dos melhores títulos vindos da cidade das trevas. A mini SJA/Gavião Negro: Reino Sombrio é uma história muito acima da média. Não é à toa que as histórias da SJA são apontadas há muito tempo como sendo as melhores do mix de Liga da Justiça.
E as páginas da excelente série Crise de Identidade (que mereciam uma arte-finalização à altura do argumento) apresentam uma nova DC, um prenúncio da próxima crise que virá.
É isso. Vamos aguardar o que já foi anunciado para 2006. Esperemos que a distribuição nacional dos títulos melhore, pois muita coisa chega atrasada, quando chega, nas bancas de fora da Região Sudeste. Engraçado como no início não era assim. Será que, com a consolidação no mercado, a Panini relaxou nesse aspecto? Fica a pergunta lançada.
Will Eisner (1917-2005)
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