Vai encarar?

Devo ser o último dos moicanos a falar sobre King Kong, mas depois de dias mirabolando uma crítica, resolvi escrever. Contabilizando prós e contras, concluí que
King Kong é um filme grandioso. Não por questão de gosto. Basta calcular. Remake de um dos
maiores clássicos do cinema, custeado em
milhões de dólares, divulgado por uma
ampla campanha de marketing,
recheado de efeitos espaciais e estrelado por um
gorila de oito metros. É grande inclusive no tempo de duração. Três horas de seqüências exageradamente longas – cacoete que
Peter Jackson cultiva desde o interminável encerramento da saga
O Senhor dos Anéis.
Além do símio gigante, alguns personagens também extrapolam os limites da realidade. Carl Denham, interpretado por
Jack Black (num papel moldado para ele), é o exemplo mais notável. Obcecado em filmar numa ilha inexplorada, o cineasta não mede esforços nem tramóias para finalizar sua obra prima. Ao descobrir que o projeto será cancelado, ele rouba os equipamentos do estúdio e foge de barco para a Ilha da Caveira. Manipulando a tripulação inteira com suas mentiras deslavadas, o picareta seguirá sua insana jornada mesmo que arrisque a própria pele – ou a das outros.
Integrante do triângulo amoroso que embala a trama, Jack Driscol (
Adrian Brody) é um personagem igualmente peculiar e inverossímil. Após embarcar de gaiato na viagem, o roteirista apaixona-se pela bela Ann Darrow (
Naomi Watts), atriz desempregada “descoberta” por Carl. O romance a bordo do navio vai indo bem, até a moça parar nas mãos de Kong. Tomado por uma paixão inexplicavelmente arrebatadora, Jack fará de tudo para salvar sua amada, protagonizando peripécias dignas de James Bond.
As alegorias da fita são outro caso a parte, impressionando pela dimensão e número de monstros que vivem na ilha; sem falar na medonha tribo que habita suas terras. Num filme onde o maior dos gorilas escala o prédio mais alto do mundo (na época, o Empire State Building), tudo é gigantesco e surreal. Mas por baixo desta descomunal carcaça, revela-se a essência da obra assinada por Peter Jackson.
Entre gestos, olhares, sorrisos e lágrimas, a relação entre o solitário King Kong e a amável Ann Darrow é embalada por uma sutileza que contrasta com esta atmosfera imponente. Em meio a tanta pirotecnia, o clímax do filme traz o casal num momento de profunda placidez, até desencadear no final que todos conhecemos. Completando esta convincente história de amor, destacam-se a trilha sonora e o excelente trabalho de
Andy Serkis – a alma de Kong. O resultado não poderia ser outro, senão um filme grandioso, com tudo de bom e ruim que possa ter; de cinema, como manda o figurino.