Nós vimos II: King Kong

Por Ederson Nunes — Quinta, 15 de dezembro de 2005

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Ninguém segura esse gorila

Quem já viu fotos recentes de Peter Jackson pôde notar o quanto ele emagreceu. No entanto, foi glutão ao extremo ao filmar King Kong. O filme é uma overdose. Não basta um macaco de sete metros lutar com um tiranossauro rex. Ele tem que lutar com dois tiranossauros ao mesmo tempo. Mas ainda não é o suficiente, ele tem que lutar com três. Só isso? Claro que não! Todos têm que cair de um penhasco lutando, emaranhar-se em cipós enquanto o símio gigante joga a mocinha de mão pra mão e de pé para pé, tentando salvá-la dos sanguinários répteis. Essa é uma das principais seqüências do filme e mostra que a idéia de Peter Jackson foi "quanto mais, melhor". Isso pode ser bom, ou não. Depende do ânimo que se mantém durante as três horas de duração.

A história é sabida: um grupo de pessoas vai para uma ilha desconhecida, onde mora um gigantesco gorila que se apaixona pela garota loira. Infelizmente a relação não dá certo, ele é capturado e tem um destino trágico ao subir no Empire State. Dessa vez, quem vai parar na ilha é uma equipe de filmagem comandada pelo falido e mentiroso cineasta Carl Denham (Jack Black). Ele recrutou todos dizendo que iam filmar em Singapura, mas na verdade vão para um lugar inexplorado: a Ilha da Caveira. Quem protagonizará seu filme será Ann Darrow (Naomi Watts), atriz de teatro desempregada, que se apaixona pelo tímido roteirista Jack Driscoll (Adrien Brody), que também cai de amores por ela. Os dois seriam felizes para sempre, se na ilha não vivessem nativos tenebrosos, que raptam Ann e oferecem-na para Kong.

Depois de quase uma hora de filme, com seqüências em uma impressionante Nova Iorque de 1933 e num barco enfrentando o desconhecido, chegamos à ilha para cenas desconcertantes. A primeira delas é a aparição do povo que lá vive. Parecem zumbis fanáticos, são horríveis e se amarram num sacrifício humano. Desde a década de oitenta, com As Minas do Rei Salomão e Indiana Jones e o Templo da Perdição, não havia no cinema uma tribo tão sinistra. E, pela mão competente de Peter Jackson, essa é a mais horripilante de todas. Não dá pra esquecer a velha feíssima gritando "Torê Kong! Torê Kong!".

Em seguida, então, conhecemos o temido Kong, que é o único sobrevivente de sua espécie naquela ilha isolada. Ele pega as pessoas que lhe são oferecidas pela tribo e mata-as, porque não tem mais o que fazer com elas. Mas com Ann Darrow é diferente. Ela reage, tenta fugir, fica sendo um brinquedo interessante. E, depois que entrete ele com números de teatro, torna-se o único ser que dá atenção para o macacão. Ele passa a gostar dela. E ela percebe que ele não é mau. Depois da cena dos dinossauros, tornam-se amigos. Enquanto isso, os outros cruzam a ilha em busca da atriz, enfrentando desde mais dinossauros até enormes grilos e vermes carnívoros.

Tudo que de positivo se pode ler sobre a técnica de motion capture que deu vida ao gorila é verdade. Ele é perfeito, tem detalhes realistas, e é muito bem "interpretado" por Andy Serkis (que também já "interpretou" o Gollum, em O Senhor dos Anéis). Seus rosto é o que mais impressiona, porque, além de enorme, transmite emoções e tem olhos que conversam não só com Ann, mas com o público também.

Porém, todo o tempo e talento que se gastou fazendo o King Kong e as outras criaturas não foi o suficiente para que a interação entre elas e os humanos ficasse tão boa. Os bichos não têm defeitos, parecem reais, têm pele, poros, músculos, volume. O problema são as pessoas: ao ficar no mesmo quadro que eles, não há harmonia, não parece que estão lá de verdade. Isso acontece mais claramente na fuga dos dinossauros, quando o pessoal corre por entre as pernas dos répteis e parecem não ter profundidade e, pior, têm um contraste e uma nitidez maiores do que os animais computadorizados, o que os faz ficar em destaque. Nesse ponto, Jurassic Park, lançado há mais de 10 anos, ainda consegue ser superior.

Agora, falemos um pouco sobre o roteiro, escrito por Jackson, sua esposa Fran Walsh e sua costumeira colaboradora Philippa Boyens. Levando em consideração que é um filme onde um gorila gigante é o astro principal, o roteiro é bom. Só que a história não sustenta um longa-metragem de três horas, então resolvem preencher o tempo com todo o tipo de cena de ação que acharam apropriado. Boa parte não faz o filme evoluir, é só para tentar parecer impressionante. E até funcionaria, se não fosse o exagero. Todas as cenas se alongam por minutos que parecem não ter fim e tornam-se chatas, inclusive a cena final. O que era pra ser emocionante acaba se perdendo. Peter Jackson precisava de um editor melhor, para podar as inutilidades.

Já a transição entre a segunda e a terceira parte ocorre sem mais nem menos (podemos dividir o filme em três: antes, durante e depois da ilha). De repente passam-se semanas, Kong está aprisionado, sendo exposto a humilhações num show da Broadway, Carl Denham está famoso, Ann e Jack estão separados, mas não sabemos o que aconteceu. E não saberemos. O amor dos dois protagonistas humanos, depois de cenas românticas no barco na primeira parte, é totalmente deixado de lado. Ann se preocupa mais em gritar e em ficar acolchoada no macaco, e Jack, que atravessa mil dificuldades para salvá-la, passa semanas sem vê-la, sem nem um motivo aparente. Mas tudo certo, o que importa mesmo é o gorilão, não é?

Peter Jackson recebeu o maior cachê já pago a um diretor (R$ 20 milhões de dólares) para fazer esse filme absurdo, grandioso e que não tem a mínima relevância, mas é bom no que se propõe: divertir a audiência. Com bom humor, direção de arte riquíssima, som de cair o queixo e ótimo elenco, ele confirma seu nome como um dos mais competentes diretores de Hollywood e, provavelmente, continuará a ser um dos mais lucrativos. Seu salário histórico se justifica.





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