Ninguém segura esse gorila

Quem já viu
fotos recentes de
Peter Jackson pôde notar o quanto ele emagreceu. No entanto, foi glutão ao extremo ao filmar
King Kong. O filme é uma overdose. Não basta um macaco de sete metros lutar com um tiranossauro rex. Ele tem que lutar com dois tiranossauros ao mesmo tempo. Mas ainda não é o suficiente, ele tem que lutar com três. Só isso? Claro que não! Todos têm que cair de um penhasco lutando, emaranhar-se em cipós enquanto o símio gigante joga a mocinha de mão pra mão e de pé para pé, tentando salvá-la dos sanguinários répteis. Essa é uma das principais seqüências do filme e mostra que a idéia de Peter Jackson foi "quanto mais, melhor". Isso pode ser bom, ou não. Depende do ânimo que se mantém durante as três horas de duração.
A história é sabida: um grupo de pessoas vai para uma ilha desconhecida, onde mora um gigantesco gorila que se apaixona pela garota loira. Infelizmente a relação não dá certo, ele é capturado e tem um destino trágico ao subir no Empire State. Dessa vez, quem vai parar na ilha é uma equipe de filmagem comandada pelo falido e mentiroso cineasta Carl Denham (
Jack Black). Ele recrutou todos dizendo que iam filmar em Singapura, mas na verdade vão para um lugar inexplorado: a
Ilha da Caveira. Quem protagonizará seu filme será Ann Darrow (
Naomi Watts), atriz de teatro desempregada, que se apaixona pelo tímido roteirista Jack Driscoll (
Adrien Brody), que também cai de amores por ela. Os dois seriam felizes para sempre, se na ilha não vivessem nativos tenebrosos, que raptam Ann e oferecem-na para Kong.
Depois de quase uma hora de filme, com seqüências em uma impressionante Nova Iorque de 1933 e num barco enfrentando o desconhecido, chegamos à ilha para cenas desconcertantes. A primeira delas é a aparição do povo que lá vive. Parecem zumbis fanáticos, são horríveis e se amarram num sacrifício humano. Desde a década de oitenta, com
As Minas do Rei Salomão e
Indiana Jones e o Templo da Perdição, não havia no cinema uma tribo tão sinistra. E, pela mão competente de Peter Jackson, essa é a mais horripilante de todas. Não dá pra esquecer a velha feíssima gritando "Torê Kong! Torê Kong!".
Em seguida, então, conhecemos o temido Kong, que é o único sobrevivente de sua espécie naquela ilha isolada. Ele pega as pessoas que lhe são oferecidas pela tribo e mata-as, porque não tem mais o que fazer com elas. Mas com Ann Darrow é diferente. Ela reage, tenta fugir, fica sendo um brinquedo interessante. E, depois que entrete ele com números de teatro, torna-se o único ser que dá atenção para o macacão. Ele passa a gostar dela. E ela percebe que ele não é mau. Depois da cena dos dinossauros, tornam-se amigos. Enquanto isso, os outros cruzam a ilha em busca da atriz, enfrentando desde mais dinossauros até enormes grilos e vermes carnívoros.
Tudo que de positivo se pode ler sobre a técnica de
motion capture que deu vida ao gorila é verdade. Ele é perfeito, tem detalhes realistas, e é muito bem "interpretado" por
Andy Serkis (que também já "interpretou" o Gollum, em
O Senhor dos Anéis). Seus rosto é o que mais impressiona, porque, além de enorme, transmite emoções e tem olhos que conversam não só com Ann, mas com o público também.

Porém, todo o tempo e talento que se gastou fazendo o King Kong e as outras criaturas não foi o suficiente para que a interação entre elas e os humanos ficasse tão boa. Os bichos não têm defeitos, parecem reais, têm pele, poros, músculos, volume. O problema são as pessoas: ao ficar no mesmo quadro que eles, não há harmonia, não parece que estão lá de verdade. Isso acontece mais claramente na fuga dos dinossauros, quando o pessoal corre por entre as pernas dos répteis e parecem não ter profundidade e, pior, têm um contraste e uma nitidez maiores do que os animais computadorizados, o que os faz ficar em destaque. Nesse ponto,
Jurassic Park, lançado há mais de 10 anos, ainda consegue ser superior.
Agora, falemos um pouco sobre o roteiro, escrito por Jackson, sua esposa
Fran Walsh e sua costumeira colaboradora
Philippa Boyens. Levando em consideração que é um filme onde um gorila gigante é o astro principal, o roteiro é bom. Só que a história não sustenta um longa-metragem de três horas, então resolvem preencher o tempo com todo o tipo de cena de ação que acharam apropriado. Boa parte não faz o filme evoluir, é só para tentar parecer impressionante. E até funcionaria, se não fosse o exagero. Todas as cenas se alongam por minutos que parecem não ter fim e tornam-se chatas, inclusive a cena final. O que era pra ser emocionante acaba se perdendo. Peter Jackson precisava de um editor melhor, para podar as inutilidades.
Já a transição entre a segunda e a terceira parte ocorre sem mais nem menos (podemos dividir o filme em três: antes, durante e depois da ilha). De repente passam-se semanas, Kong está aprisionado, sendo exposto a humilhações num show da Broadway, Carl Denham está famoso, Ann e Jack estão separados, mas não sabemos o que aconteceu. E não saberemos. O amor dos dois protagonistas humanos, depois de cenas românticas no barco na primeira parte, é totalmente deixado de lado. Ann se preocupa mais em gritar e em ficar acolchoada no macaco, e Jack, que atravessa mil dificuldades para salvá-la, passa semanas sem vê-la, sem nem um motivo aparente. Mas tudo certo, o que importa mesmo é o gorilão, não é?
Peter Jackson recebeu o maior cachê já pago a um diretor (R$ 20 milhões de dólares) para fazer esse filme absurdo, grandioso e que não tem a mínima relevância, mas é bom no que se propõe: divertir a audiência. Com bom humor, direção de arte riquíssima, som de cair o queixo e ótimo elenco, ele confirma seu nome como um dos mais competentes diretores de Hollywood e, provavelmente, continuará a ser um dos mais lucrativos. Seu salário histórico se justifica.