Por que eu adoro Kyle Baker

Por Rafael Lima — Quinta, 4 de dezembro de 2003

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Kyle Baker é daqueles nomes que pode passar despercebido ao mais atento leitor, porque ele nunca foi responsável por um título grande durante um período longo (como John Byrne) ou porque ele nunca teve revista própria (como Daniel Clowes ou Peter Bagge). Baker sempre fez mais o estilo multiinstrumentista, produzindo roteiros, ilustração, desenho animado, vídeo e publicidade.

Quem passou as últimas décadas lendo os super-heróis da Marvel e da DC há de se lembrar dele nos créditos para O Sombra, com texto de Andy Helfer, logo depois da reformulação – aquela mania doida dos anos 80 – nas mãos de Howard Chaykin. Kyle Baker também aparecia fazendo uma arte-final aqui e acolá, como Bill Sienkiewicz, certamente nos períodos de vacas magras. A primeira vez em que vi seu nome encabeçando um projeto foi com Break the Chain, uma história que ganhou trilha sonora própria, e que virou animação na MTV. No começo dos anos 90, ainda era novidade esse papo de multimídia, conteúdo cruzado.


O que fez o nome de Kyle Baker sobreviver e se destacar na enxurrada de novidades da década de 90 foram as graphic novels que ele fez no momento de maior fertilidade deste gênero: Why I Hate Saturn, The Cowboy Wally Show e You Are Here. Conta a lenda que depois do estouro de vendas de Watchmen, todas as editoras começaram a procurar desesperadamente por quem tivessem uma graphic novel na gaveta (como se fosse simples assim), e Kyle simplesmente ofereceu-se para dar conta, sozinho - argumento e arte - de uma história de 200 páginas: Why I Hate Saturn. Segundo Eddie Campbell, foi uma das mais relevantes nos 20 anos de graphic novels.

Como toda grande história, Why I Hate Saturn é difícil de se descrever. É a reconciliação entre duas irmãs muito diferentes. É uma história de estrada. É uma comédia de diálogos. É crítica de costumes. É uma história policial. Editada em 1990, contém um dos melhores retratos da década de 80 em quadrinhos: ternos largos com ombreiras retas, cortes de cabelo tipo mullets, máquinas de fax, estética dark, está tudo ali.

Basicamente, Why I Hate Saturn narra os sucedidos na vida de Ane, colunista de uma revista hip (hoje diríamos: cool) e candidata a escritora que, entre discussões com seu editor e papos de bar com o amigo e alter ego Rick, crítico de arte, cínico e estiloso, nunca consegue terminar seu romance. Um dia, depois de um pileque mais feio, Ane mal tem forças para se arrastar até a porta e abrí-la para sua irmã Laura, antes de cair desacordada. Laura é o ying para o yang Ane, até pelo branco eterno de suas roupas – em oposição ao preto monótono de Ane. É a vegetariana, a integrada (enquanto Ane é apocalíptica), a ecomaníaca que se recusa a dar a descarga para não desperdiçar 40 litros d’água com um copinho de urina e que não desfaz a teia, porque a aranha contribui para o ecossistema matando insetos. Como se isso não bastasse, ela também sai com mais homens do que sua irmã. No entanto, Laura havia procurado Ane porque fora baleada, em conseqüência de um caso mal resolvido com um ex-namorado anterior de sua irmã, neurótico o suficiente para colocar um detetive particular em seu encalço. Depois da vigésima nona discussão, Ane acaba expulsando Laura de casa, apenas para descobrir que passaria a ser o alvo das ameaças do detetive, se não encontrasse a irmã. É quando Ane resolve cair na estrada.

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Kyle Baker é um grande dialoguista, capaz de sustentar páginas e páginas de conversa pura apenas com verve e sagacidade. Seu traço está cravado na linha divisória entre o realista e o caricatural, onde Roy Crane e Beto Hernandez passaram direto e onde Neal Adams não chegou. É impressionante como ele varia sutilmente a posição da câmera em páginas de falação interminável, de humor que poderia estar numa sitcom ou num filme do Woody Allen. A história é tão urbana, vibrante e neurótica quanto a cidade onde se passa, New York, e um dos momentos mais divertidos da leitura são os comentários de Ane em sua odisséia pela Califórnia atrás da irmã: “A única coisa pior do que viajantes de ônibus são viajantes de ônibus que vão para San Francisco”, cercada de hippies num Greyhound. O encontro entre as irmãs e a fuga pelo deserto tem um quê de Thelma e Louise, mas a solução encontrada por Baker é infinitamente mais quadrinhesca e divertida que a do filme. Enfim, são 200 páginas que passam com suavidade, graça, vigor e atrevidos comentários sobre comportamento e costumes.

Produzida em preto, branco e tons de sépia, totalmente ilustrada sem balões, é uma ótima sugestão para publicação no Brasil, quem sabe em duas partes.




COMPRAS
CD > CD Platinum: Chet Baker (Chet Baker)
Game > Jogo PS2 Naruto Ultimate Ninja 2 (Namco)
DVD > Box Kyle XY - 1ª Temporada- Triplo (April Matson, Marguerite Macintyre, Bruce Thomas, Matt Dallas)
DVD > DVD Twin Peaks: Gold Box Edition- 10 DVDs (Lara Flynn Boyle, Richard Beymer, Kyle Maclachlan)
DVD > DVD O Escondido (Jack Sholder, Michael Nouri, Robert Shaye, Kyle Maclachlan)
DVD > DVD Fox Classics: O Diário de Anne Frank (Shelly Winters, Joseph Schildkraut, Millie Perkins, Diane Baker)
Livro > Os 351 livros de Irma Arcuri (David Bajo)
DVD > Box: DVD Kyle XY - Revelação Total - Temporada 2.1- Triplo (Jean-luc Bilodeau, April Matson, Michael Robison, Guy Norman Bee, Kirsten Prout, Marguerite Macintyre, Chris Olivero, Chris Grismer, Jaimie Alexander, Matt Dallas)

 

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