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Nós lemos: Constantine - Nas Ruas de Londres
Por Felipe Meyer — Segunda, 5 de dezembro de 2005
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Abri os olhos, zonzo, me sentindo extremamente burro. Sentia nas costas o peso de três dias de sono trocado e na boca um gosto amargo que - não fosse pela absoluta miséria que tomou conta dos meus bolsos na última semana - me faria pensar que tomei um grande porre na noite anterior.
- Teus gibis chegaram - ela nem esperou eu acordar totalmente.
- Que gibis?
- Sin City e um do Constantine.
- Tu abriu?
- Claro. O que é teu é meu.
- Porcaria nenhuma - me virei, duro, e vi os dois encadernados em cima da cômoda. - A gente ainda não é casado. Sabia que isso é crime?
- Manda me prender!
Fiz sinal pra que ela me alcançasse os livros. Ela se levantou do colchão, com má vontade, e os puxou na minha direção, sem muito cuidado. Um deles era A Noite da Vingança, um dos poucos volumes de Sin City que faltavam à minha coleção e o único do qual eu não sabia nada a respeito. O outro era Nas Ruas de Londres, com um acabamento que me impressionou e conquistou pelo texto altamente publicitário na quarta capa que exaltava o filme recente e os grandes artistas que participaram da coletânea que eu tinha nas mãos.
- Que tal assim... Eu começo lendo o Sin City e tu lê o Constantine?
Ela topou na mesma hora. Fazê-la se interessar por revistas em quadrinhos é algo bastante difícil, mas eu sabia que, graças ao filme com Keanu Reeves, já há algum tempo ela tinha curiosidade de conhecer o personagem de Hellblazer mais a fundo.
- Tá gostando? - perguntei, após meia hora de silêncio. Eu já quase terminava o volume de Sin City dinâmico, ágil e com uma linguagem que eu já estava bastante familiarizado. Ela mantinha uma expressão um tanto confusa, típica de “primeira experiência”, lendo com demora a primeira metade de seu livro.
- Mais ou menos... Tu também dá estrelinhas pros gibis?
- Dou. Só que são raios, e não estrelas.
- Tanto faz. Achei que só as críticas de cinema tinham estr... raios.
- Não. As minhas também têm. E aí, quantas “estrelinhas”?
- Três... e meia.
- Por que “meia”?
- Ai, não sei... São várias histórias. E uma diferente da outra...
- Me fala dessa que tu ta lendo agora, então. Que nota?
- Até agora, três. Talvez quatro.
- E a anterior?
- Três.
- Por que?
- Não sei...
- Gostou dos desenhos?
- Olha... Não é o melhor pro meu gosto, mas como não sou eu a especialista em quadrinhos...
- Tudo bem, não precisa ser. Só fala o que tu achou.
- Não gosto muito das cores... Ta certo que eles tem que desenhar umas coisas estranhas pra dizer que é o inferno... Mas o inferno é rosa!
Eu ri, tentando não parecer que era dela. A história em questão, fui descobrir depois ao ler eu mesmo, era “Indo com Tudo”, sobre demônios yuppies que investiam no mercado de almas. Achei a premissa bastante ingênua e sem grandes méritos para integrar a antologia, e penso que ela deve ter tido opinião parecida mas teve vergonha de se manifestar honestamente.
- Que mais? O texto é bom?
- É... Mais tem muito erro de português. Quer dizer... eu acho. Mais de concordância, palavras repetidas ou comidas... E umas coisas que não soam muito bem.
- Deve ter mesmo. Aliás uma das coisas que eu mais falo nas minhas críticas é sobre os erros de tradução e revisão dos encadernados da Devir. Eles falham bastante nesse quesito.
- Aqui, por exemplo... “Aposto que fuma charros suficientes pra levantar um morto”. Não devia ser “charutos”?
Dei de ombros. Ela já estava na terceira história, “Este é o Diário de Danny Drake”, que eu lembrava já ter lido no antigo almanaque Vertigo da Abril Jovem. Uma história boa, no contexto que se encontrava quando publicada originalmente por aqui. Sem as maquinações diabólicas e os planos de Constantine para fugir do inferno, não teve a mesma graça. Ela foi de opinião parecida.
- Talvez por tu já teres me falado da história antes...
Provavelmente não. Tudo que eu havia dito foi “conheço essa história e é bem boa”. Mais tarde, quando ela já dormia e aproveitei para ler eu mesmo a coletânea de cabo a rabo, percebi que essa sensação de deslocamento, de ausência de um algo mais, é algo que ocupa toda a edição. Me pareceu um livro preparado especificamente para conhecedores de longa data do personagem ou, na pior das suposições, um “tapa-buraco” com material sobressalente. Não é, de longe, a melhor maneira de apresentá-lo a leitores inexperientes, alternativa pouca explorada pela Devir após a exposição causada pelo filme.
- Ta bom. Quatro - disse ela, ao virar a última página do livro. Apesar de ter me confessado pouco antes que os desenhos de Frank Teran - na história “Fechado” - a tinham conquistado, pude perceber em sua expressão uma polidez forçada, como quando se elogia as roupas de alguém somente para agradar. Sua avaliação ainda tinha cara de “três e meia”.
- Tem certeza?
- É... Acho que tenho.
- Tá bom. Então você escreve a resenha - ela riu.
Nota: 4 (por Célia Paiva)
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