Para entender Fantômas e Mike Patton

Por Pedro Moura — Segunda, 5 de dezembro de 2005

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- Cara, esse som está me deixando transtornado;
- Sem dúvidas, o show mais punk do festival!;
- Não estou entendendo p**** nenhuma.
Esses foram alguns depoimentos que a equipe do SEQUELA Connections retirou dos desavisados expectadores do show do Fantômas no domingo retrasado, em plena Cidade do Rock no festival Claro Q É Rock. Sem dúvidas que o som mais do que experimental da banda deixou a platéia aturdida, e eu, tendo comandado um programa radiofônico sobre música bizarra durante quase quatro anos, fiquei me perguntando: como não tinha conhecido essa banda antes?

O Fantômas é um dos projetos de Mike Patton, mundialmente conhecido como vocalista mais que performático do extinto Faith No More. Até o momento, o Fantômas é um dos quatro projetos musicais do rapaz, já nem tão novo assim, considerando que o Mr. Bungle declarou encerradas suas atividades no começo de 2005. Patton divulga esses e outros petardos da música bizarra através do seu selo Ipecac Recordings, que apresenta como lema em sua
homepage “making people sick since 1999” (fazendo pessoas adoecerem desde 1999). Uma curiosidade é que o Melvins atualmente lança seus materiais através do selo de Patton.

Isso não se dá à toa, haja visto que a parceria de Patton e Buzz Osbourne, do Melvins, já vem de algum tempo. Buzz assume as guitarras do Fantômas, que ainda conta com o baterista do Slayer, Dave Lombardo, e o ex-baixista do Mr. Bungle, Trevor Dunn. O objetivo da banda parece ser o de surpreender o ouvinte a cada segundo com sua sonoridade cacofônica e sua irregularidade musical, algo que um amigo meu definiu simplesmente como: “parece que o som vai, mas não vai”. Através de uma mistura dos elementos tradicionais das bandas de rock, tocados da forma mais anti-convencional possível, somados a uma infinita camada de texturas sonoras e efeitos de voz comandados por Patton, o Fantômas seria uma perfeita aquisição ao meu falecido programa de rádio Seqüela, que tinha como lema justamente “aumente o volume do seu mal-estar”; grindcore e doom metal com trilha sonora de desenho animado, batidas quebradas, guitarras mais que pesadas e gritos guturais, tudo para trazer um ambiente sonoro de completa insanidade.

A banda tem o costume de se reinventar a cada disco. Em The Director´s Cut, de 2001, encontramos um álbum composto por releituras de trilhas sonoras de filmes consagrados, passeando por “O Bebê de Rosemary” até “O Poderoso Chefão”. Outra curiosidade: nesse álbum, uma versão de “What a Feeling”, de Flashdance, teve que ser retirada na última hora por questões legais. Delirium Cordia, de 2004, traz uma única faixa, de 74 minutos, intitulada “Surgical Sounds Specimens from the Museum of Skin”, cuja ambiência (dizem) remete a uma espécie de hospital cirúrgico mal-assombrado. E o mais recente lançamento, Suspended Animation, traz 30 faixas, cada uma nomeada dia após dia do mês de abril de 2004, com encarte ilustrado pelo cartunista japonês Yoshitomo Nara. Em forte contraste com Suspended Animation, o tema desse álbum são as trilhas sonoras de desenho animado.

Essa resenha veio como uma tentativa sincera de compreender o que estava por detrás do espetáculo de selvageria e dissonância sonora gratuita que aturdiu os roqueiros na Cidade do Rock, e me incluo nesse rol; não sou profundo entendedor do Fantômas, e conheci a banda no dia do show mesmo, mas não podia deixar de saber mais sobre o projeto bizarro do Mike Patton. Uma coisa é certa: eu, que estava lá no frentão do palco, vi os gritos de aprovação e os vários “horns-up” dos espectadores no gargarejo; quem conhece a banda, disse que o show foi muito bom. Foram contabilizadas 3 camisas do Fantômas por espectadores do festival, contra apenas uma do Good Charlotte. E, no final das contas, o querido Mike Patton desabafou por todos nós, gritando a plenos pulmões no microfone em vários kilowatts de potência: “Claro que é Merda”. Aplausos a ele.




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