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O céu não caiu ou está caindo?
Por Tiago Cordeiro — Sexta, 2 de dezembro de 2005
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Entrei no CAP-UERJ completando 11 anos. Naquela época gostava de ler, livros e quadrinhos (nunca vi os quadrinhos como trampolim para literatura, me dedicava de forma diferente a cada um). Por isso, passei vários recreios ou tempos vagos na biblioteca do colégio (sim, eu detestava jogar futebol, ficar suado e voltar pra aula), tive a sorte de achar por lá um amontoado de revistas em quadrinhos de um personagem que, até então, jamais ouvira falar: Asterix, o gaulês.
De lá para cá, o Homem-aranha descobriu que era um clone, depois descobriu que não era clone coisa nenhuma, casou-se, ganhou novos poderes e etc; o Super-homem morreu, ganhou clones, ressuscitou, casou-se e etc. enfim...Os personagens de comics que me fizeram começar a ler quadrinhos passaram por inúmeras transformações (em alguns casos, as reformulações levaram às inevitáveis banalizações), mas o pequeno gaulês estava sempre lá. Firme e (super) forte. Um álbum só de tempos em tempos, com uma história simples (inegavelmente, a morte do roteirista Goscinny representou uma queda na qualidade das histórias, mas Uderzo escreve ainda enredos bastante interessantes), mas que sempre ficava na memória.
Esse ano, o álbum O Dia em que o céu caiu foi considerado por muitos, o último álbum do personagem. As razões não foram poucas: a capa da edição é idêntica a da primeira revista de Asterix (Asterix, o Gaulês); o título parece aludir a única coisa que os gauleses temeriam, o dia em que tivessem que enfrentar a queda do céu seria o fim de tudo e a própria história.
Com uma idéia metalingüística, poderia dizer que Asterix estaria em um lugar à parte da atual conjuntura nas histórias em quadrinhos. A trama gira em torno do surgimento de duas raças alienígenas interessadas em uma arma secreta dos gauleses (que a primeira vista pode parecer a poção mágica). A primeira é representada pelo alien (inequivocadamente parecido com Mickey Mouse) Tuncar (anagrama de Cartum) do planeta Walneydist (anagrama para Walt Disney) e a outra são os Nagmas (anagrama de Mangá). Nessa guerra, Asterix e seu povo ficam em meio ao fogo cruzado e acabam se aliando a Tuncar para vencer as máquinas “nagmáticas”.
As velhas piadas ainda funcionam (quem não conta os quadros para ler “esses romanos são loucos”? Ou diverte-se em ver o velho texto explicativo sobre os personagens principais e a aldeia de irredutíveis ao redor?). No fim das contas, nem mangá e nem cartuns tornam o guerreiro gaulês e seus amigos ultrapassados. Independente das referências às duas estéticas, não tenham dúvida de que Asterix é o grande protagonista é nele que a história gira. A tal arma secreta é muito mais o próprio carisma e vitalidade dos personagens do que a poção do druida Panoramix. Coisa que nem japoneses ou americanos conseguiram copiar.
Apesar de tudo, o próprio Uderzo, em entrevista à Folha de São Paulo, desmentiu tais boatos:
"Espero que não seja o último álbum e não desejo que seja. Adoro meu trabalho, é uma paixão que já tenho há 60 anos, não há razão para parar agora. A menos que os leitores não se interessem mais, o que seria uma indicação de que o trabalho envelheceu."
Asterix não envelheceu. Ao contrário do que alguns podem ter entendido com a trama, o que O Dia em Que o Céu Caiu prova é que o personagem ainda se sustenta e muito bem, apesar de toda a força da televisão e suas animações e dos mangás (verdadeiro tsunami cultural no mundo dos quadrinhos). De vez em quando, sai algum álbum do personagem e Uderzo comprova que a poção mágica ainda funciona. E vai funcionar enquanto seus dedos desenharem, por Tutatis!
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