Uma rajada de criatividade
Shane Black, roteirista da bem-sucedida série de filmes
Máquina mortífera, estava há quase dez anos sem filmar - desde que seu último roteiro,
Despertar para um pesadelo (1996), naufragou abruptamente nas bilheterias. É possível que, após tal fracasso, o roteirista tenha decidido repensar sua carreira e retorná-la através de um porto seguro, porque sua estréia com diretor,
Beijos e tiros, é não apenas um filme divertidíssimo como bebe na mesma fonte da série que o fez famoso - pode-se dizer que
Beijos e tiros está para o cinema
noir assim como
Máquina mortífera está para os filmes de ação.
No filme,
Robert Downey Jr. é Harry Lockhart, um assaltante de bom-coração nas ruas de Los Angeles que, devido a uma série de equívocos, vai subitamente parar em uma festa, na casa de um grande produtor de Hollywood. Na festa, ele encontra Harmony (
Michelle Monaghan), uma candidata a atriz que, na verdade, era uma amiga sua de infância. É também na festa que Harry conhece o detetive Perry (
Val Kilmer), que investiga um caso envolvendo o anfitrião da noite. Durante a madrugada, um outro crime acontece, envolvendo involutariamente Harry e Harmony, e a investigação deste caso mistura-se com o caso que já está sendo investigado por Perry.
O excelente argumento não encontra dificuldades para
Shane Black desenvolver sua verve de contador de estórias repletas de confusões e equívocos. Aliás, uma das grandes semelhanças do filme com
Máquina mortífera é o fato de ambas as realizações recorrerem - muito, e sempre com competência - à comédia de erros. Outra é um frescor impresso ao aspecto visual das cenas que permite ao espectador sentir - literalmente falando - o clima quente de Los Angeles, como se, até nas cenas internas, se visualizasse uma palmeira balançando ou um carrinho de sorvete - mérito do diretor de fotografia
Michael Barrett, e também de Shane Black, que soube beber na fonte de
Richard Donner, diretor dos quatro
Máquina mortífera, e transpor com felicidade o estilo da cinessérie a essa deliciosa realização.
E o mais importante:
Beijos e tiros tem uma estória muito bem desenvolvida, interpretada por atores que nitidamente embarcaram no clima de diversão e deram tudo de si pelo sucesso da trama. Trata-se de um filme que é uma simpatia só, e que cativa, entretem e diverte com uma habilidade rara, típica daqueles que parecem ter não um dom, mas
o dom para fazer isso.