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Opiniões ao vento - Parte 2
Por Leonel Dorkboy — Terça, 2 de dezembro de 2003
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Olá mais uma vez, leitores. Pois é, não teve coluna semana passada. Antes de eu me esconder de vergonha pela falha, quero me desculpar com todos, e dizer que foi apenas o pouco tempo disponível deste escriba que não permitiu que meu amontoado semanal de opiniões fosse redigido. Eu continuo amando vocês. Palavra de honra.
Voltando ao “guia arbitrário, incompleto, não-confiável e cheio de falhas dos quadrinhos no Brasil por Leonel Dorkboy”, vamos continuar a analisar alguns dos títulos mais importantes nas bancas nacionais. Para o alto e avante, então.
Continuando de onde paramos, vamos voltar aos títulos da editora Panini, atualmente a nossa “mega-corporação” de HQs. Além do Aranha, o outro carro-chefe da linha Marvel são, sem dúvida, os onipresentes X-Men. Contamos com dois títulos dos mutantes por aqui, X-Men e X-Men Extra, além do Arma X, do qual eu não sei nada, porque, francamente, nunca li um número sequer.
X-Men é, sem dúvida, a melhor revista X no Brasil atualmente. Isto tem uma explicação simples: Grant Morrison. Morrison (o criador dos Invisíveis) é um dos melhores escritores de quadrinhos da atualidade. Capaz de criar tramas mirabolantes e indubitavelmente “super-heróicas” sem perder a qualidade, o roteirista escocês nos traz o mesmo maravilhamento (existe essa palavra?) das HQs da nossa infância, sem contudo cair na nostalgia. Em uma entrevista recente, Grant (que adora uma polêmica) disse não gostar do estilo “anos 80” de quadrinhos de super-heróis, com tramas mais “realistas” e personagens mais pé-no-chão. Seus X-Men são super-heróis inteligentes, frios, apaixonados, cool e muito, muito poderosos. O charme das tramas do escritor são os elementos mirabolantes típicos dos super-seres, tratados com o capricho de um bom filme de ficção científica. A “gêmea genética” do Professor X toma o controle do Império Shi’ar! O maior criminoso mutante do mundo pede ajuda aos X-Men! Micro-sentinelas se infiltram na corrente sangüínea dos mutantes, matando-os como uma praga! Parece que todas as tramas de Grant Morrison têm que ser expressas assim, com pontos de exclamação. São tramas com o exagero e a estranheza fantasiosa que tornam os super-heróis um gênero atraente, mas sem tratar o leitor como idiota. Os poderes dos mutantes são explorados como nunca, e os telecinéticos em especial mostram tudo do que são capazes.
A arte em geral é do maravilhoso Frank Quitely, mas às vezes Igor Kordey toma as rédeas (quando Quitely atrasa demais), com resultados, digamos... insatisfatórios. Ainda na revista X-men, temos as histórias de Uncanny X-men, com roteiros de Joe Casey e arte de Sean Phillips. Tanto Casey quanto Phillips não chegam a ser ruins, mas ficam na média mediocridade mediana das HQs. Não chegam aos pés dos seus colegas de revista, mas Casey está começando a explorar o que parecem ser seus temas favoritos (corporações, altos negócios) através do personagem Anjo, e seus roteiros parecem estar melhorando. Por fim, o pior. Temos as histórias solo do Wolverine com argumentos pavorosos de Frank Tieri e arte horrenda de Sean Chen. Incrível como Tieri consegue juntar tantos clichês do baixinho canadense sem nunca acrescentar nada de novo. Deve ser uma habilidade única. Já Sean Chen parece ter estacionado no estilo “caras fortões e hachuras” do meio dos anos 90, e não percebeu que esta época já passou. Sorte que a próxima fase do Wolverine (com argumentos de Greg Rucka e arte de Darrick Robertson, ambos excelentes) vem aí.
O segundo “título X” da Panini é X-Men extra. Diferente da sua revista-irmã, este título é, em grande parte, dispensável. Temos os X-Treme X-men de Chris Claremont, que são essencialmente personagens e histórias dos anos 80 requentadas pelo outrora genial escritor. Triste ver como os grandes caíram. Pegando os “seus” X-Men, Claremont investe em coisas pra lá de manjadas, como invasões dimensionais e personagens sendo “incriminados”, sem contudo (diferente de Grant Morrison) atualizar estes temas ou jogar algo novo no caldo. Pelo contrário, suas histórias parecem desenhos animados da década de 80 (no pior sentido possível), onde os personagens sabem o “assunto” da trama e voltam todas as suas atenções para isto, mesmo sem motivo algum. Em uma passagem particularmente constrangedora, os heróis, sem razão nenhuma estão falando de um broche que a personagem Tempestade usa. Quando um estranho brilho começa a surgir no meio da sala, alguém afirma “deve ter a ver com o broche de Tempestade!”. Terrível. A única coisa que salva os X-Men extremos é a arte de Salvador Larroca, muito bom dentro do seu estilo “músculos e seios”.
Temos também os Exilados, um time de X-Men de realidades alternativas viajando por outras realidades alternativas. As histórias até são boazinhas (escritas por Judd Winick), e a arte é passável (a cargo de Jim Calafiore), mas o grande problema é que o argumentista parece fazer o “mínimo indispensável” para introduzir personalidade nos personagens. Quando parece que teremos um bom desenvolvimento dos relacionamentos entre os membros da equipe, Winick corta a trama e deixa tudo por isso mesmo. Irritante também é o “truque” da série, o aparelhinho que transporta os heróis às diferentes realidades quando uma “missão” está cumprida. A sensação é que estamos vendo uma daquelas séries americanas onde cada episódio termina exatamente como começou, e nada de significativo muda. Mesmo as alterações no elenco da equipe (obra também do aparelhinho) acontecem muito “de repente” e sem grandes conseqüências. Em resumo, um bom conceito mal-explorado. Ainda em X-Men Extra temos algumas histórias “mix” da série “Ícones X-Men” ou outras minisséries que nunca chegam a empolgar. Mas o ponto alto da revista (e o que me faz comprá-la todos os meses) é a maravilhosa X-Force (agora chamada de X-Táticos). Com ótimos argumentos de Peter Milligan e maravilhosa, estupenda, incrível, outros adjetivos hiperbólicos, arte de Mike Allred, os X-Táticos são a coisa mais ousada a pousar nas páginas X nos últimos anos. Com histórias de ironia mordaz que não ficam devendo nada aos melhores títulos adultos do mercado, os X-Táticos são um time de mutantes “celebridades”, uma equipe empregada pelo governo em missões de alto risco (e altíssima taxa de mortalidade) em troca de salários astronômicos e uma vida de estrelas de cinema.
Os personagens de X-Táticos têm falhas, vaidades, medos e problemas típicos dos “ricos e famosos”, competindo por popularidade dentro da equipe e criando polêmica para atrair atenção da mídia. Peter Milligan não tem medo de matar seus personagens, o que faz com freqüência e crueldade, sem poupar nem mesmo os personagens principais. Em um time de “forças especiais”, Milligan deixa bem claro que a morte é uma realidade constante, e a ressurreição (tão comum em títulos de super-heróis) não existe. Mas não espere histórias depressivas e tramas “realistas”: o que vale aqui é a ironia com a sociedade contemporânea, a gozação com o culto às celebridades e com os próprios super-heróis. A série não é uma comédia, nem um drama, mas uma mistura inteligente e única dos dois, que a torna imperdível. Além disso, temos o líder ad equipe, Órfão, provavelmente o super-herói mais bondoso e correto da Marvel. E, francamente, mesmo que não houvesse história nenhuma, só a arte de Mike Allred já vale o preço da revista...
Bem, eu acabei me excedendo de novo e nós temos que ficar por aqui. Mas voltem semana que vem, quando nós concluiremos este guia incompleto, arbitrário e épico do que é e não é legal nos quadrinhos hoje em dia. Até lá!
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