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Nem tão original assim
Por Rafael Lima — Terça, 22 de novembro de 2005
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Eisner Award é o maior e mais respeitado prêmio da indústria dos quadrinhos: pense no que seria um Oscar que nunca desse tiros n'água. Portanto, é natural que as atenções se voltem para o lançamento nacional de The Originals – Sangue nas Ruas, pela Conrad, ganhador do prêmio de melhor graphic album em 2005, com arte e roteiro de Dave Gibbons.
The Originals é a narrativa ficcionalizada e estilizada dos conflitos entre gangues juvenis que estouraram na Inglaterra na década de 1960, particularmente mods e rockers. Como pouca gente fora do eixo USA-UK saberia dizer, de estalo, o que são mods ou rockers, a validade da obra já começa a ser questionada daqui – ou isso, ou assume-se de vez a infantilização e a massificação da cultura. Afinal, qual a importância cultural relativa de agremiações juvenis que se diferenciavam pelo corte de cabelo, jeito de vestir, gírias no linguajar e gosto musical? Nada, rigorosamente, que não tivesse sido previsto por Anthony Burgess em A Laranja Mecânica, com muito melhor paladar literário.
Como convém, em The Originals estão presentes todos os elementos esperados: ritos de passagem, histórias de companheirismo e lealdade, o primeiro amor, violentas brigas de gangues, todo tipo de evento que assume proporções cósmicas quando não se tem barba no rosto, mas que soa nada mais do que ingênuo depois de alguns (poucos) anos. Ler The Originals é, essencialmente, um exercício de nostalgia, de busca do tempo perdido; é brincar de Peter Pan e se negar a crescer. É se enxergar nas tentativas de Lel, o protagonista, entrar para a gangue dos Originals; se identificar com a indestrutível amizade entre ele e Bok e com o namoro com a linda Viv; é nutrir o ódio que ele sente pelos rivais Dirts e curtir seus passeios de hover (uma espécie de hovercraft em forma de motocicleta).
Se o roteiro não empolga tanto (você já viu essa história em O Selvagem, O Selvagem da Motocicleta ou Juventude Transviada antes, só para citar três), o mesmo não se pode dizer da arte. O traço de Dave Gibbons está ainda mais refinado e estilizado do que em Watchmen, mesmo do que em Martha Washington. A economia e a sutileza das linhas é de qualidade européia (impressionante como mesmo as cenas mais visualmente violentas ficam bonitas sob sua concepção), mas o que realmente impressiona é o cuidado extremo com cenários, figurinos, arquitetura, até penteados que transmite uma irresistível sensação de passado, pintando tudo com um ar retrô e ao mesmo tempo futurista. Contribui em grande escala para isso a escolha do preto e branco ao invés da cor: primeiro, porque dá a impressão de que se está assistindo um filme dos primeiros tempos da televisão; segundo, porque uma palheta de cores mal escolhida poderia facilmente arruinar o clima nostálgico.
Gibbons encaixa tudo com um senso de design impecável na diagramação das páginas, particularmente notável nas cenas de batalha campal ou de discoteca, com uma narrativa visual que chega a ser didática de tão fluente. Uma das melhores manhas é o uso de margens à esquerda e à direita como espaços para a narrativa em off, limpando os quadros para a arte – como é que ninguém explorou essa idéia antes? O autor ainda mostra que aprendeu as lições de Alan Moore em dois momentos. O primeiro é o desenrolar de duas cenas em paralelo, uma de amor e outra de violência, bastante semelhante a uma situação de Watchmen, inclusive usando o artifício de não mostrar as partes mais explícitas. O segundo é o uso de elementos externos à narrativa apenas para fins de contexto e realismo: assim, se Moore incluiu entrevistas, fichas policiais, trechos de livros ou documentos ao fim de cada capítulo de Watchmen, Dave insere anúncios de lojas de roupas e convites para boates forjados, claro, para ambientar o leitor naquele universo que até parece real.
The Originals é uma história visualmente pujante, mesmo que limitada. Talvez seja uma excelente pedida para introduzir Aquelas Pessoas Que Nunca Leram Quadrinhos Adultos nesse universo, mas deixa os leitores mais experientes definitivamente à procura de algo mais. Que tenha sido laureado de forma tão eloqüente é um claro sinal dos tempos.
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